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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

— Deixa lá isso! respondeu ela. Ainda não me deste um beijo!...

Portela apressou-se a cumprir essa ordem, mas a rapariga notou que o impulso não era natural. O amante parecia fora de si.

— Estás insuportável, exclamou ressentida.

Portela confessou que se achava sobressaltado.

— Não sei o que tenho! disse ele. É a primeira vez que me acho neste estado. Sinto tremores pelo corpo. Olha como tenho as mãos frias!

— Eu também estou assim! respondeu ela, abraçando-se ao rapaz. Mas não podia deixar de vir! Afigurava-se-me que morreria se não estivesse hoje contigo...

Ah! tu não calculas o que isto é! Que noite! Que dias! Tudo me enjoava, tudo me fazia nervosa! Não podia suportar ninguém! Se soubesses como eu ficava, quando te via perto de mim sem te poder falar! Oh! Luiz! um verdadeiro suplício!

E interrompeu-se, reparando que o rapaz, em vez de lhe prestar atenção, parecia preocupado com outra coisa.

— Mas que diabo tens tu hoje?! Estás distraído! Quase que não olhas para mim!

Portela respondeu puxando-a para os joelhos e cobrindo-a de carícias. Naquela ocasião fazia ele essas coisas por condescendência, por honra da firma. E Teresa compreendeu tudo perfeitamente.

— Já não gostas de mim! queixou-se ela, tornando-se igualmente pensativa.

— Que idéia a tua! respondeu o outro, procurando fazer-se apaixonado.

Nunca te amei tanto! Nem sei mesmo onde isto irá parar!...

— Mas então por que estás assim tão esquisito?!... — Sei cá, disse ele, mas não me sinto bem...

Dai a duas horas Teresa entrava de novo no carro e seguia para a casa da tal amiga.

Ia furiosa. Portela naquela entrevista não levara, absolutamente, nenhuma vantagem ao comendador.

— Já me não ama! repisava consigo a leviana no seu desapontamento. Já me não ama!

E as lágrimas saltaram-lhe dos olhos.

Ao contrário do que sucedera com o marido, a frieza incidental de Portela, em vez de a fazer aborrecê-la, puxava-a cada vez mais para ele com todos os liames do desejo e do ciúme.

Depois daquela entrevista, Teresa de novo piorou de gênio, tornou-se frenética e nervosa; voltou a tratar o marido por "Seu Ferreira", e a não poder suportar Olímpia, nem o Jacó. As suas plantas na horta foram abandonadas; afinal já não cantarolava à costura e estava sempre a pedir que a não importunassem.

Portela, como todo homem fútil, ficara igualmente muito preocupado com o malogro da entrevista, e tratou de realizar uma nova, só com a vaidosa intenção de destruir o mau efeito da primeira. Depois seguiram-se outras, e outras; até que o rapaz alugou em Catumbi uma casinha adequada aos seus amores e principiou a receber a amante, regularmente, duas vezes por semana. No fim de dois meses já se riam eles dos seus primeiros sobressaltos.

Teresa tornara-se um pouco descuidada com a vizinhança. Já não tinham entre si a menor cerimônia; tratavam-se já como velhos amigos, à vontade, cônscios de que qualquer um faria falta ao outro, por uma questão de hábito. Já não havia entre eles frases apaixonadas, havia agora as pilhérias da intimidade velhaca e pagodista.

Teresa possuía uma chave do latíbulo, entrava sem sobressaltos, mudava de roupa, porque ela já tinha roupa em casa do Portela, e depois esperava que chegasse o amante.

Um dia apareceu fora da hora em que costumava, e disse resolutamente que não estava disposta a voltar para o lado do marido. Portela fez um grande ar de surpresa.

— E o que te digo! sustentou ela; não volto!

— Mas filha, pense um pouco antes de fazer semelhante asneira! Tu sabes que nem tudo neste mundo são rosas!...

— Ora! respondeu ela, sacudindo os ombros. Estou farta de ouvir conselhos!

— Mas é que eu...

— Não podes ter mulher, não é isso?... Ora escuta lá e depois me darás a resposta...

— Então já tens um programa?! perguntou Portela, a sorrir.

— Um programa? Sim, e tenho também coisa ainda melhor! tenho um dote, disse ela; um dote em ações, que me fez meu marido por ocasião de casarmos...

— E daí?... perguntou o rapaz.

— Daí é que deixamos o Rio de Janeiro; metemo-nos em qualquer província ou onde melhor te pareça, e tu te estabeleces com o meu dote, o que será fácil, pois, com o talento que possuis para o comércio...

— Isso é asneira!

— Asneira, por quê?!

— Porque, desde que abandones o comendador, nenhum direito terás ao dote que ele te fez.

— Diz a Chiquinha que não.

— A Chiquinha não entende disto!

— Eu então não tenho direito a coisa alguma?!

— Sei cá; só um advogado o poderia dizer...

— O que me parece é que tu não tens vontade de ficar comigo...

— Não sejas tola! Se não tivesse já o teria declarado há mais tempo.

(continua...)

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