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#Comédias#Literatura Brasileira

O Demônio Familiar

Por José de Alencar (1857)

AZEVEDO - Sim. De que te admiras?

EDUARDO - Julguei que escolhesses melhor! É tão pobre!

AZEVEDO - Mas é bonita e tem muito espírito. Há de fazer furor quando a Gudin ajeitá-la à parisiense.

EDUARDO - Dizem que é muito modesta.

AZEVEDO - Toda a mulher é vaidosa, Eduardo; a modéstia mesmo é uma espécie de vaidade inventada pela pobreza para seu uso exclusivo.

EDUARDO - Assim, estás decidido?

AZEVEDO - Mais que decidido! Estou noivo já. Adeus, aparece; andas muito raro.


CENA XIV

EDUARDO, PEDRO


PEDRO - O jantar está na mesa.

EDUARDO - Não me maces! Vai-te embora.

PEDRO - Sr. não vem, então?

EDUARDO - Chega aqui. Tu sabias que D. Henriqueta estava para casar?

PEDRO - Sabia, sim, senhor; rapariga dela me contou.

EDUARDO - E por que não vieste dizer-me?

PEDRO - Porque V.Mce. me deu ordem que não falasse mais no nome dela.

EDUARDO - É verdade.


CENA XV

Os mesmos, CARLOTINHA


CARLOTINHA - Demorou-se muito, mano. Eu lhe esperei!... Agora vamos jantar.

EDUARDO - Não; não tenho vontade, deixa-me.

PEDRO - Sr. moço está triste porque sinhá Henriqueta vai casar!

EDUARDO - Moleque!

CARLOTINHA - Você sabia? Era dela mesmo que eu queria falar-lhe.

EDUARDO - Sabia; o seu noivo acaba de sair daqui.

CARLOTINHA - Um Azevedo, não é?

EDUARDO - Sim, um homem que, além de não amá-la, estima-a tanto como as suas botas envernizadas e os seus cavalos do Cabo!

CARLOTINHA - Mas você não sabe a razão desse casamento?

EDUARDO - Sei, Carlotinha. Um amor pobre possui tesouros de sentimentos, mas não é moeda com que se comprem veludos e sedas!

CARLOTINHA - Oh! mano, não seja injusto! Ela me contou tudo!

EDUARDO - Desejava saber o que te disse.

CARLOTINHA - Logo depois de jantar, no jardim. Venha, mamãe está nos esperando.


ATO II

Em casa de EDUARDO. Jardim.


CENA PRIMEIRA

EDUARDO, CARLOTINHA, D. MARIA


EDUARDO - Lembras-te do que me prometeste?

CARLOTINHA - Falar-lhe de Henriqueta?... Lembro-me.

EDUARDO - Que te disse ela?

CARLOTINHA - Muita coisa! Mamãe não nos ouvirá?

EDUARDO - Não; podes falar. Estou impaciente!

CARLOTINHA - Aí vem ela!

D. MARIA - Ora, Carlotinha, tu com as tuas flores tens tomado de tal maneira os canteiros que já não posso plantar uma hortaliça.

CARLOTINHA - Porém, mamãe... É tão bonito a gente ter uma flor, uma rosa para oferecer a uma amiga que nos vem visitar!

D. MARIA - É verdade, minha filha; mas não te lembras que também gostas de dar-lhes uma fruta delicada... Assim os meus morangos estão morrendo, porque as tuas violetas não deixam...

CARLOTINHA - É a flor da minha paixão! As violetas! Que perfume!

D. MARIA - E os meus morangos, que sabor! Não tenho mais um pé de alface ou de chicória...

EDUARDO - Não se agonie, minha mãe, eu mandarei fazer uma pequena divisão no quintal. Deste lado Carlotinha terá o seu jardim; do outro V.Mce. mandará preparar a sua horta. D. MARIA - Estimo muito, meu filho! É por vocês que eu tomo este trabalho.

EDUARDO - E nós não o sabemos? Todo o nosso amor não paga esses pequenos cuidados, essas atenções delicadas de uma mãe que só vive para seus filhos.

D. MARIA - O único amor que não pede recompensa, Eduardo, é o amor de mãe; mas se eu a. desejasse, que melhor podia ter do que o orgulho de ver-te em uma bonita posição, admirado pelos teus amigos e estimado mesmo pelos que não te conhecem?

CARLOTINHA - Não o deite a perder, mamãe; depois fica todo cheio de si!

EDUARDO - Por ter uma irmã como tu, não é?

CARLOTINHA - Não se trata de mim.

D. MARIA - Vocês ficam? A tarde está bastante fresca!

EDUARDO - Já vamos, minha mãe.


CENA II

EDUARDO, CARLOTINHA


CARLOTINHA - Ora, enfim! Podemos conversar, mano!

EDUARDO - Sim! Estou ansioso por saber o que ela te disse! Com que fim veio ver-te! Naturalmente foi para dar-me mais uma prova de indiferença, participando-te o seu casamento!

CARLOTINHA - Foi para vê-lo uma última vez! Ah! você não se lembra, então, do que se passou! Fala de indiferença? É ela que se queixa da sua frieza, do seu desdém!

EDUARDO - Ela queixa-se... E de mim!... Estava zombando?

CARLOTINHA - Zomba-se com as lágrimas nos olhos e com a voz cortada pelos soluços?

EDUARDO - Que dizes? Ela chorava!...

CARLOTINHA - Sobre o meu seio; e eu não sabia como a consolasse.

EDUARDO - Não compreendo!

CARLOTINHA - Por quê?

EDUARDO - Eu te direi depois. Conta-me o que ela te disse.

(continua...)

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