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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

Apesar da recusa de Seixas, suas relações com Aurélia tornaram-se desde aquela tarde mais esquivas. A moça já não caprichava como nas primeiras semanas em passar a maior parte do tempo na companhia do marido. Este de seu lado, receando tornar-se importuno, conservava-se arredio enquanto a mulher não manifestava o desejo de tê-lo perto de si. 

Dias houve em que não se viram. Seixas saía muito cedo para a repartição; Aurélia ia jantar com alguma amiga; só no outro dia às 4 horas da tarde se encontravam de novo. 

Essas tardes em que Fernando ficava sozinho em casa, pois D. Firmina acompanhava Aurélia, ele as aproveitava para ir ver a mãe, que ainda habitava na mesma casa da Rua do Hospício. 

Excitava reparo entre os conhecidos de D. Camila, que o filho a deixasse na vida obscura e necessitada, em vez de chamá-la para sua companhia, ou pelo menos de ajudá-la a passar com outro decência e abastança. 

D. Camila não se queixava; mas apesar de seus extremos por aquele filho, e da abnegação de sua ternura, tinha estranhado consigo, que Fernando depois de casado, não pensasse em dar às irmãs uma lembrança qualquer. 

Mui raras vezes aparecia Fernando em casa da mãe, e de passagem. Nisso não reparava D. Camila, embora lamentasse que a posição do filho e seus deveres sociais não lhe permitissem possuí-lo por mais tempo. 

Mariquinhas a princípio excitava a mãe para irem à casa de Seixas nas Laranjeiras e até para lá passarem um dia. A mãe desabituada à sociedade receava-se da crítica de Aurélia. Todavia essa razão não a demoveria se Fernando insistisse; porém ele ao contrário fez-se desentendido e desconversou aos primeiros rodeios da irmã. 

Não passou despercebida a Aurélia essa esquivança da família do marido. Uma tarde em que Seixas recebeu à sua vista um bilhete de Nicota, ela o interpelou: 

- Sua família depois da noite de nosso casamento nunca mais voltou a esta casa! Será por meu respeito? 

- Não; o culpado sou eu que nunca lhes falei nisso. 

- E porque? 

- Julgam-me feliz. Não quero roubar-lhes essa doce ilusão. 

- Aqueles que nos visitam e que freqüentamos não andam iludidos? 

- São indiferentes. Olhos de mãe lêem n'alma do filho como em livro aberto: aquilo o que não vêem, adivinham. 

- Quer fazer uma aposta? 

- Sobre? 

- Sou capaz de enganá-la como tenho enganado a todos. 

- É possível; ela não é sua mãe. 

O bilhete de Nicota comunicava a Fernando o dia que fora marcado para seu casamento, o qual celebrou-se na seguinte semana, em um Sábado conforme o uso geral. 

Seixas ocultou da mulher essa particularidade. Na tarde em que devia ter lugar o casamento, saiu de casa a pretexto de fazer uma visita a um ministro, e assistiu à cerimônia. Levara à irmã uma jóia; mas de valor insignificante para sua riqueza. 

Essa mesquinheza junta à circunstâncias de apresentar-se a pé, fizeram suspeitar às pessoas presentes que a imprevista opulência abalara o caráter de Seixas a ponto de transformá-lo de perdulário que era, em refinado avarento. 

Outro casamento efetuou-se por esse tempo. Foi o do Dr. Torquato Ribeiro com Adelaide Amaral. 

Dias antes, o noivo recebeu por intermédio de Lemos um recado de Aurélia, que pedia-lhe o seu recibo des cinqüenta cruzeiros, pois chegara a ocasião de pagá-lo. Foi Ribeiro às Laranjeiras, cogitando na surpresa que a moça lhe preparava. 

- Aqui tem o que lhe devo; as três cifras são o presente de Adelaide. 

Ribeiro abriu o papel; era uma letra ao portador de cinqüenta  mil cruzeiros passada pelo Banco do Brasil. Ele fez um gesto de recusa; a moça atalhou-o. 

- Não tem o direito de rejeitar. Foi o preço da minha felicidade. Meu tio garantiu ao Amaral que o senhor possuía este dinheiro, sem o que ele não consentiria em desfazer o casamento da filha com Fernando, e este não seria meu marido. 

- Como lhe havemos de pagar nunca tamanho benefício? disse o moço comovido.

- Sendo feliz, respondeu Aurélia. 

- Basta-me ser tanto como a senhora. 

- Como eu? 

- Sim; não é tão feliz? 

(continua...)

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