Por Camilo Castelo Branco (1882)
Entretanto, aos três dias precedentes às crises epilépticas, parece que o marido lhe era repulsivo. Dava-se então a revivência de José Alves, o seu amado saia do sepulcro, e transportava-a nas suas asas de anjo ao paraíso de Prazins. D. Teresa, colando o ouvido à fechadura da porta, ouvia-a conversar como em diálogo, ficar silenciosa, depois de uma interrogação, por largo espaço de tempo; vinha de mansinho à porta espreitar que a não escutassem. Dizia palavras confusas, abafadas, cariciosamente proferidas, como se tivesse os lábios postos em contacto de um rosto amado. O nome de José realçava com uma nitidez jubilosa, com uni timbre de meiguice infantil; e às vezes, um grito em esforçado desespero como se ele se lhe desatasse dos braços para lhe fugir. Um espiritista da escola de Kardec tiraria desta loucura um argumento a favor das Manifestações visíveis, em que o fluido, o perispírito se apresenta semimaterial, com as formas vagas do corpo, quase tangível ao medium.
O Feliciano ignorava estas cenas extra-naturais. Ele; ao sexto ano de casado, encouraçara-se num impenetrável egoísmo de avarento, cortando fundamente por todas as despesas que em vista da sua grande fortuna se reputavam sovinarias. A medicina já o considerava lunático, mais ou menos infeccionado da alienação da mulher: E a loucura que é se não a exageração do carácter? Porque o viam às vezes atravessar os seus pinhais, com o monóculo, gesticulando, e falando sozinho, chamavam-lhe doido. Errada hipótese do vulgo ignorante. Ele fazia operações aritméticas em voz alta como os velhos poetas inspirados faziam madrigais numa declamação rítmica ao ar livre e ao luar. O certo é que ninguém o apanhava em intervalo escuro para o defraudar num vintém. Comprou, umas após outras, todas as quintas que foram do Vasco Cerveira Lobo, de Quadros; umas à viúva, e outras aos filhos. A D. Honorata Guião, casada em segundas núpcias com o desembargador do Ultramar Adolfo da. Silveira, veio à Metrópole assim que viuvou para se habilitar herdeira de metade do casal não vinculado do tenente-coronel. Os filhos Egas e Heitor, sabendo que sua mãe estava nos Pombais, com o marido e filhos, tentaram escorraçá-la com ameaças e insultos, atirando-lhe tiros à janela. O magistrado fugiu com a sua família e acompanhou com força armada os actos judiciais. Afinal, Honorata, vendeu a sua parte, ao desbarato, ao brasileiro Prazins; e o morgado, vendido o seu património desvinculado, e mais o irmão, vergonhosamente casados, esfarrapam hoje o resto da torpe existência na tavolagem das tavernas. As filhas salvaram-se do naufrágio agarradas às pranchas dos seus dotes. Arranjaram facilmente maridos que desempenharam os seus casais e as sovavam de pontapés injustos e extemporâneos, quando se lembravam dos engenheiros do conde de Clarange Lucote.
A brasileira de Prazins tem hoje cinquenta e três anos. Os seus vizinhos que contam trinta anos, nunca a viram, porque ela, desde que, em 1848, morreu D. Teresa, nunca mais saiu do seu quarto. Já ninguém a vai escutar; mas repete as mesmas palavras do seu amor de há quarenta anos, pede que lhe levem flores, tem as mesmas alucinações, e – o que mais é – ainda tem lágrimas, quando, nos intervalos dos delírios, entra na angustiosa convicção de que José Dias é morto. O padre Osório ainda a procura nesses períodos de razão bruxuleante e fala-lhe da irmã por sentir a inefável amargura doce de se ver acompanhado nas lágrimas. Mas o padre diz que nunca pudera ver nitidamente a linha divisória entre a razão e a insânia de Marta. Depois do delírio, sobrevém a monomania hipocondríaca. A alma continua a dormir sem sonhar, sem as alucinações. Nessa segunda crise de torpor, ele e só ele é admitido ao seu quarto, depois de esperar que desça da cama ou se embrulhe num xaile para encobrir a sordidez do corpete dos vestidos. Este xaile é uma cintila resistente de instinto feminil que raras vezes se apaga no comum das dementes, excepto no maior número das histéricas com erotismo.
Marta tem duas filhas casadas e já mães. Às temporadas, vestem serenamente os seus trajes domingueiros e vão para casa dos pais, onde continuam na sáfara dos campos a sua lida de solteiras. O pai educara-as na lavoura de pé descalço, e sachola nas unhas. Trabalham nas lavras com uma grande alegria e garganteiam cantigas muito frescas. E os maridos, cheios de bom senso, já as não procuram. Quando regressam, recebem-nas sem as interrogarem; porque, se as afligem, dão-lhes vágados e choram. Nos outros filhos intanguidos, escrofulosos, tristes e sem infância, predomina a diátese da imbecilidade e a falta de senso moral, que é uma espécie patológica menos estudada dos alienistas. Entre estes filhos há um que estudou para clérigo. Passava por ser o mais escorreito. O pai achava-lhe talento. Estudou seis anos latim, em Braga, debaixo das mais rigorosas violências à sua incapacidade; e quando Feliciano, pródigo de dinheiro para este filho, e desenganado pelo professor, o mandou buscar com três reprovações, ele trazia numa caixa de lata cinco mil e tantas hóstias com que se prevenira para as suas consagrações de sacerdote. E o pai foi tão feliz que pôde vender as hóstias com o pequeno prejuízo de dez por cento.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. A brasileira de Prazins. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1778 . Acesso em: 17 jun. 2026.