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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Na febre daquele choro agitado, os seus movimentos transformavam-se em carícias. Amâncio sentia-lhe as lágrimas quentes e o contacto carnal dos lábios, que elas ensopavam. Os desejos assanhavam-se-lhe de novo pelo corpo, como insetos que voltam com o calor.

— E tornava a cobiça-la com os mesmos ardores primitivos.

Não me queria separar de ti...queixou-se ela, afinal, virgulando as sua frases com soluços suspirados. — Em ti havia firmado todas as minhas esperanças de ventura, todos os sonhos de minha vida! Amava agora a existência, só porque alguma coisa me fazia acreditar que ainda um dia seríamos felizes!

— E porque não havemos de ser?...perguntou Amâncio condolentemente.

— Ora!...prosseguiu ela, — tudo me persegue, tudo me sai contrário...Foi bastante que eu te amasse, foi bastante pensar que poderíamos ser um do outro, para que aqui se levantassem todos contra mim e ferissem a guerra que tens visto!

E, desagarrando-se de Amâncio, para segurar de novo a cabeça, num movimento de embaraço doloroso:

Mas, imagina tu, que estou inteiramente sem recursos!...Tenho que fazer a mudança e ainda não sei como pagar o carreto das malas!...Vê tu que situação!

Amâncio beijou-a na boca e perguntou se ela não lhe dava uma esperançazinha para depois que se mudasse.

Lúcia respondeu que dava, não uma esperança, mas uma certeza”. E sem desprender os lábios dos lábios do rapaz, afiançou - que lhe mandaria dizer por escrito o lugar onde seria encontrada; e que ele fosse por lá as vezes que entendesse. — Aí ao menos estariam livres do Coqueiro e das outras pestes! — prometes então?...insistiu ele , procurando garantir o compromisso.

— Prometo, prometo o que quiseres, tudo! Disse ela, ainda chorosa.

Amâncio foi à algibeira do fraque, abriu a carteira. Havia trezentos mil-réis, tomou uma nota de cem e entregou-a a Lúcia, dizendo com pesar que era o único dinheiro que possuía na ocasião.

— Talvez te façam falta...considerou ela escrupulosamente, sem querer tocar na cédula.

— Não! não! apressou-se a declarar o rapaz. — Desculpa não te poder ser mais agradável.

Lúcia beijou-o de novo, e desceu enfim ao primeiro andar, acompanhada pelo Sabino que já estava à sua disposição.

Ordenou ao moleque de buscar, num pulo, uma carrocinha, e logo que esta chegou fez embarcar as malas e mandou chamar uma carruagem.

Enquanto esperava, reclamou a sua conta, atirou com o dinheiro sem olhar para quem o recebia, embolsou o troco e, em seguida, foi acordar o Pereira.

— Onde vamos? Perguntou este entre dois bocejos, assim que a viu em trajes de sair.

— Venha daí, homem! E deixe-se de perguntas!

Pereira levantou-se espreguiçando-se e acompanhou a mulher.

Esta o fez entrar na carruagem que já havia chegado, assentou-se junto dele e disse ao cocheiro que tocasse par a Tijuca. Deu-lhe o número.

Era o número de uma outra hospedaria nas mesmas condições da que deixavam. Lúcia, que já pressupunha aquelas rápidas mudanças, tinha, por cautela, uma lista das principais casa de pensão da Corte e, à medida que se servia de cada uma, riscava-a da coleção. A do Coqueiro era no rol a Sexta inutilizada com o traço enérgico de seu lápis.

Entretanto, ia o Pereira silenciosamente se atufando nas almofadas e, aos balanços monótonos do carro, procurava reatar o sono interrompido

CAPÍTULO XIII

A casa de pensão de Mme. Brizard sofreu muito com as variolóides de Amâncio. Desmanavam-se hóspedes que era uma coisa por demais.

O gentleman, o Piloto e a pérola do n.º 9, “o estimável Melinho”, desde a fatal noite das cataporas, não davam notícias suas; Fontes e a mulher sumiram-se logo no dia imediato, e, por conseguinte, não metendo o tal médico do n.º 11, que já não aparecia há bastante tempo, apenas seis hóspedes restavam dos quatorze primitivos.

E ainda mesmo destes seis nem todos eram aproveitáveis; porque o Paula Mendes e mais a mulher levantariam o vôo, assim que lhes chegasse uma aragenzinha de dinheiro, e o estafermo do n.º 7 também estava a se despedir por um daqueles dias, não da casa, mas do mundo.

Certos, só Amâncio, o guarda-livros, e o esquisitão do Campelo que, fugindo ao pigarro do tísico, mudara-se para o andar de baixo, mal pilhara um cômodo desocupado.

Mme. Brizard estava, pois, inconsolável. — Em sua vida de hospedeira jamais tivera um mês tão ruim!

E azoinada por essas contrariedades e já de natureza um tanto supersticiosa, agora em tudo descobria sinais de agouro e motivos para desconfiança. — Pois se até o ilustre Sr. Lambertosa, “o respeitável gentleman, a flor dos homens finos, uma criatura tão cheia de circunspeção”, quem diria?...aproveitar ao ensejo das bexigas para lhe passar a perna!

E o Melinho? “estimável Melinho! A pérola do n.º 9, o homem das frutas cristalizadas!” também não deixara as suas contas em aberto?...

(continua...)

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