Por Lima Barreto (1921)
– Tens interesse em algum dos candidatos?
– Nenhum.
– Então porque pensas nesse desinteressante negócio?
– Porque dizem que o novo presidente vai demitir em massa os funcionários públicos.
– Estás doido, Liró! Ele não fará isso...
– Porque?
– Porque não há Estado sem um grande corpo de funcionários.
Desde o Império Romano até o Britânico que se tem verificado que a existência do Estado supõe a de uma chusma de funcionários. Ainda mais: o duque AudiffretPasquier290 disse até: “Morrem os impérios, nascem as repúblicas; mas as secretarias ficam”. Deve ser isto mais ou menos. O que, porém, ressalta do pensamento do duque, sejam quais forem as suas palavras, é essa capacidade da burocracia, em atravessar regimes diversos, com uma inalterabilidade que lhe dá o aspecto de um verdadeiro fenômeno natural.
– Dizem também que ele quer acabar com a aposentadoria. E possível?
– Liró: a aposentadoria é coisa constitucional. Para que ele acabasse com a aposentadoria, teria que violar a Constituição. O Senhor Bernardes, por mais capaz, não terá esse topete. Ele é mineiro e não mete mão em cumbuca. Irá para o Catete, se for; aparará mais os seus fraques, aumentará o numero dos seus pince-nez e assinará decretos de... nomeações.
– Irá mesmo? Ou será o Nilo?
Ia dizer “não sei”, quando um porco, subitamente, atravessou na nossa frente, de um lado para outro da estrada.
Nossos cavalos se espantaram. Liró foi ao chão; eu, porém, fiquei firme na sela.
Depois que Liró recavalgou, eu lhe disse:
– Vê tu como são as coisas. Montas muito melhor do que eu. Tua sela, à mexicana, é cheia de segurança no arção e no santantônio. Entretanto, tu foste ao chão e eu fiquei em cima da Scherazade. Como é isto?
– Não sabes de uma coisa que o povo diz por aí: mais vale quem Deus ajuda do que quem cedo madruga.
Careta, Rio, 23-7-1921.
A REVOLTA DO MAR
A última e formidável ressaca que devastou e destruiu grande parte da Avenida Beira-Mar merece considerações especiais que não posso deixar de fazer. O Mar tinham os antigos como sendo um dos cinco elementos da Natureza; do Mar, afirmam os sábios modernos, veio toda a vida. É assim o Mar um Deus tutelar da nossa espécie. Nós lhe devemos tudo ou quase tudo. Não fora o Mar, ainda a Terra estaria muito por conhecer; ele é o meio mais eficaz de comunicação entre os povos.
Vence-se mais facilmente a mesma distância por mar do que por terra. Desde tempos imemoriais, é o campo das grandes audácias e dos grandes audaciosos.
O Mar é um Deus ou um Semideus.
Como tal, tem merecido desde os tempos homéricos o louvor dos grandes poetas. Ele é a maravilha da terra, a maior delas. Ainda agora recebo um livro de poesias -Asas no azul – de Mário José de Almeida – que abre com este lindo soneto sobre o monstro:
ÂNSIA DO MAR
Vibra, escachoa o oceano, brame, investe
para o amplo azul – noite e dia – não cansa
a onda que na praia se destrança
e da alvura da espuma se reveste.
Dentro do sonho, envolto na esperança
de inda atingir a placidez celeste,
o mar se arroja, torvo se abalança
nas asas colossais do sudoeste.
E parece que o mar se espraia
de praia a praia, ovante ramifica
o mesmo anelo – anseio de Himalaia.
À noite, à luz da lua que desponta
a onda em sua fala comunica
todo o queixume que a outra prata conta.
Mas, os grosseiros homens do nosso tempo, homens educados nos cafundós escusos da City londrina ou nos gabinetes dos banqueiros de Wall Street, onde se fomenta a miséria dos povos, não lhe quiseram ver a grandeza, o mistério e a divindade, a sua palpitação íntima. O mar, como a vida humana, não podia deixar de ser também um bom campo às suas “cavações” ou “escavações” e trataram de explorá-lo.
De há muito que ele havia marcado os seus limites com a terra; de há muito que ele dissera a esta: o teu domínio para aí e daí não passarás.
Tais homens, porém, embotados pela sede de riquezas não perceberam bem isto; e, a pretexto de melhoramentos e embelezamentos, mas, na verdade, no intuito de auferirem gordas gratificações de banqueiros, trataram de estrangulá-lo, de aterrá-lo com lama. Diziam eles que tal faziam, para tornear belos passeios, como se o mar por si só não fosse beleza.
No começo, entraram por ele adentro com timidez; ele deu uns pequenos avisos de que não deveriam continuar. Os homens de negócios não viram tais avisos; não pressentiram o que eles continham, porque não entraram no mistério das coisas. Tomaram-se de audácia e foram levando além o propósito de comprimir o mar, a fim de ganharem boas gorjetas.
(continua...)
BARRETO, Lima. Vida urbana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2171 . Acesso em: 8 maio 2026.