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#Comédias#Literatura Brasileira

Verso e Reverso

Por José de Alencar (1857)

Júlia, D. Mariana, Braga

(Braga traz uma caixa de corte de vestido)

D. Mariana — São muito bonitos os vestidos; você soube-os escolher, Júlia.

Braga — A senhora tem muito bom gosto.

Júlia — Mande deixar isto no meu carro.

Braga — Vou eu mesmo. (Sai pelo fundo)



CENA XVII

Ernesto, Júlia, D. Mariana


Ernesto (entrando à direita todo enlameado) — Bonito!... Estou fresco.

D. Mariana (rindo) — Ah! ah! ah!

Júlia — O que é isto, Ernesto?

Ernesto — O que vê, prima. A sua Rua do Ouvidor pôs-me neste estado miserável! Uma maldita carroça! Estúpidos que não olham para quem passa!

Júlia (sorrindo) — Foi uma vingança, primo; o senhor acabava de dizer mal do Rio de Janeiro.

Ernesto — E não tinha razão? Uma cidade de lama! Felizmente já mandei tomar a minha passagem. (Entra Teixeira)

Júlia — Como! Sempre vai amanhã?

Ernesto — Que dúvida! E até por segurança embarco hoje mesmo.



CENA XVIII

Os mesmos, Teixeira

Teixeira — Que é isto! Falas em embarcar. Para onde vais?

Ernesto — Volto para São Paulo, meu tio.

Júlia — Veio-lhe agora esta idéia! Diz que não gosta da corte, que é uma terra insuportável...

D. Mariana — Um inferno!

Teixeira — Caprichos de rapaz! Não há cidade como o Rio de Janeiro. É verdade que já não é o que foi. Bom tempo, o tempo das trovoadas. Que diz, D. Mariana? D. Mariana — Tem razão, Sr. Teixeira.

Ernesto — Faço idéia! Se sem as tais trovoadas estou neste estado!

Teixeira — Não sabes o que dizes. As trovoadas é que nos preservam da febre amarela, do cólera e de todas essas moléstias que nos perseguem agora.

Ernesto — Não quero contrariá-lo, meu tio; a sua corte é bela, é magnífica, com ou sem trovoadas. Mas eu por causa das dúvidas vou admirá-la de longe.

Júlia — Já tomou passagem, papai; vai amanhã.

Teixeira (a Ernesto) — Pois não! Julgas que consinto nessa loucura! Em falta de meu irmão, teu pai, eu faço as suas vezes. Proíbo-te expressamente...

Ernesto — Meu tio, é impossível, moralmente impossível...

Teixeira — Tá, tá, tá! Não me entendo com os teus palavrões de Academia. Eu cá sou homem do pão, pão, queijo, queijo: disse que não irás e está dito.

Júlia — Muito bem, papai. (A Ernesto) Não tem remédio senão ficar.

D. Mariana — E não se há de arrepender.

Ernesto Meu tio, previno-lhe que se me obriga a ficar nesta terra, suicido-me.

Júlia — Ah! Ernesto!

D. Mariana — Que rapaz cabeçudo!

Teixeira — Fumaças! Não façam caso.

Ernesto — Ou me suicido, ou mato o primeiro maçante que vier importunar-me.

Teixeira — Lá isto é negócio entre ti e a polícia. (Tira o relógio) Quase três horas!

Vamos D. Mariana, Júlia. . . Ande, Sr. recalcitrante, há de jantar hoje conosco.

Júlia (a Ernesto) — Bravo! Estou contente, vou vingar-me.

Ernesto (Enquanto os outros se dirigem à porta) — Três meses nesta terra! Meus três meses de férias do quinto ano, que eu contava fossem três dias de prazer! Vão ser três séculos de aborrecimento.

Júlia (da porta) — Ernesto, venha.

Ernesto — Lá vou, prima! (Vai sair e encontra Custódio que entra)

CENA XIX

Ernesto, Custódio

Custódio (cumprimentando) — Como tem passado? Que há de novo?

Ernesto (ao ouvido) — Que não estou disposto a aturá-lo. (Sai)

(Custódio fica pasmo no meio da cena; cai o pano)

ATO SEGUNDO

Uma sala elegante em casa de Teixeira, nas Laranjeiras, (abrindo sobre um jardim)

CENA I

Júlia, D. Mariana

(D. Mariana lê os jornais junto à mesa)

Júlia (entrando) — Ernesto ainda não acordou?

D. Mariana — Creio que não.

Júlia — Que preguiçoso! Nem por ser o último dia que tem de passar conosco. Às onze horas deve embarcar. (Olhando a pêndula) Ah! meu Deus já são nove! Vou acordá-lo!... Sim; ele disse-me ontem que era um dos seus maiores prazeres acordar ao som do meu piano, quando eu estudava minha lição.

D. Mariana — Não tem mau gosto.

Júlia — Obrigada!... Mas qual é a música de que ele é mais apaixonado? Ah! a ária da Sonâmbula! (Abre o piano e toca)



CENA II

Os mesmos, Ernesto

Ernesto (aparecendo à direita) — Sinto não ser poeta, minha prima, para responder dignamente a um tão amável bom dia. Como passou, D. Mariana?

D. Mariana — Bem; e o Sr.?

(continua...)

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