Por Aluísio Azevedo (1882)
Ainda em vida da mãe de Olímpia, já o desvelado doméstico invadia todas essas atribuições e gozava do valimento do amo. Foi ele, até, entre os íntimos do comendador, quem tomou parte mais ativa no segundo casamento deste. O comendador consultara a opinião do criado.
Jacó achava a noiva um pouco moça demais para o amo. O comendador já não estava criança!...
O pai de Olímpia opunha então a circunstância de que tinha filhos, de que precisava de uma senhora que lhe tomasse conta da casa e dirigisse a educação das crianças.
— Ora, replicava o velho criado; a Sinházinha não está tão pequena que precise de madrasta!... (Esta Sinhâzinha, a que se referia o bom Jacó, era Olímpia). E o nhonhô, acrescentava ele, sai do colégio apenas duas vezes por ano...
Mas, apesar de tudo, o comendador contraiu novo matrimônio, do qual lhe resultaram aquelas duas malogradas gêmeas de que já tratamos. Não foi feliz nas segundas núpcias: o criado tinha razão quase inteira. Ao casar, o comendador não estava totalmente velho, mas caminhava muito de perto para isso. A velhice às vezes é uma janela que se abre de repente, e por onde fogem no mesmo instante os últimos raios da mocidade.
A segunda mulher do comendador orçava então pelos vinte anos e era rapariga muito bem constituída de corpo. Sem ser bonita, ostentava esse encanto inestimável da saúde e da força, que tem para o homem as mesmas qualidades atrativas que a brilhante clorofila das flores, segundo Darwin, tem para os insetos voláteis.
Pelos seus olhos vivos e travessos, pelo moreno quente das suas faces coradas e viçosas, pelos seus lábios carnudos e vermelhos, pelo vigor da sua larga respiração e pela sedutora frescura dos seus dentes, a segunda mulher do comendador estava a pedir um marido mais esperto e mais senhor de si; de sorte que, por ocasião de escancarar-se a janela de que há pouco falamos, se escaparam logo, de envolta com os últimos raios da mocidade do infeliz marido, as estopinhas da fidelidade conjugal, cujos votos a esposa do comendador principiava a romper com toda a força dos seus ricos vinte anos.
Uma janela aberta e que se não pode fechar, é um perigo constante para a casa a que pertence, principalmente se nesta houver uma flor, porque os insetos andam soltos lá por fora.
O primeiro inseto que entrou pela janela foi o Portela, aquele morigerado e belo moço do comércio, convidado por Henriqueta e Leão Vermelho para servir de padrinho de batismo à nossa Clorinda, e o qual, mais tarde, vimos transformado em comendador, a conversar em companhia do Adelino Fontoura e do Duque-Estrada em casa da afilhada.
Portela estava por esse tempo no vigor dos anos; teria quando muito vinte e cinco, porque justamente na mesma época batizara ele a filha natural de Leão Vermelho.
Vejamos agora quais foram as circunstâncias que o aproximaram da mulher do comendador Ferreira, porque elas se ligam às futuras cenas desta narrativa.
O pai de Olímpia ainda então se achava no comércio ativo, de sociedade com um tal João Figueiredo, tão comendador como ele, porém muito menos fino e menos traquejado nas salas. O nosso Portela era caixeiro da casa. Nesse tempo, como deve saber o leitor, os empregados do comércio não gozavam em geral de certas regalias, que só mais tarde lhes foram conferidas pelos patrões. O bigode, a gravata, o fraque, por exemplo, eram fruto proibido para os caixeiros.
Entrar em um café, fumar um charuto, saber dançar uma quadrilha francesa, tudo isto, para os infelizes moços, eram verdadeiros crimes de lesa-moralidade comercial. Mas o comendador Ferreira não se deixava levar por tão mesquinhos preconceitos e dava aos seus empregados plena liberdade de deixar crescer o bigode, vestir um fraque, penetrar nos raros cafés dessa época e fumar os charutos que quisessem.
O Figueiredo opunha-se amargamente contra semelhante liberdade do sócio.
— Você me quer estragar os rapazes!... dizia ele, penetrado de um grande desgosto. Pois você não vê, seu Ferreira, como tudo por aí anda lá tão desmoralizado!... Não vê como hoje só há pelintras?! Não vê que hoje em dia os rapazes, em vez de aproveitarem o domingo para ir à missa, querem ir fumar charutos ao Passeio Público e meter-se à tarde na patifaria do teatro?!...
E o Figueiredo, possuído cada vez mais da sua indignação, revoltava-se contra o sócio; mas o comendador Ferreira não se deixava catequizar e continuava a dar folga aos rapazes.
É porém seguro que, entre os caixeiros da casa, só um se aproveitava verdadeiramente dessas regalias, e esse era o Portela. Aos domingos, em vez de ir para o canto da rua, como faziam seus companheiros, assentar-se a um banco de pau e ver quem passava, o pretensioso caixeiro ataviava-se com roupas de casimira francesa, metia um charuto entre os dentes, e punha-se de passeio pelas ruas. Estas especialidades davam-lhe aos olhos das moças suas conhecidas certa distinção simpática: Portela era citado por ela como a flor dos rapazes do comércio.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.