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#Contos#Literatura Brasileira

Atrás da catedral de Ruão

Por Mário de Andrade (1947)

Mário de Andrade (1893–1945), figura central do Modernismo brasileiro, explora em “Atrás da catedral de Ruão” a sexualidade reprimida de Mademoiselle, professora de francês de 43 anos, contraposta à desenvoltura de suas jovens alunas. Desejo, pudor e fantasia emergem por meio do humor, dos duplos sentidos e da mistura entre português e francês. O conto foi publicado postumamente em Contos novos, em 1947.

Às vezes até mesmo com pessoas presentes, lhe acontecia receber aquela sensação “afrosa”, como diriam as meninas na meia-língua franco-brasileira que se davam agora por divertimento. E as duas garotas pararam a leitura, percebendo a quarentona estremecer. Se entreolharam. Alba perguntou, meio curiosa, mas também já meio irônica por causa das manias da professora:

— Est-ce que vous avez froid par cette chaleur?...

— Non, ma chère enfant, je...

Hesitava, iniciando uma daquelas reticências que punham sempre as três tão fogosamente na proximidade do perigo. Lúcia ajudou, tomando ar maternal:

— Voulez-vous quelque chose?

— Non! non! non!... je... il faut bien que je vous fasse une confidence, mes petites amies, ah! ah! ah...

E ria numa das suas risadas atuais, completamente falsas, corando com volúpia nas faces pálidas, sem “rouge”, a que a camada vasta do pó-de-arroz não disfarçava mais o desgaste. Era o jeito que tinha de não dar nenhuma importância ao que as três pressentiam ser importantíssimo. Afinal pôde continuar, entre confusa e misteriosa, dando de ombros:

— II y a des jours ou je sens à tout moment qu’un ... “personnage” me frôle!

E acentuava o “personnage”, que repetia sempre num nojo despeitado. Mas

Lúcia:

— Ça vous fait mal!

— “Mâle”, ma chère enfant, “mâ-le”. N’égratignez pas vos mots comme çà. “Mâ-le”.

Mas logo um gritinho de surpresa:

— Oh! je vous demande pardon, Lúcia! Je me suis trompée de lisière! Vous avez parlé du Bien et du Mal, j’ai pensé que vous parliez du maléfice des hommes, ah! ah! ah!...

E ria bem-aventurada.

Dona Lúcia se acaso soubesse o que estava se passando agora, decerto não retomava Mademoiselle para professora das filhas. Fora mais longe: na caridade viciosa a que transportara a sua pobre vida cortada, fizera da solteirona uma espécie de dama-de-companhia das filhas. Lúcia e Alba estavam quase moças, dezesseis e quinze anos desenvoltos, que a viagem desbastara demais, jogadas de criada em criada, de colégio em colégio, de língua em língua, de esporte em esporte. Seria injusto afirmar que sabiam tudo e mesmo ignoravam coisas primárias, fáceis de saber, mas que nunca as surpreenderam naquele aprendizado da malícia, feito ao léu do acaso. Mas isso elas compensavam por um saber em excesso de coisas imaginosas e irrealizáveis, que ficaríamos bem estomagados de saber, nós, usadores do mundo.

Além do inglês e do alemão em que Mademoiselle nem de longe podia agora competir com elas, voltavam falando um francês bem mais moderno e leal que o da professora, estagnada no ensino e nas suas metáforas suspeitas. “N’égratignez pas les mots comme çà!”, Mademoiselle vinha com irritação, ciosa da sua pronúncia. Ou, no horror incontrolável aos cotovelos, saltava: “Effacez vos coudes, mon enfant!” E agora mais que nunca ela “se trompait de lisière” — o que tinha uma história. Não vê que desde a infância Mademoiselle cantava uma canção antiga em que Lisette indo em busca da primeira paquerette da primavera, topa com um cavaleiro na “lisière du bois”. Está claro que o cavaleiro tomava Lisette na garupa e sucedia ser um príncipe “trali-lan-lère, trali-lan-la”. Mademoiselle já tinha trinta anos feitos no Brasil, quando naquela vida mesquinha de lições e pão incerto, principiou se inquietando com a “paquerette” que ela estava desleixando de colher na primavera. Preocupação não muito grande, porque ela ainda se sentia moça na higiene excessiva do corpo e a blusinha professoral, alvíssima, cheia de rendas crespas. Um dia porém, sem querer, cantarolando a sua canção, no momento em que alcançou a “lisière”, Lisette parou sufocada, sem poder mais cantar. O que houve? o que não houve? Mademoiselle ficara assim, boca no ar, olhos assombrados, na convulsão duma angústia horrível. Nem podia respirar. Quando pôde respirou fundo, era mais um suspiro que respiro, e não se compreendeu. Naquele tempo ainda não podia “se sentir muito freudiana, hoje”, como as meninas vieram da Europa falando. Mademoiselle apenas não se compreendeu. Porém nunca mais que se lembrou da canção, nunca mais que a cantou. Poucos dias depois ela principiava a “se tromper de lisière” a cada confusão que fazia. E eram muitas as confusões.

(continua...)

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