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#Crônicas#Literatura Brasileira

Vida Urbana

Por Lima Barreto (1921)

– De fato – eu observei – quando o conde Pátena se põe à testa de um importante serviço público, as verbas não chegam nunca para pagar empregados e para faire marcher l’argent , até às algibeiras dos camaradas. É um mãos-abertas... Torna-se logo suntuosamente generoso com o dinheiro dos... cofres públicos. Os amigos do peito, arruinados ou pobres de origem, enriquecem em meses; e não há pobre-diabo que não consiga, quando Pátena está na ponta, arranjar com ele um emprego em que ganhe seis mil-réis por dia, para “engabelamento” da sua miséria, durante seis meses.

Um outro milionário que gozava de igual fama, era o visconde de Loques. É uma figura curiosa. Os seus começos modestos, mesmo humildes, deram-lhe o hábito de usar um único fraque até esfarelar-se. Há uma anedota, naturalmente fantástica, que diz não ser permitido no Banco de Inglaterra espanarem-se as teias de aranha. Elas são a felicidade da casa...

O visconde só muda de fraque quando este chega a fiapos. É tradição e segurança, de sua fortuna e prosperidade. Ele tem meia centena de milhares de contos; mas não compra dois fraques...

A fama no seu bom coração corria a cidade. Havia uma porção de anedotas a tal respeito.

De manhã, diziam, o visconde quando chega de Paquetá, só na ponte das Barcas distribui mais de cem mil-réis de esmolas. E isto todos os dias!

Certa manhã, depois de ter notivagado a noite, fui apreciar o espetáculo.

Pus-me ao lado e talvez com a secreta vontade de lhe pedir também uma espórtula. Juvenal subia o Esquilino, pela manhã, embrulhado em trapos, curtindo frio, para mendigar alguns sestércios aos poderosos senadores de Roma...

Fui apreciar, dizia eu, o espetáculo. Lá estavam a postos os clientes do visconde.

Eram vinte ou trinta.

Havia de tudo: um resumo do nosso povoamento.

Ei-lo que chega. Atravessa verdadeiramente por uma ala. Dá uma moeda pra cá, dá outra pra lá; e vai-se.

Aproximam-se do lugar onde estou, dois clientes do visconde.

Pergunta um ao outro: – Quanto ele te deu?

– Um cruzado. E a ti?

– Duzentos réis. Foste mais feliz do que eu.

Calcule. Na média, trezentos réis a cada um; são trinta, no máximo: logo – nove mil-réis. Eis aí em que ficaram os cem mil-réis diários!

Ainda assim havia mais generosidade no visconde que no conde. Aqueles nove mil-réis eram dele, do seu bolso; e a magnificência do conde era à custa alheia, à custa do país.

Passaram-se anos; os aluguéis de casa sobem pavorosamente e só ouço, nos trens, nos bondes, nos cafés, queixas contra os senhorios, principalmente contra o visconde e o conde que são grandes, senão os maiores proprietários na cidade:

– Você já viu?

– O que?

– Aquele sorna do visconde, logo de assentada, aumentou-me o valor do aluguel de um terço – veja você só.

– Ué! Dizem que ele é tão bom de coração...

– Vá atrás dele!

Mais adiante escuto:

– Não voto mais nesse malvado.

– Em quem?

– No Pátena.

– Porque?

– Aumentou de repente o aluguel de minha casa de quarenta por cento. – É coisa! Entretanto, ele é bom...

– Pro fogo!

Diante disto, continuo ainda a lembrar-me daquele ateniense que bania Aristides por estar cansado de ouvir chamá-lo de justo. Há muito tempo, já teria eu banido esse visconde e esse conde, por estar cansado de ouvir chamá-los de generosos. E eu tinha razão, como estão vendo.

Careta, Rio, 6-8-1921.

BOTAFOGO E OS PRÓ-HOMENS

De uns tempos a esta parte – e isto só data dos meados da república – tomou-se dos nossos dirigentes e mais magnatas uma vaidade singular: a vaidade de Botafogo e adjacências. O resto do Rio não existe; mas paga imposto. O Rio é Botafogo; o resto é a cidade indígena, a cidade negra.

Não merece a mais simples mirada...

Um cidadão lembra-se que nós não temos um Chantilly, um Epson, um Palermo, isto é, um prado de corridas comme il faut – logo ele aventa a ídéia ao governo construí-lo, como se fosse coisa de utilidade geral, e concomitantemente indica o local: o Leblon – um areal!

Pobres cavalos! Tão delicados... Um outro quer um jardim zoológico. O governo deve construí-lo; mas onde? Na Rua Voluntários da Pátria. Que idéia! Parece ironia...

(continua...)

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