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#Comédias#Literatura Brasileira

Quem casa, quer casa

Por Martins Pena (1845)

indivíduo. Bériot, Paganini, Bassini e Charlatinini muito inventaram, foram homens especiais e únicos na sua individualidade. Eu também quis inventar, quis ser único, quis ser apontado a dedo... Uns tocam com o arco... (N. B.: Deve fazer os movimentos, segundo os vai mencionando.) Isto veio dos primeiros inventores; outros tocam com as costas do arco... ou com uma varinha... Este imita o canto dos passarinhos... zurra como burro... e repinica cordas... Aquele toca abaixo do cavalete, toca em cima no braço... e saca-lhe sons tão tristes e lamentosos capazes de fazer chorar um bacalhau..... Estoutro arrebenta três cordas e toca só com uma, e creio mesmo que será capaz de arrebentar as quatro e tocar em seco... Inimitável instrumentinho, por quantas modificações e glórias não tens passado? Tudo se tem feito de ti, tudo. Tudo? (Levantando-se entusiasmado:) Tudo não; a arte não tem limites para o homem de talento criador... Ou eu havia de inventar um meio novo, novíssimo de tocar rabeca, ou havia de morrer... Que dias passei sem comer e beber; que noites sem dormir! Depois de muito pensar e cismar, lembrei-me de tocar nas costas da rabeca... Tempo perdido, não se ouvia nada. Quase enlouqueci. Pus-me de novo a pensar... Pensei... cismei... parafusei... parafusei... pensei... pensei... Dias, semanas e meses... Mas enfim, ah, idéia luminosa penetrou este cansado cérebro e então reputei-me inventor original, como o mais pintado! Que digo? Mais do que qualquer deles... Até agora esses aprendizes de rabeca desde Saëns até Paganini, coitados, têm inventado somente modificações do modo primitivo: arco para aqui ou para ali... Eu, não, inventei um modo novo, estupendo e desusado: eles tocam rabeca com o arco, e eu toco a rabeca no arco – eis a minha descoberta! (Toma o arco na mão esquerda, pondo-o na posição da rabeca; pega nesta com a direita e a corre sobre o arco.) É esta a invenção que há de cobrir-me de glória e nomeada e levar meu nome à imortalidade... Ditoso Eduardo! Grande homem! Insigne artista! 

 

CENA XIV 

FABIANA e EDUARDO. 

 

FABIANA, falando para dentro – Verás como o ensino! (Vendo Eduardo:) Oh, muito estimo encontrá-lo. 

EDUARDO – Ai, que não me deixam estudar? 

FABIANA – Pois você, sô mandrião, rabequista das dúzias, tem o atrevimento de insultar e espancar ... 

EDUARDO – Então acha a senhora que uma arcada nos dedos é espancar? 

FABIANA – E por que deu-lhe o senhor com o arco nos dedos? 

EDUARDO – Porque não voltou a música a tempo, fazendo-me assim perder dois compassos... Dois compassos de Bériot! 

FABIANA – Pois se os perdeu, anunciasse pelos jornais e prometesse alvíssaras, que eu havia dá-las, mas havia de ser a quem te achasse o juízo, cabeça de avelã! Ora, que estafermo este! Não me dirão para que serve semelhante figura? Ah, se eu fosse homem havia de tocar com esse arco, mas havia ser no espinhaço; e essa rabeca havia de a fazer em estilhas nessa cabeça desmiolada... Não arregale os olhos, que não me mete medo. 

EDUARDO, enquanto Fabiana fala, vai-se chegando para junto dela e lhe diz na cara, com força – Velha! (Volta, quer entrar no seu quarto.) 

FABIANA – Mariola! (Segura-lhe no hábito. Eduardo dá com o arco nos dedos de Fabiana. Vai-se. Fabiana, largando o hábito:) Ai, que me quebrou os dedos! 

 

CENA XV 

Entra OLAIA e após ela PAULINA. 

 

OLAIA – Falta de educação será ela! (Encaminhando-se para o quarto.) 

PAULINA – Cala-me o bico! 

OLAIA – Bico terá ela, malcriada! 

FABIANA – O que é isto? (Olaia entra no quarto sem dar atenção) 

PAULINA – Deixa estar, minha santinha de pau oco, que te hei de dar educação, já que tua mãe não te deu... (Entra no seu quarto.) 

FABIANA – Psiu, como é isso?... (Vendo Paulina entrar no quarto:) Ah! (Chama:) Sabino! Sabino! Sabino! 

 

CENA XVI

SABINO, de hábito, e FABIANA. 

 

SABINO, entrando – O que temos, minha mãe? 

FABIANA – Tu és homem? 

SABINO – Sim, senhora, e prezo-me disso. 

FABIANA – Que farias tu a quem insultasse tua mãe e espancasse uma irmã? 

SABINO – Eu? Dava-lhe quatro canelões. 

FABIANA – Só quatro? 

SABINO – Darei mais, se for preciso. 

FABIANA – Está bem, em tua mulher basta que só dês quatro. 

SABINO – Em minha mulher? Eu não dou em mulheres... 

FABIANA – Pois então vai dar em teu cunhado, que espancou a tua mãe e a tua irmã. 

SABINO – Espancou-as? 

FABIANA – Vê como tenho os dedos roxos, e ela também. 

SABINO – Oh, há muito tempo que tenho vontade de lhe ir ao pelo, cá por muitas razões... Chegou o dia... 

FABIANA – Assim, meu filhinho da minha alma; dá-lhe uma boa sova! Ensina-lhe a ser bem-criado. 

SABINO – Deixe-o comigo. 

FABIANA – Quebra-lhe a rabeca nos queixos. 

SABINO – Verá. 

FABIANA – Anda, chama-o cá para esta sala, lá dentro o quarto é pequeno e quebraria os trastes, que não são dele... Rijo, que eu vou para dentro atiçar também teu pai... (Encaminha-se para o fundo, apressada.)

(continua...)

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