Por Aluísio Azevedo (1884)
Só o Piloto, o estúrdio, aquele de quem menos se esperava, aparecera três dias depois da fugas, perguntando, ainda muito escabreado, de quanto era a sua dívida.
— É mesmo caiporismo! Gemia a francesa.
O marido, porém, soprava-lhe a coragem: Ela que não desanimasse por tão pouco! Nem tudo se perdera! Enquanto tivessem o Amâncio não se podiam queixar da sorte; este valia por todos os outros!
Mas o precioso Amâncio não estava também muito satisfeito com a casa, talvez desconfiado que a esta coubesse em parte a responsabilidade daquele maldito reumatismo que, ora parecia extinto e ora o obrigava a guardara cama, tolhido de dores.
A noite, quando lho permitiam as pernas, descia a cavaquear na varanda com os senhorios. Agora os serões tinham um caráter mais íntimo e eram freqüentemente animados com a presença de uma família, que voltara às relações de Mme. Brizard depois de seis meses de inimizade.
Tocava-se de piano, jogava-se a víspora quase todos os dias e, às vezes, se dançava
A casa de pensão nunca ofereceu aos seus hóspedes um aspecto tão divertido; menos para o rabequista, o Paula Mendes, que parecia cada vez mais triste e apoquentado da vida. A circunstância de já não comer à mesa do Coqueiro obrigava-o a desperdiçar muito tempo com o restaurante e dificultava-lhe a subsistência da mulher, cujo mau humor ia azedando ao peso da tanta necessidade e de tanta humilhação. O infeliz marido conseguiu afinal que ela fosse passar alguns meses na companhia dos parentes em Niterói.
Mme. Brizard, ao vê-la partir, receou a premeditação de uma fuga e exigiu logo que o Mendes, para garantir a dívida, hipotecasse o piano que tinha no quarto
O pobre homem consentiu, sem dizer palavra, mas, de envergonhado, deixou de aparecer nos serões da sala de jantar.
E desde então, por alta noite, quando toda a casa era silêncio, Amâncio ouvia no corredor o som de passos trôpegos e um vozear confuso de alguém quer monologava..
* * *
A casa de pensão, definitivamente, ia se tornando insuportável ao estudante. Não podia sair à rua; o médico, havia quase um mês, jurara pô-lo pronto em quatro dias, se Amâncio não fizesse alguma extravagância; as conversa de toda a família Coqueiro, à exceção de Amelinha, o enfastiava; a leitura muito pouco o distraía, e, para complemento do enjôo, o maldito tossegoso do n.º 7, o qual por caridade entregara ele ultimamente ao seu médico, parecia morrer de cinco em cinco minutos e não lhe dava um momento de sossego.
Mas a causa principal desse tédio era, sem dúvida, a ausência de Lúcia. Desde que ela se foi, o coração do rapaz turgia de saudade; longe de esquecê-la, cada vez a desejava com mais sofreguidão.
As trevas da ausência faziam-na destacar melhor e mais linda, como um fundo negro a uma estátua de mármore.
Sentiu sobressaltos deliciosos quando recebeu a primeira carta das mãos dela. Era extensa, cheia de imagens poéticas e figuras de grande alcance amoroso; terminava dizendo que” Amâncio, logo que pusesse os pés na rua, a fosse procurar”. O endereço vinha à parte, num pedacinho de papel.
E não poder ir quanto antes!...Que espiga!, considerou ele, sinceramente penalizado.
E cresciam-lhe os enjôos.
Só Amélia, com os estiletes da sua perceptibilidade feminina, consegui penetrar no âmago daquelas tristezas, mas não se deu por achada e redobrou de desvelos e meiguices para com ele.
Amâncio, por mais de uma vez, beijou-lhe as mãos suspirando que ela era o seu bom anjo, a sua consolação única no meio de “tantos dissabores”!
Assim se passaram quinze dias. O apaixonado já a tratava por tu, por você e raras vezes por senhora.
Era a piedosas Amelinha quem lhe arrumava o quarto, quem lhe cuidava da roupa, e, já por fim,. Era até quem lhe levava o cafezinho pela manhã. Mas não entrava, apenas metia o braço pela abertura da porta que ficava sempre encostada, depunha cautelosamente a xícara sobre soalho, e, se Amâncio ainda dormia, gritava-lhe no seu falsete aprazível:
— Preguiçoso, acorde! São horas!
Depois, apanhava novamente as saias e descia a escada, ligeira e sem rumor.
Outras vezes, ao anoitecer, subia para lhe pedir um livro emprestado, para saber se ele queria chá no quarto ou se preferia descer à sala de jantar. Sempre havia um pretexto para lá ir e, depois de lá estar, sempre arranjava um motivo de demora. Entretinha-se a ver o que se achava sobre a mesas; examinava tudo; lia a lombada dos livros, e brincava com um esqueleto que jazia pendurado a um canto do quarto.
Amâncio, de uma feita, não pôde deixar de rir, quando a encontrou muito espantada a examinar as gravuras de um tratado fisiológico de Vernier.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.