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#Crônicas#Literatura Brasileira

Vida Urbana

Por Lima Barreto (1921)

– Não sei. Há dias que é um nunca acabar... Formam uma fileira que nem em bilheteria de teatro em dia de espetáculo... Na semana passada, quase perdi um negócio urgente e do meu interesse, porque tive de esperar que mais de vinte “freguesas” dessas, dessem o seu recadinho ao aparelho... Levaram, todas, cerca de meia hora ou mais.

– Então é por isso que os jornais tanto nos atazanam com essa questão do telefone, de Líght? Servem as senhoras ...

– Qual o que! fez o negociante.

– Então, porque é?

– A questão é o preço do aluguel dos aparelhos e essas meninas são freguesas de graça que, às vezes até, nada compram na casa.

Fica, para mim, ainda insolúvel essa questão de telefone. Careta, Rio, 9-4-1921.

MAS...ESSES AMERICANOS...

Lembram-se os senhores de uns americanos que, muito generosamente, se ofereceram para transformar Niterói, a pacata Praia Grande, numa coisa maravilhosa? Lembram-se? Eram obras portentosas de avenidas, jardins, palácios, saneamentos, etc., etc.

Os niteroienses, inclusive o nosso Manuel Benício , entusiasmaram-se tanto com tais projetos mirabolantes, que fizeram tal pressão na respectiva edilidade, a ponto de obrigarem a passar a mecânica autorização municipal, com uma pressa de medida de salvação pública.

O Rio de Janeiro estremeceu. Carlos Sampaio. o genial edil do “arrasamento” e da Gruta da Imprensa, ia ficar enfoncé. Passos , então este!

A coisa era deveras portentosa: arrasavam-se morros (vide Sampaio da máquina de lama) e surgiam em seus lugares vários Bois de Boulogne; aterrava-se Niterói, desde Gragoatá até a Armação, e erguiam-se modernos armazéns para receber cargas do Porto do Rosa e de Magé; bairros sem conta iam surgir – bairros ricos, remediados e pobres, brancos, mulatos e pretos; as barcas com que eles iam dotar o serviço de ligação da Invicta com o Largo do Paço, haviam de ser de tanto luxo que os pobres e modestos haviam de ter medo de embarcarem nelas; enfim, aquilo havia de ficar um encanto de espantar.

À vista das plantas, dos desenhos, dos projetos e dos relatórios, todos diziam: não há como os americanos; eles é que sabem fazer as coisas. Nós somos uns pungas!

Eu também, que sou leitor assíduo do O Estado de meu amigo Mário Alves, fiquei arrebatado de entusiasmo, à vista de tanta coisa fantástica que Niterói, onde estudei os meus primeiros preparatórios, ia ter.

Passam-se os dias, vêm os meses e – oh! decepção! – abro A Noite de um dia deste e descubro que o que os americanos querem ou vão pôr em Niterói é uma colossal batota.284

Desgostou-me e penso cá com os meus botões: para isso nós não precisávamos de americanos; aqui mesmo, desde a Rua da Conceição até o Catete, passando pela Lapa, temos rente com esse talento criador.

Mas... esses americanos...

Careta, Rio, 16-4-1921.

FEIRAS LIVRES

Não há dúvida alguma que a aproximação do procurador do consumidor é negócio proveitoso para os níqueis deste último.

Foi com esta tenção que o senhor Dulfe instituiu as feiras livres que atualmente se realizam em várias partes deste Rio de Janeiro.

Nas minhas vizinhanças, isto é, no Méier, há uma delas. Lá fui ter. Não era muito cedo. Não me levanto às primeiras horas do dia, embora seja pobre. Fui às oito horas da manhã. Que lindeza de moças e senhoras!

Nunca as vi tão lindas nem mesmo na Rua do Ouvidor que frequento desde os dezesseis anos quando me matriculei na Escola Politécnica.

Naturalmente, um homem como eu, estando em feira livre e vendo tanta moça bonita, havia de ficar contente.

Não aconteceu isto, porém, porque encontrei um ferrabrás que logo implicou comigo.

Esse vagabundozinho dos subúrbios é um tipo lá daquelas bandas que a gente não sabe como vive. Toma uns ares de valentão e não faz nada.

A vida corre-lhe fácil e, sem dificuldades e aborrecimentos, vai comendo o seu feijão e carne seca. Aparece um dia, entretanto, um outro tipo que não está disposto a respeitarlhe semelhante lordismo, logo ele se esvai. Foi o que aconteceu com este tal de Bragalhães que vivia com a função feminina de vender “bruxas” de pano e serragem.

Fiquei admirado que essas feiras livres de gênero de primeira necessidade, isto é, arroz, feijão e carne seca, fossem também negócio de brinquedos, tal e qual as de Leipzig, mas me contive.

Embora não tivesse exprimido o meu pensamento, esse tal de Bragalhães, compreendeu-me e me interpelou. Aí que foi a história! Nunca ando armado, nem gosto de armas; ele, porém, que é muito valente, tanto assim que tem prontuário na polícia, honra que não me cabe, puxou canhão quatrocentos e vinte e quis fazer um disparo. O tal de Bragalhães, porém, não o sabia disparar. Está aí um desastre.

(continua...)

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