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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

No momento em que Aurélia, depois de passar o Lemos, ia por sua vez entrar no gabinete, apareceu à porta da saleta a Bernardina, velha a quem a menina protegia com esmolas. A sujeita parara com um modo tímido, esperando permissão para adiantar-se. 

Aurélia aproximou-se dela com um gesto de interrogação. 

- Quis vir ontem, segredou a Bernardina; mas não pude, que atacou-me o reumatismo. Era para dizer que ele chegou. 

- Já sabia! 

- Ah! Quem lhe contou? Pois foi ontem, havia de ser mais de meio dia. 

- Entre! 

Aurélia cortou o diálogo, indicando à velha o corredor que levava para o interior; e passando ao gabinete cerrou a porta sobre si. 

Não escapou este pormenor ao Lemos, que pela solenidade da conferência avaliava de sua importância. 

Com que história virá ela hoje? Dizia entre si o alegre velhinho. 

Aurélia sentou-se à mesa de erable, convidando o tutor a ocupar a poltrona que lhe ficava defronte. 

 

IV 

 

Quem observasse Aurélia naquele momento, não deixaria de notar a nova fisionomia que tomara o seu belo semblante e que influía em toda a sua pessoa. 

Era uma expressão fria, pausada, inflexível, que jaspeava sua beleza, dando-lhe quase a gelidez da estátua. Mas no lampejo de seus grandes olhos pardos brilhavam as irradiações da inteligência. Operava-se nela uma revolução. O princípio vital da mulher abandonava seu foco natural, o coração, para concentrar-se no cérebro, onde residem as faculdades especulativas do homem. 

Nessas ocasiões seu espírito adquiria tal lucidez que fazia correr um calafrio pela medula do Lemos, apesar do lombo maciço de que a natureza havia forrado no roliço velhinho o tronco do sistema nervoso. 

Era realmente para causar pasmo aos estranhos e susto a um tutor, a perspicácia com que essa moça de dezoito anos apreciava as questões mais complicadas; o perfeito conhecimento que mostrava dos negócios, e a facilidade com que fazia, muitas vezes de memória, qualquer operação aritmética por muito difícil e intrincada que fosse. 

Não havia porém em Aurélia nem sombra do ridículo pedantismo que certas moças que, tendo colhido em leituras superficiais algumas noções vagas, se metem a tagarelar de tudo. 

Bem ao contrário, ela recatava suas experiência, de que só fazia uso, quando o exigiam seus próprios interesses. Fora daí ninguém lhe ouvia falar de negócios e emitir opinião acerca de coisas que não pertencesse à usa especialidade de moça solteira. 

O Lemos não estava a gosto; tinha perdido aquela jovialidade saltitante, que lhe dava um gracioso ar de pipoca. Na gravidade desusada dessa conferência, ele, homem experiente e sagaz, entrevia sérias complicações. 

Assim era todo ouvidos, atento às palavras da moça. 

- Tomei a liberdade de incomodá-lo, meu tio, para falar-lhe de objeto muito importante para mim. 

- Ah! Muito importante?... repetiu o velho batendo a cabeça. 

- De meu casamento! Disse Aurélia com a maior frieza e serenidade. 

O velhinho saltou na cadeira como um balão elástico. Para disfarçar sua comoção esfregou as mãos rapidamente uma na outra, gesto que indicava nele grande agitação. 

- Não acha que já estou em idade de pensar nisso? Perguntou a moça.

- Certamente! Dezoito anos... 

- Dezenove. 

- Dezenove! Cuidei que ainda não os tinha feito!... Muitas casam-se desta idade, e até mais moças; porém é quando têm o paizinho ou a mãezinha para escolher um bom noivo e arredar certos espertalhões. Uma menina, órfã, inexperiente eu não lhe aconselharia que se casasse senão depois da maioridade, quando conhecesse bem o mundo. 

- Já o conheço demais, tornou a moça com o mesmo tom sério.

- Então está decidida? 

- Tão decidida que lhe pedi esta conferência. 

- Já sei! Deseja que eu aponte alguém... Que eu lhe procure um noivo nas condições precisas... Ham!... É difícil... um sujeito no caso de pretender uma moça como você, Aurélia? Enfim há de se fazer a diligência! 

- Não precisa, meu tio. Já o achei! 

Teve Lemos outro sobressalto que o fez de novo pular da cadeira. 

(continua...)

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