Por Machado de Assis (1860)
— Não se pode negar, observou Ernesto, que é uma moça de coração e de inteligência.
— Sim, não contesto, respondeu Luís.
— E está apaixonada, vês?
— Vejo.
Seguiu-se um silêncio.
— E tu? disse repentinamente o bacharel cravando os olhos no amigo.
— Eu? respondeu Ernesto coçando a cabeça, não estou nem estarei, conquanto julgue que ela seria capaz de fazer um homem feliz. Uma coisa porém me preocupa.
— O que é?
— Entrei nisto, cuidando que ia substituir um namoro por outro. Vejo que não. Tua prima apaixona-se deveras. Não quisera contribuir para um desgosto na família.
O bacharel ainda nessa manhã ouvira ao pai falar no casamento dele com Fernanda, não em março que estava já no fim, mas em junho ou julho. A idéia de que a prima de novo se voltasse para ele, e de que não houvesse remédio senão casar, o levou a dissuadir o amigo dos tardios escrúpulos.
— Qual desgosto! disse ele; assim como se esqueceu de mim, há de esquecer-se de ti; e tudo volta aos antigos eixos.
— Vá feito.
— Falaste-lhe em mim alguma vez? perguntou Luís depois de alguns instantes.
— Só para elogiar-te.
— E ela?
— Alegrava-se com o que eu dizia. Se eu dissesse o contrário, não se alegrava, mas aferrava-se a ti cada vez mais; é da regra.
— Vais responder a essa carta?
— Hoje mesmo.
A resposta foi ardente, mas muito calculada. Fernanda subiu ao sétimo céu, e a carta com que replicou podia medir meças à do Ernesto; o namoro continuou assim por meio de cartas, olhares, sorrisos e conversas, todo o arsenal, em suma, usado neste gênero de campanhas.
CAPÍTULO VII
Ao cabo de dois meses já o namoro não era segredo para ninguém. Na opinião da família nenhum deles podia fazer mais acertada escolha; a mesma opinião era compartida pelas pessoas estranhas.
— Escolheu um anjo! diziam as senhoras.
— Escolheu um cavalheiro! diziam os homens.
Fernanda parecia até mais bonita do que antes; a razão era que a felicidade lhe dava à beleza um ar que a tristeza lhe tirou. Ernesto pela sua parte mostrava-se igualmente terno e solícito com a moça. Nenhum deles confessara o namoro; mas nenhum deles buscava escondê-lo dos olhos estranhos.
— Vê bem o que perdeste! dizia o desembargador ao filho um dia em que estava de mau humor. Como aquela, raras mulheres se encontram!
Luís abaixou a cabeça, sem proferir palavra, mas com um ar que, bem examinado, era antes de mortificação que de prazer. A vitória do amigo, tão de longe preparada, começava a picar-lhe o amor-próprio. Via os louvores e as invejas de que era objeto o amigo, e apesar de ter contribuído para isso mesmo, começava a irritar se contra o vencedor e contra todos.
Esta impressão foi crescendo com o tempo. A transformação da prima contribuía ainda mais para lhe arredar o espírito. Estava longe de ver nela a mosca morta, como lhe chamava antigamente. Intenção de casar não tinha decerto, ou ainda lhe não chegara; apesar disso magoava-o a atenção que ela prestava a outro. Enquanto Fernanda lhe queria unicamente a ele, não se dava por achado o bacharel; bastou que ela se voltasse a outro para que lhe nascesse o ciúme.
Ciúme é o termo; ciúme filho do amor-próprio, e mais tarde filho do amor sem apelido nenhum. Luís começou a sentir que o menor gesto da moça o perturbava, e que de cada vez que ela e Ernesto conversavam sozinhos era o mesmo que se lhe metessem um alfinete no coração.
Ao mesmo tempo começou ele próprio a fugir de Ernesto; e isto mesmo lhe deu azo a mortificação maior, porque entrou a reparar que também Ernesto o não procurava tão amiudadamente.
Dar-se-á caso que?... perguntou Luís Fonseca a si mesmo, sem ousar concluir a pergunta que naturalmente a leitora já completou.
Redobrou de atenção; tomou-se caseiro mais que nunca. Espiava por assim dizer as ações da prima; sempre que podia os ia interromper, e então observava no rosto de ambos a impressão que lhes causava. Mais de uma vez se convenceu de que a impressão não podia ser pior. Vingava-se não se desviando mais durante a noite inteira.
Luís não pôde enfim encobrir de si próprio que amava a prima, tanto quanto a desprezara outrora. Esta triste convicção foi um golpe ainda maior que o da entrevista com que esta narrativa começou. Eu afinal de contas sou um asno, dizia consigo Luís Fonseca. Teci a corda que me há de enforcar. Que diabo me mandou confiar as minhas penas a um estranho? Saiu-me um peralta, um pérfido. Enganou
me. Estou roubado. Mas se eu mesmo fui chamar o ladrão!
Luís Fonseca dizia isto entremeado de muitos repelões em si mesmo, até que caía em si, e se lembrava de que Ernesto pouca ou nenhuma culpa tivera naquilo, que era puramente obra dele.
Ia além o bacharel.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Quem boa cama faz... A Marmota, Rio de Janeiro, 1860.