Por Aluísio Azevedo (1884)
Lúcia fingiu-se muito assustada com aquilo: — O Coqueiro, se veio ali, foi para mostrar que sabia de tudo! Naturalmente espiara pela fechadura! E pendurou logo uma toalha na chave.
— É o que se chama ter fama sem proveito!... Observou Amâncio, a quem as negaças da mulher do Pereira já impacientavam.
— Está em tuas mãos!... Volveu ela. — Já expus com franqueza as circunstâncias...
— Tirar-te do marido...
— Está claro!
— Isso por ora é impossível!... Mais tarde, não digo que não, mas por enquanto...
— É porque não me amas, disse a ilustrada senhora, abaixando os olhos. — Se te amo, minha vida! Se te amo!...
E ameigava-a, procurando beijá-la.
Ela fugia com o rosto, dizendo aflitivamente que preferia nunca o ter visto. “Antes de conhecê-lo, ainda conseguia suportar o marido abominável a que a prendera o destino, mas, depois que fantasiara a possibilidade de viver com Amâncio, de possuí-lo, todo, sem que outra o disputasse, não mais podia entestar com a miserável existência que levava e com os dilacerantes sacrifícios que lhe cumpriam!”
Dito este fraseado, foi-se do quarto, como das outras vezes, a fazer-se rogada, a medir os beijos que dava, a prometer que não voltaria mais, se Amâncio persistisse nas costumadas exigências.
— Ora bolas!... praguejou este, quando se achou só. — Desta forma é melhor mesmo que não venha! Põe-me neste estado e afinal musca-se, ainda por cima emburrada! Gaitas!
Mas a idéia de que aquela resistência talvez não durasse mais do que o tempo da moléstia o consolava em parte.— Sim, porque, em ficando bom, as coisas seriam de outro feitio! Tinha graça que ele estivesse a pagar contas de quatrocentos e tantos mil-réis, só para desfrutar a certeza de que a Sra. D. Lúcia o amava com todo ardor de que é capaz uma alma pura e apaixonada! Qual! Por semelhante preço preferia não ser amado!
E adormeceu, impaciente por sair da moléstia, e entrar no gozo da felicidade que ele acabava de pagar adiantado, como se abrisse para todo o ano uma assinatura de amor.
A ilustrada senhora conseguira o que esperava: as suas negaças faziam-na mais desejada pelo rapaz e davam-lhe, aos olhos deste irresistíveis fascinações de coisas proibida.
Certas mulheres, quando se negam, estão recuando para melhor armar o salto sobre a presa.
* * *
Logo pela manhã do dia seguinte, já o Coqueiro se apresentava no quarto do provinciano, mas com o aspecto muito ressentido, os gestos duros, o olhar cheio de recriminações.
— Então, ontem à noite, tinhas aqui a Lúcia?...inquiriu de chofre, depois de cumprimentar Amâncio secamente.
O interrogado fez uma cara de espanto.
— Não podes negar! Eu a vi sair!...
— Ë exato, respondeu o doente, franzindo as sobrancelhas.
— Hás , porém de permitir que eu te diga que andaste muito mal!...repontou o Coqueiro. — Tens de concordar que eu não posso, nem devo consentir em casa semelhante coisa!
E foi até a janela, olhou a rua pelas vidraças. Amâncio não dava uma palavra O outro voltou, muito comprometido.:
— Isto aqui é uma casa de família! Sabes perfeitamente que temos conosco uma menina solteira, — uma virgem! Não é por mim, nem por ti, nem tampouco pela Lúcia; mas é por ela, sebo! por - minha irmã! — a quem sirvo de pai! É por minha mulher, é por minha enteada e pelo menino, é pelos hóspedes, enfim!...
— Pois acredita que não houve nada demais!...balbuciou Amâncio.
— Não, filho, tem paciência! Lá fora o que quiseres, mas daquela porta para dentro, não admito, nem posso admitir!...E passeando pelo quarto com as mãos nas algibeiras: - Que diabo! Eu te preveni!...
— Ora o quê! Resmungou Amâncio , indignado com a hipocrisia do colega, mas sem coragem para dizer o que sabia a respeito dele e dos costumes da casa.— Não abro o exemplo!...acrescentou.
— O que queres dizer com isso?
— Quero dizer que sei, tão bem como tu, que aqui nem todos são santos!...
— Não te percebo...
— E é melhor mesmo justamente que não percebas.
Mas , como o outro ainda se quisesse fazer de desentendido, ele declarou, frisando as palavras, que nem sempre ficava a dormir no quarto durante a noite e que então enxergava, às vezes...,melhor do que mesmo de dia...E falou indiretamente nas entrevistas do médico do n.º 11 e no que sabia do próprio Coqueiro com referência à mucama.
— Olha! Concluiu: — O que te posso afiançar é que a mulher do Pereira só vem aqui ao quarto depois que me acho doente, e, longe de ser com mau fim, coitada, é até com muito boa intenção! — Entra, cavaqueia um pouco, dá-me a tomar o remédio e assim como veio se vai embora, entendes tu?!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.