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#Crônicas#Literatura Brasileira

Vida Urbana

Por Lima Barreto (1921)

Restituído à paz tranquila de meu lar, confortável pela inquebrantável solidariedade dos meus amigos, tanto os de fora como os de dentro, homens honestos e

ativos, mais ativos e honestos do que os agentes, delegados, promotores e juízes que me prenderam, me inquiriram, me acusaram e me julgaram, cumpre-me, como dever primordial, agradecer a todos que acreditaram na minha afamada honestidade, desde o negócio do “Fé em Deus” até o momento atual. Pretendo, muito em breve, explicar a esses dedicados amigos, “externos” e “internos”, como sou proprietário, e me faço de lord nos prados de corridas, como gasto contos e a grito de níqueis executo outras grandes proezas monetárias.

O juiz que me julgou sem culpa no cartório, é um doutor formado e sabe as coisas de leis, de exceções, de incompetência, de Carrara, de Story, de Alberto Beaumont, etc; e sempre esperei que ele procedesse como procedeu.

Se fosse o júri que me inculpasse, composto de cidadãos que não estudaram, leis e textos esotéricos de matéria criminal, os jornais cairiam em cima do julgado e diriam cobras e lagartos do tribunal popular; e o Instituto de Advogados, no intuito de moralizar a Justiça e arranjar mais empregos para bacharéis, deitaria uma lengalenga pelos jornais, com citações de juristas chineses, hindus e alemães, para pedir a supressão da malsinada instituição que absolve; mas... foi um juiz togado. E, sendo assim, a minha inocência não tem nenhuma eiva e não merece a mínima censura. Ela é tão justa como se fosse decretada pela própria Têmis , como me disse o doutor Aristóteles, no pretório. Resta-me continuar a minha sã e honesta vida, tão necessária à falta de numerário de que se queixam os bancos e certos financeiros.

Continuarei, portanto, a tocar guitarra porque, italiano de nascimento, amo muito a música; e, sendo do sul da Itália, durante muito tempo ocupado pelos espanhóis, a música de lá tem, quer nos instrumentos empregados, quer no ritmo, muito do gosto castelhano. A “guitarra” é, como se sabe, instrumento preferido pelos espanhóis e seus descendentes, entre os quais se incluem “os chilenos”.

Finalizando, posso dizer que agora, só aguardo o paraíso e ser beatificado pelo

Papa. Vou, como já disse continuar a agir e a tocar “guitarra”, nas horas vagas, seja no Catete ou na Saúde – enfim, em qualquer lugar; e, quanto ao resto, o sereno julgamento do futuro, auxiliado pela fortuna por mim acumulada, durante tantos anos, de trabalho ímprobo, tapará a boca dos meus desafetos, dos meus detratores e dos invejosos das minhas habilidades na “guitarra”, donde tiro sonoridades áureas – coisa que não é para qualquer.

Hercílio Pigatti da Câmara Ferreira.

(Transcrevemos dos “apelidos” do A Virtude, diário religioso desta capital). Careta, Rio, 1-10-1921.

ESTUPENDO MELHORAMENTO

É bem possível que, sob o governo desmontador do senhor Sampaio312, os serviços da prefeitura não tenham progredido ou desempenhado o papel normal que lhes cabe; mas, uma outra iniciativa não se pode negar a esse iluminado prefeito que está aí, homem ultrapoderoso que até desafia, com a sua engenharia de máquinas de lama, as fúrias do oceano.

Em matéria de higiene, só lhe resta, ao que parece, a Assistência Pública Municipal que, graças a Deus, ainda continua a ser uma instituição benemérita, muito pouco oficial, pela sua presteza e solicitude. Dou disto testemunho pessoal, pelo menos no que toca ao posto do Méier.

Em matéria de obras, o serviço da prefeitura é valorizar as areias de Copacabana e adjacências e bater-se contra os furores de indignação do mar sem fim e sem amo.

Em matéria de instrução é que se abre uma exceção e, também, onde não se pode negar ao atual prefeito, uma útil iniciativa, como já notei mais atrás.

Todos os prefeitos do Distrito Federal (que nome horrível!) sempre se voltaram para a instrução pública: uns, construindo edifícios para escolas; outros, instituindo estabelecimentos de ensino profissional; outros, lembrando a criação de escolas noturnas para adultos ou para crianças; um outro, muito sabiamente, o maior, aboletou numa escola, que não cabia duzentos, mil e quinhentos alunos. O doutor Sampaio fez coisa mais extraordinária: de um dia para outro, decretou que todas as crianças pobríssimas, tais são as que comumente frequentam as escolas públicas soubessem pronunciar francês. Disraeli nunca o soube bem; Diez que, teoricamente, o sabia como ninguém, segundo Gaston Paris, tinha dificuldades em falá-lo desembaraçadamente; mas – como são as coisas desta terra e o quanto pode um ukase do ultrapoderoso doutor Sampaio! – as crianças do Rio de Janeiro, num instante, aprenderam-no logo e cantaram magnificamente o hino belga, em coro, caindo de inanição, de sede e insolação, na Quinta da Boa Vista. Contam que o Rei Alberto, que recebia a estranha homenagem, dissera, ao ouvi-las:

– Quando cantado, o português se parece muito com o francês.

(continua...)

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