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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

Teresinha largara o trabalho para resfolegar e refrescar as faces com a palma de sua mão gorda e macia. Portela apareceu à porta do gabinete e fez uma exclamação sobre o calor, despregando com os dedos abertos o seu rico cabelo, preto e anelado, que o suor grudava ao casco da cabeça.

— É! respondeu ela; está horrível!

— Não se pode trabalhar, considerou Portela, soprando afrontado. E foi assentar-se perto de Teresa.

— Então, como passou desde ontem dos seus incômodos nervosos?

perguntou a mulher do comendador, referindo-se a uma conversa da véspera.

— Ah! ainda se lembra disso?... — O senhor queixou-se tanto!...

— Qual! Eram manhas; o meu mal é outro. Não sei se mais difícil ou mais fácil de curar!... E, depois de fazer um gesto de convicção, acrescentou: Nasci para ser casado; não me serve a vida de solteiro...

— Não caia nessa asneira!... aconselhou Teresinha, fazendo-se muito séria.

— Mas asneira, por quê?...

— Ora! É uma desilusão! Eu preferia estar ainda hoje solteira e vivendo como dantes em casa de minha madrasta...

— Todavia a senhora não tem razão de queixa...

Teresinha respondeu dando um grande suspiro.

— Não vive então satisfeita?... perguntou ele, pondo na voz uma extrema doçura.

— Ai, ai! Mudemos antes de conversa...

E passou abruptamente a falar sobre uma bela tartaruga do amazonas, que o comendador, dias antes, recebera de presente.

— Era um bicho esquisito, muito grande, fazia aflição olhar para ele! Uma verdadeira raridade!

Portela mostrou desejo de ver o animal, e os dois desceram à chácara.

Levaram algum tempo à borda do tanque, ao lado um do outro, acompanhando os movimentos preguiçosos do anfíbio. Portela declarou que de cara o achava parecido com o João Figueiredo, e esta rancorosa comparação fez rir à senhora.

— Ali sempre era melhor de estar que lá em cima, considerou depois o rapaz.

— É mais fresco, disse Teresinha, dirigindo-se para uma rua de bambus que costeava a casa e ia dar afinal a um agrupamento de árvores no fundo da chácara. Portela acompanhou-a, oferecendo-lhe o braço. Ela aceitou, e puseram-se ambos a passear muito vagarosamente por entre a rumorosa sombra da alameda.

Ouviam-se estalar as folhas secas debaixo de seus pés. Teresinha não dava uma palavra, toda segura ao braço do rapaz caminhava vergada para ele, como se prestasse atenção a uma conversa de muito interesse. A certa altura pararam; e ela parecia fatigada, a julgar pela dificuldade com que respirava. os dois olhares se encontraram, mas ao mesmo tempo se fugiram, porque cada um compreendeu de relance o que se passava no pensamento do outro.

E tornaram a caminhar, sempre em silêncio, mas desta vez Portela tinha entre as suas uma das mãos de Teresinha. Chegados ao fundo da chácara, sentaram-se juntos debaixo de uma mangueira, sobre um banco que aí havia. A senhora, de olhos baixos, fitava com insistência um ponto no chão, e suspirava de vez em quando, como se um pensamento doloroso a torturasse.

Portela chegou-se mais para ela, passou-lhe meigamente um braço sobre o ombro e perguntou-lhe com muito carinho o que a fazia assim tão triste.

— Não era nada!... segredos de sua pobre vida!... Coisas que não poderiam interessar a ninguém...

E Teresinha continuava de olhos imóveis, quase a chorar.

— Não! insistia o rapaz com a voz cada vez mais doce; a senhora sofre qualquer coisa. Não me diz o que é, porque não lhe mereço confiança, mas sofre...

E afagava-lhe os cabelos e o pescoço. Teresinha sentia-lhe o tremor nervoso da mão e percebia-lhe a comoção da voz.

— Não é feliz com o comendador?... perguntou Portela em voz baixa, chegando a boca ao ouvido dela.

— Foi uma asneira este casamento! respondeu Teresa. Eu passo uma vida de viúva. Ele, por bem dizer, não é meu marido. Entretanto, juro-lhe que desejava ser a esposa mais fiel e dedicada deste mundo!...

E começou a chorar aflita.

— É mesmo desgraça de cada um! acrescentou soluçando.

— Não se aflija dessa forma! disse o rapaz, puxando a cabeça de Teresinha para o seu ombro. Tenha uma pouco de resignação!...

— Mas não acha que devo passar uma vida estúpida e aborrecida?! Ando nervosa, sem apetite, tenho vertigens! tenho coisas de que nunca sofri até agora! Além disso, ele, porque já aborreceu os divertimentos, entende que os mais também não se devem divertir! Eu não vou a um baile, não vou a um teatro, não apareço a ninguém... Que diabo! eu tenho apenas vinte seis anos!

Portela dava-lhe toda a razão, e pedia-lhe que não se mortificasse.

— E você ainda pensa em casar... continuou ela, já em outro tom, não caia nessa! É uma asneira! É um engano! Se quiser aceitar o meu conselho, fique solteiro toda a vida! Ah! se eu fosse homem!...

E Teresinha suspirou de novo, e sacudiu a cabeça com um gesto cheio de intenções.

— Se fosse homem não se casaria? perguntou ele.

— Eu?! exclamou a rapariga, apertando os olhos, nunca!

— E a velhice depois, o abandono, as moléstias?...

(continua...)

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