Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Filomena Borges

Por Aluísio Azevedo (1884)

— Não compreendo como ainda se conservam na sociedade moderna certos costumes verdadeiramente bárbaros. As cerimônias do casamento estão nesse caso. Nada há mais grotesco, mais ridículo, do que essa espécie de festim pagão em que se celebra o sacrifício de uma virgem. Horroriza-me, faz-me nojo, toda essa formalidade que usamos no casamento — a exposição do leito nupcial, os clássicos conselhos da madrinha, o ato formalista de despir a noiva, e, no dia seguinte, os comentários, as costumadas pilhérias dos parentes e dos amigos... Oh! é indecente! Mas agora reparo: o senhor não come!...

De fato, enquanto Filomena falava, o marido era todo olhos sobre ela, não se fartava de contemplar aquele adorável busto que tinha defronte de si. Causavamlhe estranhos arrepios o modo desembaraçado, a graça natural, com que a mulher prendia uma ostra na pontinha dos dedos cor de rosa para levá-la à boca, numa riqueza de braços arremangados, onde tilintavam dois portebonheurs de metal branco.

— Ao menos beba! replicou ela, vendo que o Borges não se resolvia a comer.

E encheu-lhe o copo.

O pobre homem teve acanhamento de confessar que nunca toda a sua vida, bebera o mais pequeno trago de vinho.

— Então... fez a mulher. — Vamos! E tocando o seu copo no dele: — Ao nosso casamento!

Borges emborcou o seu de um fôlego, com uma careta.

Filomena não se pôde conter, e soltou uma dessas risadas retumbantes, que chegam para encher toda uma casa. Aquele ar esquerdo do mestre de obras, engasgado, roxo de tosse, fazia-lhe cócegas pelo corpo inteiro. E ela ria, ria, ria, sem se dominar, cobrindo o rosto com as mãos,. torcendo-se como uma cobra, enquanto o Borges, muito enfiado, procurava posições na cadeira, ardendo por sair daquela situação que o torturava.

— Coma sempre alguma coisa! disse-lhe por fim a esposa, fazendo inúteis esforços para reprimir a hilaridade — olhe que não é cedo!... uma hora, creio eu.

— Obrigado! Não tenho apetite... respondeu ele, cada vez mais confuso, a limpar o suor que já lhe sobrevinha ao rosto.

Ela continuava a rir.

— Há de ser porque passei mal a noite... acrescentou o Borges. Não preguei olho!... Isto para quem nunca saiu de seus hábitos...

— Mas, meu amigo, acudiu Filomena, solicitamente, tornando-se séria — para que faz o senhor loucuras dessa ordem? Isso pode causar-lhe mal!... Lembrese de que já não tem vinte anos, e a sua saúde, na sua idade, é coisa muito preciosa!

O Borges desta vez perdeu de todo o bom humor. Ou fosse por efeito do vinho, que ele bebia pela primeira vez, ou fosse que as palavras da mulher o irritassem deveras, o caso é que fechou o rosto e respondeu quase com azedume:

— Eu não perdi a noite pelo gostinho de a passar em claro! Não foi minha a culpa!...

— De quem foi, nesse caso?... indagou Filomena, já com o riso a espiar pelos cantos da boca.

— Ora, minha senhora!...

— Quer dizer que foi minha?!

— A senhora bem o sabe...

— Perdão, meu amigo, convém que nos entendamos! O senhor terá bastante bom senso para compreender o que lhe digo: ouça...

— Tenho até para mais... apartou o Borges, encavacado.

— Tenho para compreender o papel ridículo que a senhora quer me fazer representar!...

— Ridículo? Por quê?!

— Por quê?! Porque eu não tinha a menor necessidade de passar a noite no sofá e ainda por cima servir de galhofa! Ora aí tem porque?

— Mas que queria o senhor que eu lhe fizesse?!...

— Ora, minha senhora! Por amor de Deus!

— Pois acha que devo ter plena confiança em um homem que mal conheço?! Um homem, que eu não sei se me ama, ou que, pelo menos, ainda não me deu provas disso?!...

— Não dei provas! exclamou Borges ofendendo-se. — Não dei provas!... Homessa!... Quer então uma prova superior ao casamento!... Então o fato de me fazer seu esposo, não vale nada?!

— Vale tanto como o de fazer-me eu sua esposa. Foi uma permuta, uma troca. E por ora é só o que há — estamos quites — nem o senhor por enquanto tem direitos adquiridos, nem eu! Salvo se entende que o noivo vale muito mais que a noiva!...

— Eu não entendo nada! respondeu ele, triste; — sei apenas que me casei com a senhora porque a estimo muito...

E baixando a voz, ainda com mais amargura: — A senhora, sim! é que nunca me teve afeição, e principio a duvidar que isso venha a suceder algum dia...

— Depende unicamente do senhor, meu amigo!... retrucou Filomena.

Agora parecia comovida. Estava muito séria; o olhar ferrado no prato.

Houve um silêncio. Ela, afinal, continuou a falar, imóvel, sem descravar os olhos donde estavam, e a bater compassos na mesa com a faca.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...56789...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →