Por Aluísio Azevedo (1884)
A avó ralhava , mas não podia conter o riso .O netinho era o seu encanto, o fraco de sua velhice; só um pedido daquele diabrete faria suspender o castigo dos negros e desviar do serviço da roças algum dos moleques — para ir brincar com Nhozinho. Estava sempre a dizer que se queixava ao genro e que o devolvia para a cidade; mas, no ano seguinte, se Amâncio não aparecia logo no começo das férias, choviam os recados da velha em casa de Vasconcelos, rogando que lhe mandassem o neto.
— Mande! mande o pequeno! aconselhava o médico.
E lá ia Amâncio.
Só aos doze anos fez o seu exame de português na aula do Pires.
Houve muita formalidade. A congregação era presidida pelo Sotero dos Reis; havia vinte e tantos examinandos. Amâncio tremia naqueles apuros. Não tinha em si a menor confiança.
Foi, contudo, “aprovado plenamente” .Mas não sabia nada, quase que não sabia ler. Da gramática apenas lhe ficaram de cor algumas regras, sem que ele compreendesse patavina do que elas definiam. O Pires nunca explicava: — se o pequeno tinha a lição de memória, passava outra, e, se não tinha, dava-lhe algumas palmatoadas e dizia-lhe que trouxesse a mesma para o dia seguinte.
Mas, enfim, estava habilitado a entrar para o Liceu onde iria cursar as aulas de francês e geografia.
O Liceu, que bom! — Oh! Aí não havia castigos, não havia as pequenas misérias aterradoras da escola!Não poderia faltar às aulas , é certo! mas, em todo o caso, estudaria quando bem entendesse e, lá uma vez por outra, havia de “fazer a sua parede”.
E, só com pensar nisso, só com se lembrar de que já não estava ao alcance das garras do maldito Pires, o coração lhe saltava por dentro, tomado de uma alegria nervosa.
* * *
O Vasconcelos quis festejar o exame do filho, com um jantar oferecido aos senhores examinadores e aos velhos amigos da família.
À noite houve dança. Amâncio convidou os companheiros do ano compareceram somente os pobres, — os que não tinham em casa também a sua festa.
O pai, por instâncias de Ângela, fizera-lhe presente de um relógio com a competente cadeia tudo de ouro. A avó, que se abalara da fazenda pra assistir ao regozijo do seu querido mimalho, trouxera-lhe um moleque , o Sabino.
Amâncio, todo cheio de si, a rever-se na sua corrente e a consultar as horas de vez em quando, foi nesse dia o alvo de mil felicitações, de mil brindes e de mil abraços.
Alguns amigo do pai profetizavam nele uma glória da pátria e diziam que o João Lisboa, o Galvão e outros não tinham tido melhor princípio.
Lembraram-se todas as partidas engraçadas de Amâncio, vieram à baila os repentes felizes que o diabrete tivera até aí. Na cozinha, a mãe preta , a ama, contava às parceiras as travessuras do menino e, com olhos embaciados de ternura, com uma espécie de orgulho amoroso, referia sorrindo os trabalhos que lhe dera ele, as noites que ela desvelara.
— Já em pequeno, diziam — era muito sabido, muito esperto!enganava os mais velhos; tinha lábias, como ninguém, para conseguir as coisas, e sabia empregar mil artimanhas para obter o que desejava! — Não! definitivamente não havia outro!
Ângela, a um canto da varanda, assentada entre as suas visitas, seguia o filho com um olhar temperado de mágoa e doçura.
— O que lhe estaria reservado?...o que o esperaria no futuro?...cismava a boa senhora, meneando tristemente a cabeça — Oh! Às vezes cria-se um filho com tanto amor, com tantas lágrima, para depois vê-lo andar por aí aos trambolhões, nesse mundo de Cristo!...E a idéia de que, talvez, nem sempre o teria perto de si, que nem sempre o poderia obrigar a mudar a camisa, quando estivesse suado; obrigá-lo a tomar o remédio, quando estivesse doente; obrigá-lo a comer, a dormir com regularidade; a evitar, enfim tudo que pudesse-lhe prejudicar a saúde; oh! a idéia de tudo isso lhe ent6rava no coração, como um sopro gelado, e fazia tremer a pobre mãe.
— Ai! ai! disse ela.
— Que suspiros são esses, D. Ângela? perguntou o Dr. Silveira, que estava ao seu lado. Homem íntimo da casa e figura conhecida na política da terra.
— Malucando cá comigo, respondeu a senhora .E como o outro estranhasse a resposta:— Quem tem filho, tem cuidados ,senhor doutor!...
— Oh! Oh! Exclamou este, com um gesto autorizado, abrindo muito a boca e os olhos. — A quem o diz, Sra. D. Ângela, a quem o diz!...Só eu sei o que me custam esses quatro pecados que aí tenho!...
E para provar que dizia a verdade, teria falado nos seus cabelos brancos, se não os pintasse.
— Quando Ângela se afligia daquele modo, sendo rica ;quanto mais ele— pobre jurisconsulto, com pequenos vencimentos e uma família enorme!... — Ah! Os tempos vão muito maus...
Puseram-se logo a falar na ruindade dos tempos. “ Estava tudo pela hora da morte! — Comia-se dinheiro! “
Mas o Silveira voltara-se rapidamente, para dar atenção a Amâncio, que acabava de aproximar-se, em silêncio, com ar presumido de quem tinha consciência de que toda aquela festa lhe pertencia.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.