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#Crônicas#Literatura Brasileira

Vida Urbana

Por Lima Barreto (1921)

Neste momento chega o Tácito de Morais Wernes, tenente-coronel do Exército, acompanhado do seu cabo de peça, capitão Bartolomeu Klier, e logo regulam o canhão, põem-no em posição e fazem o disparo. Bragalhães foi pelos ares...

Careta, Rio, 16-7-1921

ALTO COMÉRCIO

Leio com cuidado os jornais do dia, como já tenho repetido muitas vezes. Não perco uma seção deles, principalmente as elegantes, as do parlamento e as das grandes associações.

Por exemplo: se estou disposto a estudar agricultura, leio as notícias da Sociedade de Agricultura. Nelas, aprendo que o tomate e mais a berinjela são cucurbitáceas cujo fruto é muito útil como forragem para os animais de corridas. Dálhes mais leveza e resistência. Se sinto curiosidade de estudar geologia, busco novas do Museu Nacional e fico sabendo que o urubu é um fóssil do oceano que voa nos ares.

O jornal é uma fonte de estudos para mim. Nele tenho aprendido muito, menos elegância porque, ao que parece, Deus não quer que eu tenha esse dom extraordinário.

Às vezes, porém, tenho desgostos com essa leitura que me atrai.

Sigo há anos a ação jornalística do doutor Nuno de Andrade. Vejo-lhe bem as suas qualidades de financeiro e economista e penso cá comigo: porque não fazem este homem ministro da Fazenda – ele que deve estar muito além da casa dos sessenta? Mas deixemos isso de parte e tratemos do principal.

Ultimamente tenho lido as queixas e os clamores do alto comércio. Não há artigo de gazeta e compte rendu de sessão de Associação Comercial que me escape.

Travei conhecimento com vários cavalheiros do alto comércio que sinto não ser pessoal.

Por exemplo: como me seria útil conhecer o meu xará, o senhor Afonso Viseu? Como era bom dar-me com o doutor Augusto Ramos?

Não há nisso nenhum interesse de dinheiro, porque eles dizem que estão prontos; e não iria eu aumentar aflição a aflitos.

Ao contrário; simpatizei com eles por causa de sua pobreza. A angústia de sua situação até me fez meditar sobre meios de retirá-los dela.

Creio mesmo que cheguei a bons resultados.

Vamos ver como. Eles se queixam que o governo não os auxilia; pois eu fui outro dia ao Monroe e conferenciei com o meu amigo Alcides Maia288, deputado pelo Rio Grande do Sul, a quem apresentei as seguintes bases para um projeto de lei:

a) – O governo dará a cada alto comerciante dois mil contos de reis;

b) – Eles não pagarão impostos, nem transporte nas estradas de ferro e

companhias de navegação do Estado;

c) – Não haverá dívidas para os mesmos, sejam particulares ou comerciais.

Foi mais ou menos isso que conversei com aquele deputado meu amigo, que achou as idéias excelentes e vai justificar um projeto de lei no sentido de aproveitá-las.

Ele só me objetou que outros pobres, os que não são do alto comércio, podiam também reclamar com “facadazinha” no Tesouro. Eu, porém, aparei o argumento dizendo-lhe que, segundo a ciência econômico-financeira, esses não têm direito a nada. Careta, Rio, 9-7-1921.

COM O LIRÓ

Ultimamente só tenho nas minhas estrebarias um único animal: é a égua Scherazade. Antigamente, porém, isto é, há uns anos passados, havia nela, além dos animais de tiro, mais dois de sela: a Elisabeth e o Zadig. Scherazade é uma linda égua negra de meio sangue, com grandes olhos e porte altivo. Comprei-a ao conhecido criador e cronista esportivo Brioni Júnior por dez contos de reis, no que fiz bom negócio. Elisabeth era uma linda peça de um pêlo alazão, liso e brilhante; era de um quarto de sangue. O Zadig não tinha sangue algum.

Por causa deles, vim a conhecer o Liró, meu vizinho, funcionário público, também amador de animais; mas ao jeito da terra. Ele só gosta de animais nacionais – crioulos; e dessas nossas selas rebarbativas, cheias de pelegos e anteparos, e dos nossos arreios faiscantes de prata.

Habitualmente, passeamos a cavalo, pela manhã, pelos arredores das nossas casas. Uma manhã destas brumosas e frias, saímos nós a dar uma volta nas nossas alimárias. Ele, no Caboclo – um “pampa” marchador que devia ser magnífico, se não estivesse ao lado da soberbia da minha Scherazade. Era uma manhã feia, úmida e nublada. O Rio, cheio de Sol e luz, é uma alegria; mas, como estava naquela manhã, é uma sepultura.

Seguimos o nosso destino que era ir até a cachoeira dos Urubus, na Boca do Mato. O subúrbio, em geral, é feio; mas, a parte que entesta com a montanha, tem trechos surpreendentes. Fomos e íamos conversando. Eu lhe contava histórias de cavalos célebres, do famoso Bayard, do paladino Rolando, do Bucéfalo de Alexandre; do Rocinante de d. Quixote, etc., etc. Pareceu-me, entretanto, que ele não me ouvia com atenção a conversa. Perguntei-lhe:

– Liró, em que pensas?

Nós atravessamos um resto de capoeira em que as raras árvores eram enriquecidas de verdura pela folhagem dos cipós abundantes.

Ao ouvir a minha pergunta, Liró sobressaltou-se e logo disse:

– Nesse negócio de candidaturas.

(continua...)

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