Por José de Alencar (1870)
— Que pretende dizer com isto, general?
— Caramba! No momento em que Bento Gonçalves quiser, o Rio Grande do Sul será um Estado independente como a Banda Oriental. Está bem claro agora? Para arrancar minha pátria ao jugo do império bastaram trinta e três heróis; bem sei que um deles era D. Juan Lavalleja. O senhor que tem por si toda a campanha, deixa-se aqui ficar bem repousado, a chupitar seu mate como uma velha; e pica-se porque lhe digo que não é um homem. Mas decerto que não o é. Minha mulher, D. Ana Monteroso, teria vergonha de praticar semelhante fraqueza; ainda que é mulher de quem é, todavia...
— De que lhe serviu ao senhor, diga-me, fazer a divisão da Cisplatina? retorquiu o coronel com ironia. Lá está seu compadre, dentro do queijo; e eu obrigado bem contra minha vontade a desarmar o herói da independência de sua pátria, como um rebelde.
— Lá isso não vem ao caso; é a sorte da guerra. Hoje ganhou meu compadre a partida, amanhã chegará a minha vez; todavia, cá entre nós, quem manda é o mais forte; não somos governados por um menino de sete anos.
— Quem governa é a lei, respondeu Bento Gonçalves em tom seco.
— Burla, coronel; este mundo é governado por duas coisas: a força ou a astúcia. O mais, isso de lei, de liberdade e justiça, são palavras sonoras para o povo, que no fim de contas não passa de um menino a quem se acalenta com um chocalho... O Rio Grande lhe pertence, coronel, como a Banda Oriental a mim, D. Juan Lavalleja.
— Vamos cear, general.
— Então deixa passar a ocasião?
— Sou brasileiro; nasci cidadão do império; e assim hei de viver, enquanto houver liberdade em meu país, porque para mim a liberdade não é uma burla para enganar o povo, mas o primeiro bem, que não se perde sem desonra, e não se tira sem traição. Quando eu me convencer que para ser livre, é preciso deixar de ser imperialista, não careço que ninguém me lembre o que me cabe fazer. O coronel Bento Gonçalves saberá cumprir seu dever.
Dando esta resposta com tom enérgico, o rio-grandense guiou o caudilho à varanda onde tinham posto a ceia.
Em uma das extremidades da longa mesa, estavam colocados dois pratos com talheres de prata destinados ao dono da casa e seu hóspede. Diante deles fumegava um grande assado de couro, e um peixe que enchia a imensa frigideira de barro. Havia além disso ervas e legumes.
Já estavam na varanda os gaúchos da comitiva do coronel, os quais lhe deram as boasnoites. O Canho adiantou-se para beijar a mão de Bento Gonçalves que era seu padrinho.
— Oh! Estás por cá, Manuel?
— Cheguei esta tarde.
— Como vai a comadre?
— Boa, graças a Deus.
— Estás um rapagão! Abanca-te; vamos cear.
O coronel tomou lugar à cabeceira, dando a direita ao hóspede. Na outra ponta da mesa sentaram-se os camaradas e Manuel, em bancos de madeira; cada um tirou um prato da pilha que havia no centro e colocou-o diante de si.
Depois de servido o dono da casa e o hóspede, os pratos eram levados pelo escravo copeira para a outra extremidade, onde os gaúchos iam tirando seu quinhão com a faca de ponta que traziam à cinta.
— Vamos ao peixe, general, disse Bento Gonçalves servindo a Lavalleja. Então, Manuel, andas de vadiação ou isto é volta de negócio?
— Nem uma, nem outra coisa. Vim só para falar a meu padrinho.
— Pois fala, rapaz; não percas tempo.
— É sobre um particular.
— Está bem; então logo mais.
Terminada a ceia, enquanto os outros tomavam mate e fumavam, o coronel fez ao gaúcho um gesto para que este o acompanhasse à sala.
— Que particular é esse? Alguma gauchada, aposto?
— Vim pedir a bênção de meu padrinho, para me dar felicidade, e mesmo porque talvez lá me fique!
— E para onde te botas?
— Para Entre-Rios.
— Buscar o quê?
— O homem que matou meu pai!
— Hein!... Depois de tanto tempo?
— São coisas que não esquecem nunca.
— Não esquecem, bem sei; mas se perdoam; talvez o sujeito esteja arrependido.
— Melhor; Deus o absolverá.
— Visto isto, estás decidido?
— Desde muito tempo. Há cinco anos a esta parte que descobri o homem lá em EntreRios, e então pela festa vou sempre para aquelas bandas, ver se ainda lá está.
— Estiveste invernando-o antes de charqueá-lo? replicou o coronel a rir.
— Sabe Deus quanto me custou deixá-lo sossegado todo este tempo. Mas eu precisava trabalhar primeiro, para que a mãe ficasse com alguma coisa. Tudo pode acontecer; e afora eu, não tem ela quem a ajude.
— E Bento Gonçalves não está aqui, rapaz?
(continua...)
ALENCAR, José de. O gaúcho. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.