Por José de Alencar (1875)
- Já o disse, para conformar-me à sua vontade e afinar-me pela mesma clave. O dueto será mais aplaudido.
- Não duvido; mas eu é que não me casei para fazer de minha vida uma solfa de música. Serei leviana e inconseqüente; terei estes defeitos; mas o que não tenho, pode estar certo, é o talento do cálculo. Deixe-me com o meu gênio excêntrico. Agora, neste momento sei eu porventura, o que farei esta noite? Que extravagância me virá tentar? Como depois havia de formular um programa conjugal para nosso uso? Eu posso fazer de nossa união um mistério ou um escândalo, conforme o capricho. O senhor é que não tem esse direito.
- Tanto como a senhora!
Aurélia contestou com fria impassibilidade:
- Engana-se. O sr. Seixas não pode desacreditar meu marido e expô-lo à irrisão pública.
- Mas a mulher do infeliz pode; tem esse direito.
- O senhor deu-lhe.
- Não; use outro termo: Vendi-lho!
Aurélia não respondeu. Derreando o corpo nas almofadas, e voltando o rosto para ver o recorte das árvores e chácaras na tela iluminada do ocaso, deixou cair a conversa.
Ainda fizeram algumas visitas. Eram mais de oito horas quando parou o carro à porta de casa. D. Firmina tinha saído. .Aurélia queixou-se de fadiga, cortejou o marido e recolheu-se.
Em seu quarto lembrou-se Seixas de algumas palavras que haviam escapado a Aurélia na conversação da tarde. – Sei eu acaso o que farei esta noite? Que extravagância me virá tentar? disseram a mulher; e ele sabia, que valor tinham em seus lábios essas frases enigmáticas.
Desde a noite de luar e os devaneios poéticos sobre Byron era que Aurélia mostrava uma irritabilidade contínua. Qual devia ser a resolução inspirada por essa febre de sua alma, já tão propensa aos caprichos e excentricidades?
Esteve Seixas cogitando um momento sobre este ponto a fazer conjecturas. Fatigouse, porém, da tarefa, e abandonou-a, pensando que não havia piores na posição intolerável em que se achava.
Já não pensava naquilo, quando súbito atravessou-lhe o espírito uma idéia que o fez estremecer.
Um impulso de curiosidade o dominou. Correu à porta que separava da câmara nupcial e dos aposentos da mulher. Ergueu a mão para bater; começou o nome de Aurélia; mas não se animou a realizar o primeiro intento. Aplicou o ouvido a escutar. Reinava naquela parte da casa o mais profundo silêncio. Que fazer?
Agitado pela idéia terrível que o assaltava, deu a esmo algumas voltas pelo aposento, numa perplexidade cruel. Seu olhar que não deixava a porta, notou um esguicho de luz no fundo do corredor escuro, e conheceu que saía pela greta da fechadura.
Aproximou-se cautelosamente e sem rumor. Pelo recorte da chave, pode ver na parede fronteira um quarto iluminado que se destacava no crepúsculo da câmara nupcial. Era o espelho colocado sobre a jardineira de mármore, que refletia obliquamente pela porta aberta uma faixa de outro gabinete.
Essa zona abrangia um divã onde nesse instante destacava-se do brocado verde a estátua de Aurélia, deitada como o alto relevo que outrora ornava as campas dos nobres. Envolvia o corpo da moça um roupão de cambraia, cujas pregas caíam sobre o tapete semelhantes aos borbotões da nívea espuma de uma cascata, e deixavam-lhe o talho debuxado sob a fina teia de linho.
Estava muito pálida e imóvel. Um dos braços descaía desfalecido pela borda do divã; tinha o outro suspenso até à moldura do recorte onde a mão se crispava, talvez no esforço de erguer o corpo. Havia na imobilidade dessa posição e em seu perfil alguma coisa de hirto que assustava.
VIII
Sucedem-se no procedimento de Aurélia atos inexplicáveis e tão contraditórios, que derrotam a perspicácia do mais profundo fisiologista.
Convencido de que também o coração tem uma lógica, embora diferente da que rege o espírito, bem desejara o narrador deste episódio percrutar a razão dos singulares movimentos que se produzem n'alma de Aurélia.
Como porém não foi dotado com a lucidez precisa para o estudo dos fenômenos psicológicos, limita-se a referir o que sabe, deixando à sagacidade de cada um atinar com a verdadeira causa de impulsos tão encontrados.
Remontemos pois o curso dessa nova existência de Aurélia até à noite de seu casamento, quando a exaltação que a animava durante a cena passada com Seixas, abatendo de repente, a deixou prostrada no tapete da câmara nupcial.
(continua...)
ALENCAR, José de. Senhora. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1847 . Acesso em: 27 jan. 2026.