Por José de Alencar (1875)
- Perdão, contestou Seixas a meia voz. Eu não jogo a dinheiro.
- Porque?
- Não gosto.
- Tem medo de perder?
- É uma das razões.
- Eu lhe empresto.
- Também já perdi este mau costume de contar com o dinheiro alheio, tornou Seixas sorrindo e frisando as palavras. Depois que sou rico, só gasto do meu.
- Não lhe mereço esta fineza? Retorquiu Aurélia acerando também o sorriso. Seja ao menos esta noite jogador e perdulário para satisfazer o meu capricho.
A moça recebeu a carteira da mucama; e tirou dela uma libra esterlina, que deitou sobre a mesa.
- Não se tenta?
- É muito pouco! tornou Seixas com um riso amargurado.
Este riso incomodou Aurélia, que ocultou a moeda e a carteira. Ainda esteve algum tempo baralhando as cartas distraída; então escaparam-lhe palavras soltas que pareciam de um monólogo.
- Dizem que a água no vinho faz de duas bebidas excelentes uma péssima. O mesmo acontece à mistura da virtude com o vício. Torna o homem um ente híbrido. Nem bom, nem mau. Nem digno de ser amado; nem tão vil, que se lhe evite o contágio. Compreendo o que deve sentir uma mulher... o que sentiu uma amiga minha, quando conheceu que amava um desses homens equívocos, produtos da sociedade moderna.
- Essa amiga sua, que suponho conhecer talvez preferisse que o marido fosse em vez de algum desses equívocos, pura e simplesmente um galé? perguntou Seixas.
- De certo. Se o marido fosse um galé, ela quebraria imediatamente a grilheta que a prendesse a ele, e se afastaria com a morte n'alma. Mas eu...
- A senhora? interrogou o marido vendo-a hesitar.
As pálpebras franjadas de Aurélia ergueram-se desvendando os grandes olhos pardos que deslumbraram Seixas. Seu colo se distendera com o movimento que fez para aproximar-se, e a voz soou vibrante e profunda.
- Eu?... Não me importaria que ele fosse Lucifer, contanto que tivesse o poder de iludir-me até o fim, e convencer-me de sua paixão e inebriar-me dela. Mas adorar um ídolo para vê-lo a todo o instante transformar-se em uma coisa que nos escarnece e nos repele...
É um suplício de Tântalo, mais cruel do que a o da sede e da fome.
Aurélia, proferidas estas palavras, ergueu-se e atravessando a sala entrou em seu aposento.
- Onde está Aurélia? perguntou D. Firmina quando saiu da janela.
- Já recolheu-se. A noite estava fresca. O sereno fez-lhe mal. Boa noite.
O outro dia foi um Domingo.
Ao jantar Aurélia disse ao marido:
- Há mais de um mês que estamos casados. Carecemos pagar nossas visitas.
- Quando quiser.
- Começaremos amanhã. Ao meio-dia; não é boa hora?
- Não seria melhor à tarde? consultou o marido.
- Causa-lhe transtorno de manhã?
- Não desejo faltar à repartição.
- Pois então há de ser mesmo de manhã, retorquiu a moça a sorrir. Não consinto nessa falta de galanteria. Não acha, D. Firmina? Preferir o emprego à minha companhia?
- De certo! confirmou a viúva.
Seixas nada opôs. Era seu dever acompanhar a mulher quando esta quisesse sair, e ele estava resolvido a cumprir escrupulosamente todas as obrigações.
VII
Seixas escreveu a seu chefe uma carta justificando sua ausência com um motivo grave, e remetendo-lhe alguns papéis que havia despachado na véspera.
Ao entrar na saleta, encontrou Aurélia que examinava o tempo.
- Está um dia tão quente!... O melhor talvez fosse adiar nossas visitas. Que diz?
- Decida, porque ainda tenho tempo de ir à secretaria.
- Vamos almoçar. Resolverei depois.
(continua...)
ALENCAR, José de. Senhora. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1847 . Acesso em: 27 jan. 2026.