Por Machado de Assis (1864)
Enfim, a tempestade serenou. Despertou um sorriso nos lábios de Maria Luísa, como um sinal de aliança. Eduardo mostrou-se satisfeito com o desenlace e disse:
— Vê? A dor de a ver em lágrimas retinha as minhas próprias. A alegria é mais expansiva; agora, que a vejo alegre e me perdoa, sou eu quem chora! Este rasgo tinha suas dificuldades; a maior era que chorar sem lágrimas não convencia, e Eduardo tinha os olhos secos como os do leitor, que ainda não teve, nesta história, motivo de chorar. Por isso, tirou da algibeira um lenço e levou aos olhos, conservando-se algum tempo nessa posição.
Foi despertado por um pequeno grito de exclamação de Maria Luísa. Tirou, ou antes, foi lhe tirado o lenço da mão. Maria Luísa, depois de olhar para o lenço, fitou os olhos em Eduardo, e perguntou-lhe:
— Quem é esta Sara?
Eduardo estremeceu, olhou para o lenço, depois para Maria Luísa, depois para o teto.
— É uma prima.
— Nunca me falou nela, disse Maria Luísa.
— Isso que prova? É de uma prima. Fui ontem visitá-la e trouxe este lenço. Está com ciúmes?
— Não, respondeu a viúva.
E entregou-lhe o lenço.
Como o leitor adivinha, era o lenço de Sara, que marcava a página de Paulo e Virgínia. Houve um silêncio entre ambos.
Maria Luísa refletia:
— É bem possível que o lenço seja da prima; por que não?
Realmente, sou exigente demais. Ele não parece mentir. Por que havia de mentir? Depois levantou-se e disse sorrindo a Eduardo:
— Vou tocar piano!:
Eduardo levantou-se e foi sentar-se ao pé do piano. Ela começou a preludiar e depois a cantar aquela canção francesa tão conhecida e que parecia adequada à situação.
J’aime,
Toi, toi,
Toi, le seul bien pour moi!
J’alma que saíam da menina desiludida e infeliz.
Quando acabou, corriam-lhe as lágrimas.
Ao pé dela, Maria Luísa a acompanhava no sentimento e nas lágrimas silenciosas. As duas infelizes saíram da sala no meio de aplausos comovidos.
VII
Passaram-se quinze dias depois das cenas que acabo de contar.
No dia seguinte ao do baile, Eduardo foi visitar Maria Luísa; encontrou-a na sala com a mãe. Eduardo, como sempre, entrou com o sorriso nos lábios. Maria Luísa estava magra e tinha os olhos pisados. Ia perguntar o motivo daquele abatimento, quando a viúva, dizendo-se incomodada, pediu licença e retirou-se.
Eduardo esteve meia hora na sala conversando com a mãe de Maria Luísa, que lhe respondia por monossílabos. Finalmente, despediu-se e saiu.
Estava humilhado.
— Que aconteceria? perguntava ele. Ontem saíram do baile sem me falarem. Hoje tratam-me deste modo. Que haverá?
De reflexão em reflexão, de recordação em recordação, Eduardo pôde atinar com o motivo do desdém que recebera em casa de Maria Luísa.
Lembrou-se de ter visto a viúva e a donzela saírem do toilette, lívidas e abatidas. Lembrou-se das lágrimas derramadas durante o canto no piano. Descobriu tudo.
— Que diabo! pensava ele. Como hei de desenlaçar esta meada? Convencê-las é impossível; o melhor é eludir a questão. Mas como? Irei a Sara... Mas terei lá a mesma recepção? Oh! É demais! Não! isso não! Maria Luísa não pode recusar uma carta minha. É isto. Escrevo-lhe. No papel posso dizer mais facilmente aquilo que convier; tenho a faculdade de rabiscar, alterar, adoçar, enfeitar, como me parecer, as palavras... Eduardo entrou em casa disposto a escrever três cartas. Uma à mãe da viúva, endereçando-lhe outra para a filha, de cujo amor ela estava ciente. A terceira carta era a Pedro Elói, contando-lhe a ocorrência e pedindo-lhe um conselho. Ao mesmo tempo respondia à carta anterior.
O conteúdo das duas primeiras era uma série de frases ocas, habilmente grupadas, em que Eduardo protestava o mais respeitoso amor por Maria Luísa; quanto ao episódio do baile e ao amor de Sara, foi o mais sucinto que pôde, dando uma desastrada explicação ao sentimento alegado pela filha de Almeida.
Era, dizia ele, um serviço que prestava a uma menina, cujo coração inexperiente se deixara apaixonar por ele. Não queria desenganá-la; entretinha, por sua aquiescência, um amor sem alcance.
Mandou as cartas, mas nenhuma resposta obteve nesse dia nem nos dias seguintes. Desesperou. Passava muitas vezes em frente da casa de Maria Luísa; mas não via ninguém; as janelas estavam, as mais das vezes, cerradas.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Questão de vaidade. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1864.