Por Lima Barreto (1921)
Entretanto, nos tempos do Cozinheiro imperial, talvez tivesse a “sopa dourada” efeitos menos intempestivos que os do medicamento do herói manchego273 nas tripas do seu escudeiro.
Alongo-me, porém.
Paro aqui, mas voltarei ao assunto, porque o meu propósito, o primordial, é esclarecer o governo da república sobre as excelências da arte culinária, antiga e moderna.
Careta, Rio, 23-10-1920.
CARTA ABERTA, AO JEITO DOS BILHETES DE JOÃO DO RIO
Excelentíssima senhora da . Mariana Prado. Presente.
Sei bem, e muito bem que vossa excelência passou notas falsas. Já fui jurado muitas vezes e, embora agora o seu crime não seja de júri popular, se o fosse e eu lá estivesse, vossa excelência seria condenada pelo meu voto.
Acontece, porém, que eu não posso ser mais jurado, porquanto me falta a renda necessária. Não posso, portanto, condená-la; e devo dizer a vossa excelência a admiração que tenho pelo seu belo hábito de passar notas falsas. E vou dizer porque.
Eu amo o luxo, como vossa excelência ama o amor. Não é preciso citar o francês, para dizer que a coisa está certa. Nasci pobre, mas gosto de mármores, estátuas, quadros e tapetes. Tenho o direito a isso pela minha educação e instrução. O que elas transformaram na minha natureza, a culpa não é minha; é daqueles que, com sacrifício e generosidade, me trouxeram.
Pois bem excelentíssima senhora, nunca tive a audácia de fazer como vossa excelência fez, isto é, arranjar umas “michas” , para satisfazer as minhas paixões.
Se eu fosse presidente desta bodega do Brasil, podia faze-lo. Sabe como? É fácil. Mandava fazer uma emissão no Bank Note dos Estados Unidos.
Infelizmente, eu não sou como vossa excelência e o presidente Epitácio que pode emitir à sua vontade. Sou um pobre-diabo “pronto” , sem prestígio, sem beleza e sem amor.
Não quero, porém, dizer que eu não tenha vossa excelência na mais alta consideração de amor e admiração.
Conforme o João do Rio, sou de vossa excelência humilde escravo Lima
Barreto.
Careta, Rio, 13-11-1920.
MANSÃO OLÍMPICA E OS APEDIDOS
Se os apedidos do Jornal do Comércio não existissem, não sei como poderíamos viver nesta terra tão monótona, tão politiqueira, tão balda de descobertas e invenções.
Amanhecem dias, fecham-se noites e tudo continua sempre a ser a mesma coisa.
Os apedidos do venerando órgão, porém, não obedecem à lei fatal da “mesma coisa todo o santo dia”, que domina esta parte do mundo onde habitamos. Variam, de quando em quando e de modo imprevisto.
Quando tiver tempo e dinheiro, hei de fazer um estudo completo sobre os apedidos, num largo programa que abranja as origens dos mesmos, os colaboradores, o estilo destes; a influência da célebre seção nos grandes fatos políticos, administrativos, sociais, forenses, etc., da vida geral do Brasil.
Documentarei – no que não imitarei os místico-militares que fazem do Exército o deus ex-machina do progresso político e social do Brasil – documentarei a asserção de que a maioridade, a lei do ventre livre, Treze de Maio, o Quinze de Novembro, até o Sete de Setembro, apesar de não existir ainda o Jornal, tudo isto e mais alguma coisa foram obra dos apedidos.
Estudarei a vida e a obra dos seus mais célebres colaboradores.
Biografarei o “Mal das Vinhas”, tão curioso e tão ignorado pela geração atual, audacioso inventor de tantas coisas curiosas, entre as quais a da fecundação artificial das vacas com auxílio de injeção de uma solução forte de sulfato de cobre.
Porei em evidência qual dos “Romãos” foi o mais célebre como “testa de ferro” e quais os políticos notáveis do tempo do império que se serviram dele, para alcançar o ministério e, até, a chefia de gabinete, isto é, a presidência do Conselho de Ministros de Sua Alteza Imperial.
Reproduzirei muitos dos artigos, por eles publicados e economicamente truncados, do princípe Obá II d’África, personagem que convém voltar à atividade da nossa lembrança, à vista das visitas constantes que nos estão fazendo imperadores, reis e príncipes.
Escreverei comentários às poesias daquele velho empregado do Tesouro, o senhor Sesimbra de Araújo, que se propôs a fazer em versos, mais ou menos positivistas, a biografia do senhor Joaquim Murtinho.
Os positivistas terão o seu capítulo especial. As suas cisões, as suas descomposturas de alto estilo, mútuas ou nos outros, as suas engraçadas opiniões de toda a ordem, as suas excomunhões, merecerão no meu trabalho, um estudo especial com um florilégio cuidadoso e bem escolhido das suas sentenças inapeláveis.
Pelo que estão vendo, o plano da obra é vasto e profundo; a fim de executar a contento de todos não deixo nunca de ler os apedidos e recortá-los, arquivando os retalhos.
(continua...)
BARRETO, Lima. Vida urbana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2171 . Acesso em: 8 maio 2026.