Por José de Alencar (1878)
— Em Paris, numa visita que fizemos ao Louvre. Carlos sempre teve gosto e inclinação para as artes; lembrei-me um dia de mostrar-lhe o museu de pintura e escultura. Deixei-o um instante para falar a alguém que encontrara na sala; quando o procurei fui achá-lo diante de um quadro, creio que a Ester ou a Suzana do Veronese. Voltou-se; já não era o homem absorto e sombrio que ali entrara: tinha no semblante e em toda a sua pessoa a expressão afável dos mais belos dias de sua vida. Vi em seu olhar uma interrogação e pensando que ela se referia à tela, improvisei admiração, que não sentia, pois, surpreso e contente daquela transfiguração, eu nenhuma atenção prestava ao quadro. Não obstante prodigalizei elogios ao desenho, ao colorido, à criação do grande pintor. "Não; não é isto!... disse-me ele. Mas tu não podes compreender a beleza que este quadro tem para mim". Eu percebi que ele achara nessa imagem uma reminiscência de sua Julieta.
— Ora, descobriu-se afinal a fênix dos maridos! exclamou Amália com uma risada expansiva dirigindo-se à amiga. Nenhum poeta até hoje, que eu saiba, animou-se a inventar um Penélope masculino. Estava reservada esta glória ao Dr. Teixeira.
— Antes de mim um poeta, e dos mais ilustres, criou esse no Frei Luís de Sousa, que a senhora talvez não conheça, porque é escrito em nossa língua.
—Até o vi representar, o que deve parecer-lhe ainda mais admirável, depois que os senhores fizeram do Rio de Janeiro um pequeno Paris de bulevar. Mas esse marido que voltou ao cabo de vinte anos de exílio foi o amor da mulher que o trouxe, ou a lembrança da pátria, a saudade de seu velho Portugal?
— Não se lembra de seu desespero por encontrar a mulher unida a outro? É uma das cenas mais tocantes.
— Esse amor caduco e de cabelos brancos, pois tinha mais de vinte anos...
— Como o de Penélope, acrescentou Teixeira em nota.
— Esse fóssil conjugal é um monstro ideado por Garrett para complicar a situação das duas metades, que o aparecimento do primeiro marido veio separar. O drama está nessa separação, realmente incômoda, para quem não gosta de sair de seus hábitos. Assim o romeiro, bem longe de ser o herói, não passa de um pretexto, de um incidente, de um motivo. Faz aí o mesmo oficio de pai cruel, que não deixa a filha casar-se democraticamente com qualquer cidadão da rua.
A chegada de uma senhora a quem Amália foi receber, cortou a réplica do doutor, que ria da malícia da moça.
— Mas então o Hermano desde aquela visita do Louvre restabeleceu-se? perguntou o Borges, que via a conversa apartar-se do tema.
— Completamente. Daí em diante foi outro, ou antes, foi o mesmo homem que todos conheceram na época de seu casamento. Aquele painel tinha operado nele uma verdadeira ressurreição.
Amália, que tomara o seu lugar, interrompeu de novo o médico para insinuar uma observação maliciosa.
— Foi o painel, ou alguma estátua?
— Nós estávamos na sala de pinturas, minha senhora.
— Pergunto se não seria alguma estátua viva que operou o milagre da ressurreição. Alguma Madalena que passava?
— Não o conhece!
— Ou talvez o seu amigo seja como certos escultores que compõem a sua estátua, tirando de cada modelo as belezas que ele possui e combinando-as entre si.
O Doutor Henrique Teixeira fitou a moça com alguma surpresa. A candura do sorriso que brincava nos lábios faceiros convenceu-o de que Amália não compreendia o alcance das palavras que proferia.
O médico chegava da Europa, onde se tinha demorado quatro anos; e não sabia que a invasão do romance realista que nos vem de Paris, tem posto em moda certa gíria de cafés e bastidores, que algumas senhoras vão repetindo como linguagem de bom-tom sem consciência das enormidades que às vezes escondem tais ditos espirituosos.
O Dr. Teixeira deixou passar a observação da Amália; e, para não acentuá-la com uma pausa, continuou a referir a Borges o episódio da viagem de Hermano
— Pode acreditar no que lhe digo. Carlos não tem o menor sintoma de perturbação mental. Nesse mesmo dia da nossa visita ao Louvre emancipou-se da minha solicitude e viveu sobre si. Depois que voltou ao Rio de Janeiro entretivemos uma correspondência seguida; e nas suas cartas respirava certo contentamento íntimo e sereno, que eu vim encontrar na sua vida habitual.
— Então é feliz o seu amigo? perguntou Amália.
— Acredito que sim.
— E o senhor afirmou que ele não tinha esquecido a mulher e nem a esqueceria nunca?
— Afirmei, e posso prová-lo, acudiu Henrique Teixeira picado pelo remoque da moça.
— Há de ser difícil.
— Promete-me guardar reserva sobre o que lhe contar?
— Mais do que reserva. Prometo-lhe não acreditar nem uma palavra do seu romance, o que não me impedirá de aplaudi-lo, se for interessante como espero.
(continua...)
ALENCAR, José de. Encarnação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2031 . Acesso em: 30 jan. 2026.