Por Aluísio Azevedo (1884)
— Não há dúvida...gaguejou o hoteleiro, cuja fúria se esvaziara de repente às bicadas do outro, que nem um balãozinho de borracha. — Não há dúvida que tu és incapaz de cometer qualquer leviandade dentro de uma casa de família; mas, a questão são as aparências, são as más línguas, são os outros hóspedes! Não os conheces, filho! Nenhum deles acreditará que Lúcia venha ao teu quarto só para te dar o remédio e meio dedo da palestra!...Sei perfeitamente que isso é exato, basta que o digas; eles , porém, não terão a mesma boa — fé! Muito mais sabendo, como sabem, de quanto é capaz aquela sujeita! Logo quem!...
— Oh! interjeicionou Amâncio. — Uma senhora casada!...
— Casada o quê!...Da missa não sabes nem a metade!
— Então ela não é casada com o pereira?...
— Nunca o foi! Com ele, nem com pessoa alguma! Conheço até a mulher do Pereira, a legítima, — uma velhusca, de óculos, gorda, com um olho agachado, cheio d ‘água. Mora na Rua da Pedreira.
Amâncio estava tão pasmo quanto indignado; aquela denúncia do colega produzia-lhe o mau efeito que experimentamos ao dar por falta do relógio. — Pois o demônio da mulher nem ao menos era casada?!...Ele, então, que diabo de papel representara?!...
— Cínica! Disse em voz alta.
— Ora! Fez o outro. — Não trates de abrir os olhos e dir-me-ás depois as conseqüências!...
No Rio de Janeiro, prossegui- havia muito artista daquela força! Amâncio precisava acautelar-se, se não queria ser esfolado completamente. Lúcia o que desejava era agarrá-lo para amante: farejava-lhe os cobres! Ele, porém, que não fosse tolo! Que se não deixasse visgar por uma tipa de tão baixa espécie!
O provinciano jurava que , até ali, jamais conseguira coisa alguma das mãos dela.
— Isso sei eu!...Tornou o Coqueiro, com um riso de velha experiência, — isso não é necessário que me digas, porque já conheço a tática das Lúcias! Negam-se, fingem-se difíceis, para valer mais! Quer obrigar-te a cair, toleirão!
— Está bem aviada! Exclamou Amâncio, justamente como ainda na véspera havia respondido à Lúcia, quando esta lhe falou a respeito de Amélia.
Ainda nesse dia o Coqueiro aproveitou a ocasião em que o Pereira fazia a sesta e foi se entender com a Lúcia.
Disse-lhe o que sabia a respeito das visitas noturnas ao quarto de Amâncio e declarou terminantemente que não estava disposto a consentir em casa semelhantes escândalos. Ela que tivesse paciência, mas fosse tratando de fazer as malas e cuidando de pôr-se ao fresco, se não queria sofrer alguma decepção maior!
A ilustrada senhora ficou lívida, e disparou sobre o locandeiro o mais terrível dos seus olhares. Uma cólera massuda principiou a entupir-lhe a garganta. — Não queria acreditar em tamanho atrevimento!
— Ë, gritou por fim, trincando as palavras. — Você põe-me fora de casa, porque tem medo que eu lhe tome o amante da irmã!
— Insolente! Bradou o Coqueiro, avançando um passo.
— Não te tenho medo, ordinário! Retrucou Lúcia empinando o peito contra ele. — Sairei daqui se bem quiser! Não te devo nada, entendes tu?! Nada!
— Ah! Não deve porque ele pagou!
— E que tem você com isso?! Que tem você com o dinheiro dos outros?! Ou, quem sabe se a donzela da irmã passou-lhe procuração!...
Seja lá pelo que for! Eu é que não a quero aqui, nem mais um instante. É fazer a trouxa e — rua!
— Também não preciso ficar nesse bordel! Exclamou ela, e rabanou com direção ao segundo andar.
— Que diz você, sua aquela?! Assistiu Mme. Brizard, cortando-lhe o caminho.
— É isso mesmo! Respondeu Lúcia, escarrando no chão com desdém. E as duas mulheres ficaram alguns segundos a olhar em silêncio uma para a outra, de mãos nas cadeiras.
Coqueiro e Dr. Tavares meteram-se entre elas.
Lúcia subiu ao n.º 8, aprontou as malas num abrir e fechar de olhos, em seguida vestiu-se para sair, e já de chapéu, a sombrinha na mão, o indispensável enfiado no braço, correu ao quarto de Amâncio.
— Sabes? Bradou logo ao entrar, empurrando a porta com fúria. — Aquela bêbada e o marido acabam de me enxotar daqui por tua causa! Têm medo que eu te coma! Não posso ficar nem mais um instante! Desejo que me emprestes o Sabino!
— O Sabino estava às ordens, mas para onde se atirava ela com tanta precipitação?
— Não sabia! Havia, porém , de encontrar um canto, onde se metesse! Havia de descobrir um buraco, ainda que fosse no cemitério!
E Lúcia levantou os punhos até às fontes como para se esmurrar, mas cobriu o rosto com as mãos e abriu num pranto muito nervoso. Era a reação que chegava.
Amâncio saltou da cama e correu para ela. Desembaraçou-a do chapéu, da bolsa e da sombrinha e puxou-a depois sobre si.
— Não te consumas...disse - não te mortifiques desse modo.
— Sou uma desgraçada! respondeu a mulher, assoando as lágrimas. — Nada se cumpre do que eu desejo! Nada! O melhor é dar cabo desta vida miserável!
E soluçava com o rosto escondido no peito do rapaz.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.