Por Mário de Andrade (1942)
Quer dizer, o caipira também não riu, ali chegado no meio da briga pra avisar que os trairões, como Joaquim Prestes exigia, devidamente limpos e envoltos em sacos de linho alvo, esperavam para partir. Joaquim Prestes rumou pro forde. Todos o seguiram. Ainda havia nele uns restos de superioridade machucada que era preciso enganar. Falava ríspido, dando a lei com lentidão:
— Amanhã vocês se aprontem. Faça frio não faça frio mando o poceiro cedo. E... José...
Parou, voltou-se, olhou firme o mulato:
— ... doutra vez veja como fala com seu patrão.
Virou, continuou, mais agitado agora, se dirigindo ao forde. Os mais próximos ainda o escutaram murmurar consigo: "... não sou nenhum desalmado...”
Dois dias depois o camarada desapeou da besta com a caneta-tinteiro. Foram lévá-la a Joaquim Prestes que, sentado à escrivaninha, punha em dia a escrita da fazenda, um brinco. Joaquim Prestes abriu o embrulho devagar. A caneta vinha muito limpa, toda arranhada. Se via que os homens tinham tratado com carinho aquele objeto, meio místico, servindo pra escrever sozinho. Joaquim Prestes experimentou mas a caneta não escrevia. Ainda a abriu, examinou tudo, havia areia em qualquer frincha. Afinal descobriu a rachadura.
— Pisaram na minha caneta! brutos...
Jogou tudo no lixo. Tirou da gaveta de baixo uma caixinha que abriu. Havia nela várias lapiseiras e três canetas-tinteiro. Uma era de ouro.
S. Paulo, 26-XII-42 (Terceira versão)
Baixar texto completo (.txt)ANDRADE, Mário de. O poço. In: ANDRADE, Mário de. Contos novos. São Paulo: Martins, 1947.