Por Aluísio Azevedo (1884)
Logo que o estudante se afastou com a vela, o quarto recaiu na sua dúbia claridade modorrenta. Os ventos frios da madrugada continuavam a soprar. O moleque foi até a janela, olhou a rua em silêncio, acendeu um cigarro e, quando viu que o seu homem parecia serenado, tratou de reassumir o sono.
O senhor é que não podia sossegar, com a idéia naquele pobre rapaz, que ali morria aos poucos, sem família, nem carinhos de espécie alguma; sem ter ao menos quem o tratasse, nem dispor de um amigo que se compadecesse dele.
— Infeliz criatura! Pensava .— Além do mais, longe da pátria, longe de tudo que lhe podia ser caro!
E, sacudido de estanhas condolências, imaginava o pobre desterrado saindo de sua aldeia em Portugal, atravessando os mares, atirado no convés de um navio, afinal no Brasil, neste país-sonho, a trabalhar dia a dia durante uma mocidade, e economizar, e sofrer privações; depois - falir, perder tudo de repente, achar-se em plena miséria e com a ladra da tísica a comer-lhe os pulmões! Oh! cortava a alma!
Não se podia esquecer do desespero com que o desgraçado o chamava, como se lhe quisesse pedir alguma coisa, fazer alguma revelação: — Talvez, quem sabe? Até o tomasse, no seu delírio, por algum amigo: porque Amâncio se não enganava, chegara a distinguir-lhe balbuciar o nome de alguém. — Não podia ser outra coisa, o mísero chama v apor um amigo!
— Mas, também, que idéia, a sua, de andar por aquelas horas a visitar moribundos! Que diabo tinhas ele, no fim de contas, com o tal tísico?...Ora essa!
O vulto esquelético não lhe saía. porém, de defronte dos olhos, com a sua ronqueira lúgubre, sempre a lhe estender os longos braços sem músculos e a rolar nas órbitas, convulsivamente, aqueles dois bugalhos luminosos.
Fechou a porta do quarto, despiu o sobretudo que havia enfiado, apagou a vela e recolheu-se à cama.
* * *
Era inútil; o sono não vinha; o quarto às escuras fazia-lhe mal aos nervos. No fim de meia hora, ergueu-se novamente, tentou acender um bico de gás, haviam fechado no registro; recorreu à vela e assentou-se à mesinha diante de um livro. O tísico gemia.
— Que maçada! resmungou Amâncio, sem se poder safar da impressão que trouxera do quarto “daquele diabo”! E cansava os olhos contra as páginas do livro, lendo sem compreender.
Vinham-lhe bocejos repetidos, ardiam-lhe os olhos.— Agora talvez dormisse.
O importuno parecia sossegado, pelo menos não se lhe ouvia gemer.
Amâncio voltou à cama, sem ânimo de apagar a vela.
Quando estava quase adormecido, passos agitados no corredor o despertaram em sobressalto e uma pancada em cheio na porta fê-lo erguer-se de pulo e precipitar-se para ela.
Sabino e o tísico vieram-lhe à memória. Ouriçaram-se-lhe os cabelos, enlixouse-lhe a pele, e o coração bateu-lhe com mais força.
— Que teria sucedido? A mão tremia-lhe ao forçar o trinco.
A porta afinal cedeu, e Amâncio sentiu cair desamparadamente no chão o corpo comprido e nu do héctico.
Estava horrível. Queria erguer-se, e em vão agitava as pernas e os braços. Amâncio tentou ajudá-lo, gritando ao mesmo tempo pelo Sabino. Os membros do tísico pareciam quebrar-se-lhe nas mãos, que escorregavam com a gordura fria do suor, e no soalho manchas de umidade desenhavam-lhe já o feitio do corpo.
O estudante desejava chamar por alguém. — O Sabino dormia com certeza! — Peste! Fez um movimento para sair; mas o esqueleto agarrou-lhe violentamente os pulsos e pediu-lhe com uns vagidos dolorosos que ficasse.
De seus olhos corriam duas lágrimas compridas.
Depois de um esforço terrível, conseguiu falar. Eram sons apenas murmurados, fracos, quase imperceptíveis
Amâncio tinha razão: O desgraçado, no delírio de sua fraqueza, o tomara por algum bom amigo. Suas palavras vinham-lhe aos lábios roxos impregnadas de confiança e de amor. Falava de coisas estranhas ao outro; perguntava-lhe por indivíduos desconhecidos para Amâncio e reprochava-lhe a culpa de não ter vindo mais cedo.
Depois referiu-se dolentemente à sua terra; tratou da infância, rindo, com os olhos cheios d’água. Pediu que Amâncio, logo que lá voltasse, fosse à procura do senhor padre, e encomendasse-lhe três missas.
Em seguida, fez um esforço para chegar ao ouvido do rapaz e começou, em ar de mistério, a ensinar-lhe um caminho longo, muito longo... Explicava-lhe ruas, as voltas que era necessário fazer para chegar lá; afinal, dava-se com uma choupana. Uma velhinha entrevada fazia meia a um canto da casa. Amâncio que se aproximasse dela e lhe dissesse em segredo que o João, o seu querido filho...
Uma agonia violenta tolheu-lhe a fala. Ele ainda tentou dizer alguma coisa, mas o sangue purulento já lhe golfeava da boca e caía-lhe um jorro pelo corpo. Estirou-se todo, dobrou a cabeça para trás e, depois de entesar num estremecimento os membros rechupados, foi pouco a pouco cerrando os lábios e empenando o corpo com um gemido longo e sentidíssimo.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.