Por Aluísio Azevedo (1882)
E o fato é que ficava um rapagão, quando envergava o fraque de pano fino, vestia um par de calças novas, armava o seu chapéu alto e ganhava a rua, rangendo as botinas e picando a calçada com a biqueira da bengala. Dos empregados do nosso comendador foi ele o único que compareceu ao casamento do patrão. O Figueiredo teve uma vertigem quando o viu chegar de carro e casaca.
— Ora com efeito!... resmungou o caturra, a sacudir a cabeça. E afastou-se para não disparatar ali mesmo com o sócio.
Portela dirigiu-se mais de uma vez à noiva? felicitou-a, disse-lhe palavras muito bonitas e pediu-lhe que lhe reservasse um dos seus alfinetes dourados. À mesa ergueu-se com desembaraço para brindar o patrão, e seu discurso foi muito bem recebido. Desde esse dia o comendador o convidou para jantar aos domingos, e Portela não faltou a nenhum deles. Às vezes havia dança e ele dançava; se havia jogos de prenda, brincava; e, se havia meninas solteiras, namorava.
D. Teresinha, como tratava ele a mulher do patrão, não lhe votava entretanto mais do que uma pequena estima, mais generosa que outra coisa, e perfeitamente compreendida no círculo dos seus deveres conjugais.
Por essa época já ela estava grávida das duas gêmeas a que nos referimos. O tempo passou; nasceram as meninas, e Portela sempre a freqüentar a casa do comendador, cada vez mais considerado e mais querido.
Quando a peste, que nessa época assolava o Rio de Janeiro, entrou em casa do bom negociante e lhe arrebatou dos braços os adoráveis frutos do seu segundo matrimonio, o pobre homem recebeu o golpe em cheio no coração e caiu desanimado e sem forças. Portela foi o único que teve o segredo de distraí-lo da desgraça, chamando-o de novo à vida.
Foi então que uma forte ralada dos ventos da velhice se atirou de súbito contra a tal janela e abriu-a de par em par. O comendador envelheceu da noite para o dia.
A transição da virilidade para a decrepitude é tão sobressaltada como a passagem da meninice para a puberdade. O desgraçado sentiu faltar-lhe a coragem para tudo; não queria festas, não queria distrações; o próprio trabalho já não tinha para ele nenhum dos atrativos de outrora. E, enquanto os fatos assim se sucediam, o Portela empregava todos os esforços para alcançar a mão de Olímpia, cujos encantos principiavam a vestir as galas da mulher, resplandecendo dentro da auréola de seus quinze anos. Distinta, rica, inteligente e formosa, a filha do comendador representava, para o caixeiro, o melhor partido que este poderia ambicionar.
O comendador estava por tudo; só faltava que a menina se resolvesse. Ela recusou. O pai tentou ainda defender a pretensão do amigo; Olímpia voltou-lhe as costas.
Foi por esse tempo que o comendador, sentindo-se esgotado e precisando descansar, resolveu sair do comércio ativo. João Figueiredo, logo que liquidou as contas do sócio e ficou só, declarou ao Portela que não o suportaria nem mais uma semana em sua casa.
— Até ali era preciso respeitar a vontade do comendador Ferreira; agora não havia razão para aturá-lo!
O comendador, sabendo do fato, ficou furioso e chamou o rapaz para sua companhia.
— Havemos de arranjá-lo, prometeu ele; mas enquanto não aparecer emprego, ficará ao meu serviço. O senhor terá um ordenado, casa e comida.
Portela mudou-se logo para a casa do comendador. De muito pouco serviço dispunha este para lhe dar a fazer; não passava todo ele das contas de suas propriedades alugadas e uma ou outra carta comercial exigida pelas pendências com a praça. Compreende-se, por conseguinte, que o rapaz tinha folga e grande folga.
Trabalhava no próprio escritório do patrão, ao lado da biblioteca, perto da sala de jantar, onde Teresinha costurava. Às vezes o Portela punha de lado a pena, fechava a sua costaneira e ia dar dois dedos de palestra à patroa. Ela o tratava com muita deferência.
Um dia, seriam duas horas da tarde e o comendador não estava em casa. Teresinha parecia entretida de todo com a sua máquina de costura, e Olímpia passeava na rua do Ouvidor com as amigas.
Fazia muito calor: outubro nunca estivera tão insuportável e tão cheio de moscas.
O ar morno e pesado produzia quebrantes no corpo e convidava a gente a estender-se no chão, sobre a esteira, e deixar-se ficar de olhos fechados em plena preguiça. Quase que se não podia respirar. As cortinas da janela tinham uma imobilidade de pedra.
O comendador morava já em Botafogo, na mesma casa donde mais tarde o arrancou Olímpia para dar com ele na Avenida Estrela e depois no modesto chalezinho da Tijuca. Via-se da sala de jantar a baía defronte reverberar aos raios do sol: o Pão de Açúcar, completamente nu de nuvens, se refletia por inteiro no ardente espelho das águas, e o céu, descoberto e brilhante, parecia feito de porcelana azul!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.