Por Lima Barreto (1921)
Os provincianos que nos dirigem, muito são culpados desse rastaquerismo ultrabobo. Quando eles cavam um passe lá nos seus Estados e embarcam para o Rio, vêm fascinados, pois já sonharam com Botafogo desde a meninice. Para eles, não há nada como Botafogo, a não ser Petrópolis; e são eles que, nos jornais e nas suas peças de cordel, exaltam as pulhices botafoganas, afetam desprezo pelos outros bairros, onde quase proclamam não haver família, nem moralidade algumas. Verdadeiros zungas... Dessa forma, sem querer, ele animam os especuladores a embelezar areais à custa dos cofres públicos organizando uma verdadeira jogatina com os preços dos terrenos das restingas que eles compraram por dez réis de mel coado.
Os lamentáveis conflitos que se vêm dando entre estudantes e o pessoal da Light, por causa de passagens, para a Praia Vermelha, é uma consequência dessa bisonha e fútil mania por Botafogo.
Uma cabeça de algum senso que não estivesse entupida com frases de
alfarrábios soporíficos e tivesse uma verdadeira visão e consciência da responsabilidade da direção de qualquer coisa, não iria pôr uma escola frequentada por mais de mil rapazes, num recanto afastado da cidade, servido por uma única linha de bondes, de passagens caras, só porque esse recanto fica para as bandas de Botafogo!
Um estabelecimento, mais ou menos sustentado pelo Estado, em tudo, tem por escopo primordial servir ao maior número de cidadãos; e a sua situação devia obedecer a esse critério, o que levaria a ser o seu edifício erguido em lugar o mais central possível da cidade. Entretanto, a botafogana vaidade dos que mandam nessa joça, foram colocálo numa das portas da metrópole, cujo acesso em bondes é relativamente desperdício para as bolsas médias, e ninguém protestou. Daí, os conflitos.
Querem saber de uma coisa? No Brasil, tudo é possível.
Quando a vaidade toca os nossos homens de governo, eles estão dispostos a fazer as maiores tolices.
Ainda devemos dar graças a Deus que tenham posto a Faculdade de Medicina na Praia Vermelha; podiam muito bem edificá-la em Petrópolis. Careta, Rio, 6-8-1921.
A PESCARIA
O Jorge era, apesar de boêmio, um bom chefe de família. A sua mulher que lhe sabia cavalheiro e bom marido não se importava absolutamente com as suas extravagâncias. Eles viviam na maior paz e harmonia. Chegasse ele às dez, às onze ou às quatro horas da madrugada, a recepção era a mais cordial possível.
Um dia pela semana santa, isto é, na quinta-feira da Paixão, Jorge chegou em casa e disse à mulher:
– Eugênia, amanhã vou pescar e você me acorde cedo. Da. Eugênia recebeu a recomendação com todo o carinho e, no dia seguinte, logo pela manhã, pela madrugada, despertou o marido.
Jorge saiu lépido e contente com o prazer que ia dar à cara-metade.
Em chegando ao primeiro botequim, porém, abancou e pôs-se a beber. Comer e beber, a questão é começar; e ele tinha começado e continuou.
Quando chegou aí pelo meio dia, lembrou-se da pescaria que tinha prometido à mulher.
– Como havia de ser? pensou ele de si para si.
A canoa e os companheiros já deviam ter partido, e precisava levar os peixes.
Entrou em uma confeitaria e comprou camarões, postas de peixe, siris, ostras, etc.
Tomou o bonde e foi para casa. Entregou os embrulhos à mulher e foi dormir, tão cansado estava da pescaria. Às cinco horas, da . Eugênia veio-lhe despertar:
– Jorge! Jorge! Vem jantar.
Ele ergueu-se e foi para a sala de refeições. Quando lá chegou e viu aqueles primores de confeitaria, perguntou à mulher:
– Que diabo é isso? Estamos em piquenique? A mulher acudiu:
– Isto é a pescaria que tu fizeste!
Careta, Rio, 13-8-1921.
VEJAM SÓ
Sobre a regulamentação do jogo muito se há escrito, antes e depois da passagem da lei que estabeleceu semelhante medida.
Não segui tais escritos porque não me interessavam. Sempre se jogou aqui e em toda parte, de alto abaixo; é uma paixão, o jogo, que não pode ser combatida. Fingir que ela desaparece só porque a lei a proíbe, é refalsada hipocrisia. Isto têm sido dito muitas vezes; mas convém repeti-lo mais
O que, porém, me tem causado espanto, é o número avultado de clubes que se tem habilitado perante a lei, para funcionar e, consequentemente, o número de fiscais respectivos nomeados.
Não se podia acreditar que houvesse tanta gente que jogasse, a ponto de poder sustentar tantas casas de jogo.
Verifiquei pela leitura dos jornais que não é só todo o Rio de Janeiro que joga, mas também todo o Brasil.
Entretanto dizem que isso é vício de quem tem dinheiro, donde se conclui que o Brasil é país rico. Até agora se sabia que era rico em produtos naturais; hoje se sabe que o é também em dinheiro de contado.
Outra coisa que se nota nessas noticias é o nome desses clubes.
Em geral, eles têm nomes pomposos em inglês, em francês, em turco e em chinês. Creio que assim eles disfarçam um pouco o vício.
Chamando-se Aplomb Club a roleta ou o dado ficam mais virtuosos; é como aquele sujeito que não se julgava bêbedo porque não se embriagava com parati, mas sim com Pommery.
Entretanto, apesar desse luxo de nomes, encontrei um com título mais modesto.
Chama-se – Club Saia Fora do Bloco; e é na Rua do Ouvidor! Vejam só!
Careta, Rio, 20-8-1921
DECLARAÇÃO NECESSÁRIA (O CASO DOS 250 CONTOS)
(continua...)
BARRETO, Lima. Vida urbana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2171 . Acesso em: 8 maio 2026.