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#Contos#Literatura Brasileira

Quem não quer ser lobo...

Por Machado de Assis (1872)

Machado de Assis (1839–1908), mestre do realismo brasileiro, explora neste conto o tema da ambição, do oportunismo e das ilusões sociais. Publicado originalmente em 1872, o texto narra, com ironia, a história de um jovem que vê numa carteira perdida a chance de ascensão, revelando as contradições entre interesse e sentimento. A narrativa combina humor e crítica aos costumes urbanos do século XIX.

I

A CARTEIRA PERDIDA

Na última noite de carnaval do ano de 1863, houve em um dos hotéis desta boa cidade do Rio de Janeiro uma lauta ceia que durou até ao raiar do dia. Os convivas saíram a pouco e pouco, e foram uns a pé, outros de carro, a caminho do respectivo domicílio. O último que saiu do hotel era um rapaz magro, alto, franzino na aparência, mas dotado de grande vigor de pulso, como alguns durante a noite e o baile tiveram ocasião de experimentar. Saiu um tanto trôpego, já pelo cansaço, já pelo vinho, e aos olhos espantados das quitandeiras que passavam para o mercado, dos varredores das ruas e dos entregadores de jornais, foi tomando a direção da casa, que era no fim da Rua da Ajuda.

Justamente no ponto em que se cruzam as ruas da Ajuda, Ourives, S. José e Parto, o nosso tardio conviva deu com o pé num objeto; abaixou-se para ver o que era; era uma carteira. Olhou em volta de si; as ruas estavam desertas; nas lojas abertas, ninguém havia que o pudesse ver. Meteu a carteira no bolso e seguiu para casa. O moleque já o esperava acordado, depois de ter dormido em santa paz a noite anterior. O moço subiu as escadas lentamente, despediu-se, e antes de se entregar às delícias do sono, examinou a carteira e o conteúdo.

A carteira era de couro da Rússia e fechada por uma fita de borracha. Abriu-a sofregamente e inventariou os objetos que continha:

Dois recibos de cabeleireiro.

Um de alfaiate.

Duas contas sem recibo.

Uma flor seca.

Dois cartões da barca Ferry.

Uma letra por encher.

Três advertências amargas de credores.

Três notas de dois mil-réis.

Uma carta de namoro.

Aparentemente eram outras tantas indicações para saber quem era o dono do achado, que não valia a pena guardar.

Engano.

As contas estavam rasgadas justamente no lugar onde devera estar o nome, e as cartas dos credores e de namoro não tinham sobrescrito.

— Leve o diabo a dono disto! exclamou o rapaz, que me fez construir tantos castelos no ar... Devia tê-lo adivinhado. O destino não me faz senão destas. José! Veio o moleque.

— Acorda-me amanhã às 11 horas; preciso sair.

Dada esta ordem, meteu-se o rapaz nos lençóis, e o leitor pode fazer o mesmo se me está lendo de noite. Ao capítulo seguinte, saberá quem era o rapaz e o que saiu da carteira.

II

Z. Y.

Coelho era o nome do mancebo que festejara tão lautamente o carnaval na última noite, que saíra por último do hotel, que encontrara a carteira na Rua de S. José e ficara logrado nas suas esperanças.

Tinha vinte e seis anos e exercia o emprego que lhe dava para comer, vestir, e gozar a vida, desde que não quisesse ir além dos limites razoáveis que a posição lhe impunha. Nesse ponto, é que pegava o carro.

Coelho tinha mais ambições que dinheiro, e não há pior situação que a de um homem cujo espírito está acima das algibeiras. Ter a algibeira acima do espírito, dizem os poetas que não é coisa de todo desejável: estou que falam teoricamente.

Em todas as loterias, comprava um meio bilhete que lhe saía invariavelmente branco. Um dia, conseguiu tirar quarenta mil-réis, fato que coincidiu com a queda do ministério de Caxias e a morte de um parente chegado. Gastou os vinte mil-réis recebidos no aluguel do carro, na compra de luvas para ir ao enterro, e deu o resto a um pobre. Casamento rico era uma das suas ambições, mas em vão alongava os olhos pela cidade; não aparecia noiva que lhe ficasse à mão.

Coelho desistiu do intento.

Ultimamente, parecia resignado à sorte. Começou a viver solitário, e desse programa só o carnaval o arrancou por três dias. Foi muito festejado pelos amigos e respectivas damas e fez coisas do arco-da-velha. Mas aquela exceção acabou com o último dia: na quarta-feira de Cinzas, reatou o fio à regra.

O achado da carteira pareceu-lhe providencial, e desde o lugar onde se deparara o misterioso objeto, até ao fim da Rua da Ajuda foi fazendo mil castelos no ar. Já sabemos como se lhe dissiparam todos. Ao dia seguinte, tão pobre estava como na véspera.

Só uma grande e excepcional dedicação aos negócios públicos poderia fazer que um rapaz fosse à repartição depois de uma terça-feira de carnaval. Coelho levantou-se da cama, à hora em que o criado foi cumprir a ordem de o acordar.

Almoçou pouco e tratou de vestir-se para sair. Antes disso, olhou de relance a carteira que estava sobre a secretária.

— José! disse ele.

— Senhor.

— Hás de levar um anúncio ao Jornal do Commercio.

E olhando a carteira:

— Se tu soubesses, miserável objeto, as ilusões que me deste ontem! E com as ilusões os terríveis desenganos que sofri... Por que não trouxeste em teu bojo uns vinte contos pelo menos? — Era pouco, mas era alguma coisa...

(continua...)

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