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#Comédias#Literatura Brasileira

Os Irmãos das Almas

Por Martins Pena (1848)

EUFRÁSIA – Acha-se melhor, minha mãe? 

MARIANA – Um pouco. Se o compadre não estivesse lá à porta da igreja para tirar-me do aperto, eu morria, certamente. 

SOUSA – Aquilo é um desaforo! 

MARIANA – É assim, é. Ajuntam-se esses brejeiros nos corredores das catacumbas para apertarem as velhas e darem beliscões nas moças. 

SOUSA – E nos rasgarem as opas e darem caçoletas. 

EUFRÁSIA – É uma indecência! 

MARIANA – Espremeram-me de tal modo, que ia botando a alma pela boca a fora. 

EUFRÁSIA – E a mim deram um beliscão, que quase arrancaram carne. 

MARIANA – É insuportável! 

SOUSA – Principalmente, comadre, em S. Francisco de Paula. 

MARIANA – Estão horas inteiras num vaivém, só para fazerem patifarias. 

EUFRÁSIA – A polícia não vê isso? 

MARIANA – Ai, estou que não posso. Compadre, dê-me licença, que vou-me deitar um pouco. 

SOUSA – Essa é boa, comadre! 

MARIANA levanta-se – Já arranjou a opa para meu sobrinho? 

SOUSA – A esta hora já está tirando esmolas. 

MARIANA – Muito obrigada, compadre. Não se vá embora, jante hoje conosco. 

SOUSA – A comadre manda, não pede. 

MARIANA – Até já; descanse. (Saem Mariana, Eufrásia e Luísa.) 

 

CENA XIV

SOUSA e depois FELISBERTO. 

 

SOUSA, só – Estou estafado! (Senta-se.) A pobre da comadre, se não sou eu, morre; já estava vermelha como um camarão. (Ouvem-se dentro gritos de pega ladrão!) O que será? (Levanta-se; os gritos continuam.) É pega ladrão! (Vai para a porta do fundo; nesse instante entra Felisberto, que virá de opa e bacia, precipitadamente. 

Esbarra-se com Sousa e salta-lhe o dinheiro da bacia no chão.) 

FELISBERTO – Salve-me, salve-me, colega! (Trazendo-o para frente da cena.)

SOUSA – O que é isto, homem? Explique-se! 

FELISBERTO, tirando um relógio da algibeira – Tome este relógio, guarde-o. 

(Sousa toma o relógio maquinalmente.)

SOUSA – Que relógio é esse? 

FELISBERTO – O povo aí vem atrás de mim, gritando: Pega ladrão! – mas creio que o logrei. 

SOUSA – E o senhor roubou este relógio? 

FELISBERTO – Não senhor! Entrei em uma casa para pedir esmola, e quando saí, achei-me com este relógio na mão, sem saber como... (Vozearia dentro.) Aí vêm eles! (Corre e esconde-se no armário.) 

SOUSA, com o relógio na mão – E me meteu em boas, deixando-me com o relógio na mão! Se assim me pilham estou perdido. (Põe o relógio sobre a mesa.) Antes que aqui me encontrem, safo-me. (Vai a sair; ao chegar à porta, pára para ouvir a voz de Jorge.) 

JORGE, dentro – Isto é um insulto! Não sou ladrão! Em minha casa não entrou ladrão nenhum! 

SOUSA, voltando – Aí vêm!... E este relógio que me acusa... Pelo menos prendem-me como cúmplice. (Corre e esconde-se no armário.) 

 

CENA XV

Entra JORGE. 

 

JORGE – Não se dá maior pouca vergonha... Julgarem que eu era ladrão! Creio que algum tratante aproveita-se da opa para entrar com liberdade nas casas e surripiar alguma coisa, e os mais que andam de opa, que paguem!... Eu, roubar relógio!... Pois olhem, precisava bem de um. (Vê o relógio sobre a mesa.) Um relógio! Que diabo! (Pegando no relógio:) De quem será? Será roubado? Quatro bacias com esmolas! E então? E então tenho três homens dentro de casa? Oh, com os diabos! E todos três irmãos das almas... E ladrões ainda em cima! Vou saber como é isto. Mas, não; se eu perguntar, não me dizem nada. (Aqui aparece à porta da direita Eufrásia, sem que ele a veja.) É melhor que eu veja com meus próprios olhos. Vou esconder-me no armário e de lá espreitarei. (Vai para o armário; Eufrásia o segue pé ante pé. Logo que entra no 

armário, ela dá um pulo e fecha o armário com a chave ) 

EUFRÁSIA – Está preso! Minha mãe, venha ver o canário! (Sai.) 

 

CENA XVI 

Ouve-se dentro do armário uma questão de palavras, gritos e pancadas nas portas; isto dura por alguns instantes. Entra MARIANA e EUFRÁSIA. 

 

EUFRÁSIA – Está ali, minha mãe, eu o prendi! 

MARIANA – Fizeste muito bem. (Chega-se para o armário.)

EUFRÁSIA – Como grita! Que bulha faz! 

MARIANA – Aqui há mais de uma pessoa... 

EUFRÁSIA – Não senhora. (Os gritos dentro redobram e ouve-se muitas vezes a palavra – ladrão! – pronunciada por Jorge.) 

MARIANA – São ladrões! (Ambas gritam pela sala de um lado para outro.) 

Ladrões, ladrões, ladrões! (Luísa aparece à porta.)

LUÍSA, entrando – O que é isto? 

EUFRÁSIA – Ladrões em casa! 

AS TRÊS, correndo pela sala – Ladrões, ladrões! Quem nos acode? Ladrões! 

 

CENA XVII 

Entra uma patrulha de quatro permanentes e um cabo. Virão de fardeta branca, cinturão e pistolas. 

 

(continua...)

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