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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

O carro parou à entrada de uma espécie de corredor, que conduzia sinistramente a um lugar apertado, sujo e abafado pelo teto. Era aí que a polícia detinha os cadáveres complicados em qualquer crime. Ainda não existia o Necrotério.

Fazia péssima impressão entrar naquela pocilga da morte, cujo aspecto repulsivo dizia todos os mistério da miséria humana. Constava de um pequeno quarto, estreito e úmido, com duas mesas de pau. Havia também, na parede do fundo, urna cruz negra, que abria na sombra os braços, muito triste, como se estivesse em vão à espera do seu crucificado.

Sobre uma das mesas, jazia, glacial e rígido, o corpo ensangüentado de um homem branco. Ao lado, dentro de um caixão de forma especial e com as tábuas ensebadas pelo hábito de carregar os despojos das autópsias, viam-se matérias informes, de uma cor estranha e repugnante, dentre as quais sobressaíam vísceras humanas gordas e brancas como carne de porco, e um crânio, cerrado ao meio, deixando transbordar a massa compacta dos miolos. Em torno de tudo isto zumbiam moscas.

Veio à porta receber o chefe de polícia um homenzinho magro e amarelo, tão feio e tão morto de fisionomia, que lembrava os próprios defuntos que lhe cabia vigiar.

O ofício comera-lhe o pavor natural que todo o homem sente à vista da morte, e familiarizara-o com as degradações pavorosas da carne sem vida. Dava-se perfeitamente bem no meio de tudo aquilo: ali comia, ali dormia e ali amava. Quando pilhava algum dinheiro para comprar luz, corria à venda a bebe-lo de aguardente, e à noite deixava-se ficar no escuro com os inalteráveis companheiros de casa, que seguro não o incomodariam durante o sono.

O Ludgero disse-lhe alguma coisa; e o guarda, sem nada responder, conduziu-o para defronte da mesa em que estava o cadáver.

Então o chefe de polícia armou as suas lunetas de vidro graduado, e ficou a observar o morto por algum tempo.

Era um defunto comprido, magro, com barbas empastadas de sangue pelo lado inferior. Estava descalço e tinha o corpo nu, ligeiramente esverdeado. O assassino rasgara-lhe a garganta à faca e puxara o golpe até às regiões dérmicas do tórax.

O chefe mandou chamar o escrivão e o médico, procedeu ao corpo de delito, e, depois de apoderar-se de um farrapo de casimira cinzenta, encontrado na mão direita do morto, meteu-se de novo no carro, e tomou o caminho da Secretaria de Polícia, que nesse tempo era ainda na rua do Sabão.

Aí procurou logo o delegado, com quem conversou algum tempo,

terminando por entregar-lhe o farrapo de casimira e recomendar-lhe que procedesse às preliminares do inquérito no local do crime, e desse as providências para as competentes pesquisas.

Nessa ocasião acabava de chegar o Caixa da casa Paulo Cordeiro, sobre quem recaía o prejuízo causado pelo roubo que dera lugar ao crime. O delegado tomou-o de parte, e os dois ficaram a falar a meia voz.

O chefe entretanto passara à sala de audiência, onde, entre outras pessoas, foi introduzida uma senhora ainda moça, de boa aparência, que dizia querer soltar um escravo seu, preso na véspera.

O chefe ouviu-a com toda a atenção, chamou um empregado e mandou lavrar o alvará de soltura. A senhora levantou-se, e agradeceu, mas, na ocasião em que transpunha a porta para sair, foi detida por uma frase que ouvira destacada da conversa do delegado.

Parou, e protegida por um reposteiro, prestou toda a atenção.

— E o que lhe digo, Sr. delegado, repisava o queixoso. Nada podemos fazer sem primeiro ouvirmos o rapaz.

— Mas onde mora esse Gregório?

— Mora nas Laranjeiras.

— Em que se ocupa?

— E zangão da praça.

— O senhor viu-o hoje?

— Nem hoje, nem ontem.

— E ele então sabia que o senhor recebeu ontem à tarde os vinte contos de réis?

— Foi a única pessoa estranha ao negócio, que soube disso.

— Bem, disse o delegado; escreva o nome e a moradia desse rapaz, e deixe tudo mais por minha conta.

A mulher que os escutava, aproveitou o momento em que os dois se afastaram, para sair do seu esconderijo e descer precipitadamente a escada.

A rua tomou um carro e seguiu para a casa de Clorinda. Pelo sobressalto em que ia e pelo ar de dolorosa ansiedade espalhado em todo o seu rosto, pálido e simpático, conhecia-se facilmente que a pobre mulher estava sob a influência de uma grande emoção.

Antes porém de voltarmos com ela à casa da noiva, que em tão triste situação deixamos no primeiro capítulo, cumpre dizermos alguma coisa a respeito deste novo personagem.

Imagine o leitor uma mulher cheia de corpo, um tanto baixa, porém esbelta e garrida; dê-lhe um par de olhos castanhos, vivos e graciosos, uma boca risonha, um narizinho arrebitado, uns cabelos da cor dos olhos, um pescoço carnudo e bom torneado; e terá o leitor, pouco mais ou menos, a figura simpática que se dirigia para a casa de Clorinda.

Chamava-se Júlia Guterres; fora atriz por muito tempo e afinal, a instâncias do homem com quem casara, teve de abandonar por sua vez o palco.

(continua...)

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