Por José de Alencar (1875)
- Pergunte-lhe! disse Aurélia voltando-se para o marido.
Nunca, depois que se achava sob o jugo dessa mulher, ou antes da fatalidade que o submetia a seus caprichos, nunca Seixas precisou tanto da resignação de que se revestira para não sucumbir à vergonha de semelhante degradação. O primeiro abalo produzido pelo diálogo das duas amigas foi terrível; e não o perceberam, porque a atenção geral convergia para Aurélia nesse instante.
Dominou-se porém; quando os olhares acompanhando o gesto da mulher voltaram-se para ele, encontraram-no calmo, naturalmente grave e cortês, embora ainda lhe restasse uma ligeira palidez em que ninguém reparou.
- Então, sr. Seixas, é certo? insistiu Lísia.
- O que, minha senhora? perguntou o moço por sua vez e com a maior polidez.
- O que disse Aurélia.
- Não vês que é um gracejo! observou a mãe de Lísia.
- Ela foi sempre assim, amiga de brincar! disse uma prima.
- Não querem acreditar!... tornou Aurélia com um modo indiferente.
- É sério, sr. Seixas? perguntou Lísia novamente.
- Responda! disse Aurélia ao marido, sorrindo-se.
- Da parte de minha mulher eu não sei, e só ela poderá dizer-lhe, D. Lísia. Quanto a mim asseguro-lhe que me casei unicamente pelo dote de cem mil cruzeiros que recebi. Devo crer que minha mulher mudou de idéia em que estava, de pagar um marido de maior preço.
A sisudez com que Seixas pronunciou estas palavras e porventura também certa aspereza do timbre que percebia-se na fala harmoniosa, como sente-se a aspa de ferro sob o estofo de cetim, deixaram as pessoas presentes perplexas acerca do sentido e crédito que deviam dar a semelhante asseveração.
Nisto ressoaram os trilos cristalinos da risada de Aurélia.
- Eis o que você queria, Lísia, era fazer desconfiar de Fernando. Quer saber se eu o comprei, e por que preço? Não faço mistério disso; comprei-o, e muito caro; custou-me mais, muito mais de um milhão; e paguei-o, não em ouro, mas em outra moeda de maior valia. Custou-me o coração; por isso já não o tenho!
Estas palavras e a expressão que palpitava nelas convenceram a todos que Aurélia estivera efetivamente a gracejar acerca de seu casamento. A resposta à Lísia não fora senão um disfarce para provocar aquela confissão inconveniente da paixão com que se estremeciam ela e o marido.
Assim, quando retiraram-se as visitas, o tema da conversa foi o desfrute dos dois noivos, que depois de um mês de casados andavam pela rua requebrando-se como dois pombinhos namorados. Lísia asseverava ter visto Aurélia de tal modo enleada ao braço do marido, que este não podia andar.
Entretanto rodava o carro pelo Catete, e Aurélia balançando-se ao brando movimento das almofadas, parecia ter completamente esquecido Seixas sentado a seu lado, quando este dirigiu-lhe a palavra.
- Desde que estamos casados, uma só vez não inquiri de suas intenções. Respeito-as, como é meu dever, e conformo-me com elas quanto posso, por mais estranhas que pareçam. Mas para satisfazer suas vontades é preciso pelo menos conhecê-las, embora não as compreenda.
Aurélia voltara o rosto para o marido. Como já não receava ser vista por causa do lusco-fusco, deixou que seu semblante tomasse a expressão de soberba desdenhosa, que o vestia nesses momentos de surda irritação.
- Que pretende com este prólogo?
- A princípio quis-me parecer que desejava ocultar dos estranhos a realidade de nossa posição. Confesso que nunca pude atinar com o motivo dessa singularidade. Criar deliberadamente uma situação, para ter o gosto de negar a todo instante...
- É absurdo?... Não é?... Também me parece a mim.
- Não perscruto seu pensamento. A senhora devia ter uma razão, que ignoro.
- Como eu.
- Importa-me, porém, saber se mudou de propósito como indica a cena que acaba de representar, e se resolveu dora em diante fazer escândalo, do que ontem fazia mistério.
- E para que deseja saber isso?
(continua...)
ALENCAR, José de. Senhora. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1847 . Acesso em: 27 jan. 2026.