Por Coelho Neto (1898)
O capitão, fazendo face á tormenta, buscava alentar a companha que esfriava, mas tudo era baldado porque, a uma sua palavra de esperança, respondia o vento com ululos, respondia o mar com o vaga-lhão. Fez-se maior o atropello quando os retabulos, com imagens de santos, que iam elevados no castello da popa, vieram abaixo, com as vagas. Encheram-se os homens de um terror sagrado tomando presagamente aquclle facto como um aviso funesto de que a Providencia os abandonara.
Já os lemes sentiam-se governando o mal e os tendaes rotos espanadavam juntamente com as velas rebentadas. Queria um homem fazer-se forte respondendo ao appello do commando mas, de passagem, topava com um companheiro que escabujava enjoado e dolorido pedindo a Patria; outro bramia contra a temeridade de affrontarem aquelles extremos de tanta aspereza e reclamava, com ameaças, que se fizessem de volta; grumetes, que, pela primeira vez se viam em taes tormentos, mal escondiam as lagrimas do medo e a esses outros se foram ajuntando e mais e mais, tantos, por fim, e tão ameaçadores que os mestres desesperaram de os conter porque avançavam arrogantes, com armas, vacillando aos boléos da nau, uma das mãos n'um cabo a outra empunhando um ferro com que exigiam o regresso.
Mas veio-lhes á frente o Gama e molhado e ferido, mas sobranceiro e altivo, poz-lhes defronte a vergonha de uma arribada covarde á Patria quando d'ella haviam saido com tão nobre mensagem. Fez-lhes ver a humilhação da entrada quando, ao surgirem no rio patrio, o povo acudisse ás praias pressuroso e soubesse que retrocediam
miseraveis porque, partindo com honra, tornavam sem ella tendo-a deixado nos mares como deixavam as cargas que alijavam e os farrapos das velas que os ventos repartiam.
Afortunadamente foram-se os ventos amainando e, depois de tantos insultos do mar, luzio um sol de bonança e remittiram-se as vagas procellosas. Por maior fortuna parecendo ao Gama que já deviam andar na altura do Cabo poz-se na volta da terra sentindo que, em breve, teriam á vista apoiando todos em terreno firme.
E assim, velejando, na manhã gloriosa de um sabbado de novembro, quatro mezes depois de haverem deixado a Patria, o gageiro, com alvoroço, bradou annunciando terra e os de bordo, com os olhos marejados, avistaram arvoredo.
Correram todas as naus á capitanea e, de alegria, posto que em terra vissem apenas arvores, como se á mesma natureza cega quizessem apparecer garbosos, vestiram-se os officiaes com louçainhas, paramentaram-se os clerigos, os mesmos marurujos escolheram o melhor fato e as naus foram adornadas içando -se em todas as driças bandeiras e galhardetes, estourando festivamente berços e bombardas com que a companha arrependida procurava, saudando-o, rehaver a confiança do seu commandante.
Achando o piloto Pero de Alemquer boa tença alli fizeram ancoradouro dando ao seguro abrigo o nome de Angra de Santa Helena. Como as naus flagelladas necessitavam de fabrico emquanto uns baldeavam lavando-as, e outros, assentados em balsos, iam trabalhando no costado descosido ou, recorrendo á andaina de sobresalente outros substituiam vergas e mastaréus, velas e cabos, arriando a guindola com que, no momento afflicto, se haviam conduzido, o Gama, que buscava um leve repouso e alguem que lhe desse informações sobre o roteiro, mandou reconhecer a angra a ver se algum rio alli descia onde pudessem abastecer os toneis escassos. Foi-se a percorrer o sitio Nicoláo Coelho, n'um batel, com armas, e, quatro leguas acima deparouse-lhe o que tanto desejavam — aguas limpidas d'um rio que foi chamado de Santiago.
Emquanto uns iam enchendo os depositos outros faziam lenha atirando-se ás arvores d'aquellas selvas virgens onde os mimosos passarinhos, longe de se assustarem, pareciam ter alegria com a inesperada presença dos navegadores porque cantavam prazenteiramente; outros atiravam-se á caça fazendo bôa provisão de lobos marinhos, manjar que lhes soube deliciosamente depois de tantos mezes que passaram nutrindo-se de conservas.
Saira o Gama com outros capitães munidos do astrolabio para, em terra, determinarem a latitude e achavam-se n'um acceitoso meandro quando lhes foram dizer que alli perto, por traz d'uma coluna, andavam dois negros recolhendo mel n'uma abelheira.
Estavam os negros socegados como quem sabia que d'aquellas praias não lhes viria mal algum e iam pelas moutas vasando o doirado licor das providas abelhas quando os portuguezes, mandados sobre elles, arremetteram, não com tanta astucia e pressa que os colhessem a tempo porque um d'elles, mais pratico nas asperezas d'aquelles caminhos, logo desappareceu assombrado ficando o outro em poder dos assaltantes.
Trazido á presença do Gama sem que mostrasse odio por o haverem aprisionado não foi possivel, entretanto, arrancar-lhe um palavra; nem aos interpretes entendia porque, ouvindo-os, não dava mostras de perceber o que diziam. Mas, acudindo ao capitão a idéa de rendel-o pela gula, ordenou a dois grumetes da nau, um d'elles negro, que o levassem a comer e a beber e tanto que isso fizeram logo ao cafre veio o desejo de communicar e, com uma mimica desabalada, poz-se a exprimir quanto podia sobre a terra e os seus naturaes.
(continua...)
COELHO NETO, Henrique. A descoberta da Índia. Rio de Janeiro: Laemmert, 1898. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43340 . Acesso em: 30 abr. 2026.