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#Contos#Literatura Brasileira

Mattos, Malta ou Matta?

Por Aluísio Azevedo (1884)

Eu confessei que não sabia, e o amigo passou então a fazer-me a delicada revelação que na minha última carta expus a V. Sª. e que V. Sª. resolveu guardar para mais tarde.

- Mas enfim — disse eu ao meu obsequioso informante —, disseste que ias me falar com franqueza a respeito do tal Matta e ainda não declaraste o que é feito dele.

- O que é feito dele? Eis justamente o que te vou dizer em confiança...

E depois de observar se n~o nos escutavam:

O Malta não foi para a Misericórdia!

Não foi? Mas então onde está ele?

Está aqui, escondido. Temos ordem superior para não consentir que ele se comunique com pessoa nenhuma e para declarar que ele foi para a Misericórdia. Amanhã hás de ver isso justamente nas notas policiais.

De sorte que o homem está aqui? — perguntei ainda.

Está — disse o amigo. — E estará por muito tempo!

E a mulher com quem o viram a passear em Niterói? Sabes porventura me dizer que fim levou?

Também cá está e tem de responder a processo por crime de roubo.

Roubo?! E presa?! Oh!

Admiras-te de quê?!

Desgraçado! essa mulher é minha...

Tua, quê?

... esposa!

Oh! Desculpa! Eu não sabia...

E é permitido ir ter com ela?

Pois não. Acompanha-me.

E dizendo isto, o meu amigo tomou a direção do lugar onde se achavam os presos. Acompanhei-o.

Ao chegarmos à célula em que se achava a amante do Malta, senti que o suor me caía em bagos pela fronte; uma vertigem me escondeu por instantes a luz dos olhos, quis avançar e as pernas afrouxaram-se-me a tal ponto que o amigo amparou-me nos seus braços e exclamou:

Então, fulano! Que é isso? Nada de fraquezas! Sê homem, meu amigo!

Eu concentrei todas as minhas forças e respondi:

Estou às tuas ordens! Vamos!

O amigo empurrou a porta e eu soltei um grito de surpresa e de indignação.

Imagine V. Sª. quem havia eu de encontrar ali, em vez de minha mulher, como esperava? Imagine quem, Sr. Redator: - minha sogra. Sou de V.Sª.

Atº. Crº. e ven.or

Novas Revelações

Quinta Carta

Sr. Redator.

Antes de mais nada, antes de lhe dar conta dos fatos extraordinários que se vão seguir, seja-me permitido dizer duas palavras a respeito de minha sogra, dessa megera, a quem o acaso, por desgraça, fez mãe da mulher com quem casei.

Dona Leonarda dos Prazeres é uma velhusca de quarenta e tantos anos que não parece ter mais de trinta e poucos. Forte, bem conservada e lépida, diz até muita gente que ela mete mais vista do que a filha, com quem aliás se parece muito.

Dona Leonarda é viúva e foi casada quatro vezes. (Margarida nasceu do seu primeiro matrimônio.) Teve por maridos os seguintes homens: um ferrador, um açougueiro, um jornalista e um farmacêutico.

Consta que todos eles acabaram meio idiotas notando-se que dous deram cabo da vida, um suicidando-se a tiro e o outro a veneno.

Dona Leonarda herdou do último de seus maridos, o farmacêutico, uma casinha de porta e janela, cinco apólices da dívida pública e a farmácia. Comeu tudo isso dentro de um ano e passou a viver à minha custa, Eu que não estava disposto a aturá-la em casa, arranjeilhe uma pensão com os parentes ricos do defunto farmacêutico e tratei de nunca mais saber notícias dela.

Isto foi, haverá coisa de quatro anos, e, depois de todo esse tempo, é que a fui encontrar pela primeira vez ali, na Casa de Correção e presa como ladra, segundo a informação do meu amigo.

Entrei na célula e, sem mais comentários, exigi de minha sogra a explicação de tudo aquilo. Ela fechou os olhos e meneou a cabeça negativamente.

- Não quer falar? — perguntei eu.

Ela tornou a dizer que não, com a cabeça.

- É a sua última resposta?

Ela sacudiu a cabeça afirmativamente.

- Mas a senhora não sabe o que me trouxe aqui?

Ela levantou os ombros, com indiferença.

- Não sabe que se trata de sua filha?

Ela repetiu o movimento dos ombros.

- Saberá ao menos dizer-me o que foi feito dela?

A velha esticou o beiço inferior com um jeito expressivo, que dizia – “Não sei”.

Cada vez mais furioso, pedi ao amigo que me levasse à presença de Castro Matta.

- Não posso - respondeu ele. - Tenho ordem para não o mostrar a ninguém.

Ao sair da Casa de Detenção, um dos outros amigos, aquele justamente que me havia afiançado que o Matta estava recolhido à Misericórdia, segredou-me já na rua.

- Vou agora à Misericórdia, a serviço; se quiseres ver o homem, vem comigo.

Aceitei o convite e, imagine-se qual foi a minha nova surpresa, quando, penetrando o meu amigo na enfermaria, tornou ao meu lado e disse-me ao ouvido:

- Já não encontras um homem, encontras um cadáver.

E, avançando alguns passos, foi ter a uma cama, onde se via um grande vulto humano coberto por um lençol velho.

O meu amigo levantou a coberta por uma das pontas e acrescentou.

- Vê!

(continua...)

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