Por Aluísio Azevedo (1884)
Mme. Brizard pranteava-se toda, quando lhe falavam na filha. — Era uma desgraçada, dizia, com os olhos epispados pelo esforço que faziam — era uma grande desgraça! Antes Deus a levasse logo para si, coitada!
Um encontro, que Amâncio não pudera evitar, a despeito de suas precauções, deixou Nini em tal excitação nervosa, que o doutor proibiu que a consentissem fora do quarto. Ficou presa desde esse dia.
Malgrado a felicidade prevista ao lado de Amélia, o provinciano sentia já bastante desejo de se tirar dali. — Assim estivesse bom!
Campos, em uma visita que lhe fez por essa ocasião, falou muito na generosidade com que se portara a família do Coqueiro durante a moléstia do rapaz. — Que aquilo era uma fortuna que nem todos abichavam! Citou principalmente as canseiras de Amelinha e concluiu declarando que, segundo o seu fraco modo de pensar, Amâncio tinha obrigação de fazer à menina um qualquer presente de valor.
Sim! porque, no fim de contas. Era muito difícil encontrar daquilo nas casa de pensão! Outros foram eles, que Amâncio teria de Pôr os quartos na rua! — Não.
Inquestionavelmente, era preciso dar o presente! E, depois de se concentrar numa pausa:
— Aí uma jóia de uns cem mil-réis...Que diabo! Esse dinheiro não o faria pobre...
Mas o estudante, em voz discreta e abafada, confessou ao Campos que a brincadeira não lhe havia saído tão de graça, como parecia à primeira vista: Só no mês passado gastara perto de seiscentos mil-réis, sem contar que o Sabino vivia numa dobadoura, de casa para a botica e da botica para a casa, e eram remédios para Nini, remédios para o tísico do n.º 7, água de flor de laranja para Mme. Brizard, xaropes para o Coqueiro; um inferno!...E que toda essa droga caía na sua conta! — E os dinheiros emprestados?...E as fitas, os botões, as linha, as tiras bordadas, que Amelinha estava sempre a lhe pedir que mandasse buscar nos armarinhos sem nunca dar dinheiro para isso?...Não! O Sr. Luís Campos não lhe podia calcular o que havia! — Hoje cinco mil-réis, amanhã vinte! E, no tirar das contas, parecia que tudo isso, em vez de ser descontado, era aumentado nas suas despesas!...Que tal?!Recebera obséquios, sim senhor! mas também puxara muito pela bolsa!
Campos ignorava aquelas particularidades!...Mas entendia que Amâncio, nem menos por isso devia menos obrigações à família do Coqueiro.
E ofereceu a “sua modesta choupana”, caso o estudante não quisesse continuar ali.
Amâncio rejeitou, um tanto por se lembrar das esperanças que embalava a respeito de Amélia, um tanto por se não querer sujeitar ao regime do negociante e um tanto por mera cerimônia.
— Enfim, disse o marido de Hortênsia, despedindo-se- acho que o senhor deve fazer o presente e tratar logo de sair daqui; já não digo pela questão da despesa, mas porque lhe convém à saúde.
Escolha um arrabalde de bons ares ou então dê um passeio a Petrópolis; o médico afiançou-me que o senhor tem ameaços de uma febre paludosa, e isso é o diabo na época que atravessamos: a febre amarela grassa por aí que não é brinquedo!
* * *
Logo que constaram as novas disposições de Amâncio a respeito de mudança, houve uma grande consternação por toda a casa.
— Deixar-nos?! Exclamou Mme. Brizard em sobressalto. — Não consentimos! Se para o seu completo restabelecimento é necessário um arrabalde, vamos todos para o arrabalde! Só - isso é que não! Seria até uma falta de humanidade, coitado!
E formou-se um zunzum de opiniões. Cochichava-se pelos cantos, em magotes, discreteando-se projetos em voz de mistério, como se tratasse de um moribundo. O Coqueiro andava de um para outro lado, coçando desesperadamente a cabeça, gesticulando, à procura de um meio de conciliar os seus interesses.
Amélia, afinal, subiu ao quarto do doente, e, com uma aflição a quebrar-lhe a voz, toda a tremer, os olhos úmidos, perguntou se ele tencionava deixar a casa.
Amâncio, ignorando o que ia por baixo a seu respeito, trejeitou uns momos de indiferença e respondeu: “que não sabia ainda ao certo...havia de ver!...mas o médico lhe ordenara que fosse...”
Como se só esperasse por aquelas palavras, o pranto da menina irrompeu violentamente.
Ele, meio surpreso, a tomou nos braços, indagando com ternura “o que
significava aquilo?...”
Amélia não respondeu logo, mas depois, levantando a cabeça, que lhe havia pousado no colo, exclamou entre soluços angustiados: - Não! não! não hás de ir!
peço-te que não vás!
O provinciano quis saber por quê.
— Eu te amo! disse ela, escondendo de novo o rosto. — Eu te amo e não posso me separar de ti! Vejo a sua indiferença! percebo que me detesta, mas que hei de eu fazer?! Adoro-te, meu amor!
— Ah! se eu não estivesse tão doente!...suspirou Amâncio.
CAPÍTULO XIV
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.