Por Aluísio Azevedo (1884)
Ela, então , descobriu a cara e, sem uma palavra, abraçou-se ao rapaz e começou a chorar.
— E hoje, perguntou ele, quando Lúcia já se dispunha a sair — hoje mereço um beijo?...
Ela correu para Amâncio, sorrindo, e com os olhos fechados, estendeu-lhe os lábios.
O estudante, com as duas mãos abertas, segurou-lhe a nuca e principiou a sorver o “seu beijo”, demoradamente, voluptuosamente, como se estivesse bebendo por um canjirão.
Lúcia, porém, ao perceber que a coisa se demorava muito, arrancou a cabeça das mãos do rapaz e fugiu.
* * *
As nove horas da manhã subseqüente, voltava o Sabino da casa do Campos com a resposta de uma carta em que o senhor-moço pedia o dinheiro necessário para satisfazer as dívidas de Lúcia.
João Coqueiro ficou assombrado quando recebeu a quantia; correu logo em busca da mulher.
— Sabes? Disse assim que a viu. — Pagaram?
— Hein?! Fez Mme. Brizard, com espanto. — Pagaram?! Tudo?!... — Integralmente! Cá está o cobre!
E, depois do silêncio da admiração:
— E que te parece, a ti, hein, Loló?!..
— Parece-me bom... a metade está feito; agora já não se trata de receber-lhe a conta, é só de os pôr fora de casa?
— Sim ... mastigou o marido. — mas agora também é mais difícil fazê-lo desarvorar! Já não temos um pretexto para isso!...
— Pretextos não faltarão... respondeu a francesa, e acrescentou: — O que me faz cismar é este dinheiro arranjado assim à última hora... porque eles, ainda ontem, estavam bem apertados e o Pereira não arredou o pé de casa durante o dia!
O marido refletiu um instante, e depois exclamou, com vislumbres de quem se sente roubado:
— Ora, querem ver que aquela raposa arrancou estes cobres ao Amâncio?!...
Mme Brizard confirmou alvitre com um gesto de cabeça.
— E olha que não é outra coisa! Repetiu o Coqueiro. — Que hoje o Sabino, desde muito cedo, tinha já que fazer à rua!
— Ora essa!... resmungou a Brizard, indignada e ressentida, como se aquele desfalque na carteira do estudante lhe trouxesse um prejuízo imediato.— Ora essa!... sempre se vêem coisas neste mundo!...
— Mas deixa estar que hei de saber de tudo!... Prometeu o locandeiro.
E , com efeito, daí a pouco o próprio Sabino lhe confessava que fora pela manhã à casa do Campos levar uma carta e que voltara com outra, recheadinha de dinheiro em papel.
O locandeiro revoltou-se, mas a usa indignação subiu verdadeiramente ao cúmulo, foi quando lhe constou que o bom do Amâncio para ter ocasião de estar mais tempo com Lúcia recorria a todos os meio e modos de afastar Amélia do quarto.
— Diz que não quer ser importuno ,contou a rapariga, — Que já basta os incômodos que me tem dado, que não se acha com o direito de fazer de mim uma irmã de caridade, e de obrigar-me a suportar as suas amolações! E que eu viesse aqui para baixo rir e conversar com os outro, que ele teria nisso muito mais prazer.
— E tu, que lhe disseste? Perguntou o irmão.
— Eu disse que sentia o maior gosto em prestar ao Sr. Amâncio aquelas insignificâncias de serviços; que, se os fazia, era por motu próprio!
— E ele?
— Ele disse que não, que não admitia, e que ficava até muito contrariado, se eu não viesse embora!
— Vês?! Perguntou João Coqueiro à esposa, apontando para a irmã.— Vês?! Tudo isso é obra da Sra. Lúcia!.
E, depois de uma pausa aflita:
— Aquela mulher não nos pode ficar em casa! Haja o que houver é preciso que ela se vá daqui quanto antes!
E deu a sua palavra de honra em como havia de pôr cobro a semelhante patifaria.
Não sossegou essa noite. Enquanto os mais dormiam, andava ele lá por cima, a farejar nas trevas, grudando-se contra as paredes e escondendo-se pelos cantos.
Passou assim algumas horas; mas afinal, viu Lúcia sair do quarto, pé ante pé, atravessar a medo o corredor e sumir-se às apalpadelas, na porta do n.º 6 .
A sua primeira idéia foi a de chamar o Pereira e mostrar-lhe a mulher no latíbulo do amante, mas considerou que o homem seria capaz de romper com ela e, nesse caso, a ligação de Lúcia com o provinciano tornar-se-ia inevitável. — Nada! pensou ele .Deixemo-nos disso.
Mas, também, não convinha esperdiçar uma ocasião tão boa para desmascarar a tal sujeira.
Encaminhou-se, pois, na direção do quarto do estudante. Lúcia, ao sentir que alguém se aproximava, correu a fechar a porta por dentro, e fez sinal de silêncio ao enfermo.
Coqueiro parou defronte do n.º 6 e bateu.
— Quem é? Perguntou Amâncio, no fim de pequena pausa, com a voz levemente alterada.
— Sou eu, disse o outro. Precisava dar-te duas palavras... como vi luz no quarto...
— Desculpa! respondeu o doente. — Mas agora não me posso levantar. Até logo!
— Boa noite! Resmungou o dono da casa, e afastou-se.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.