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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

Olímpia, depois da morte de Scott, ficou muito pior; o pai já não contava com ela e deixava-se mergulhar em fundo e surdo desespero.

O Dr. Dermeval não poupava esforços para salvá-la. Fizeram-se várias conferências médicas; a opinião predominante era que Olímpia, se escapasse da morte, viria a sofrer para sempre das faculdades mentais. Só o Dr. Dermeval discordava.

E principiou este, mais do que nunca, a interessar-se por ela. Ia visitá-la todos os dias, procurava distraí-la, contava-lhe histórias espirituosas, oferecia-lhe de vez em quando um livro e falava-lhe de teatros e bailes. Olímpia, com efeito, ao fim de pouco tempo, experimentava melhoras, e daí a dois meses passeava no jardim pelo braço do pai.

Depois da moléstia ficara muito amiga de Gregório, tratava-o agora com extrema condescendência, quase com amor. Uma vez apareceu ele mais cedo que de costume (acabava-se de tirar a mesa e o comendador fazia a sesta no gabinete). Olímpia, ao ver entrar aquele, soltou logo uma exclamação de prazer e correu ao seu encontro com os braços abertos.

— Oh! disse ela; o senhor foi hoje verdadeiramente amável...

E abraçou-o.

O rapaz ficou perplexo com semelhante recepção, e nada mais conseguiu do que gaguejar algumas palavras de agradecimento. Em seguida, assentaram-se os dois no mesmo divã e puseram-se a conversar. Olímpia mostrava-se aquela tarde de uma estranha expansão, e Gregório, ao contrário, parecia como nunca retraído e contrafeito.

Falaram vagamente sobre todos os assuntos de que se podiam lembrar para encher a conversa. Ela ofereceu-lhe café, e foi pessoalmente buscar uma garrafa de licor; pediu-lhe depois que lhe desenhasse alguma coisa no álbum. Gregório obedeceu; mal, porém, tinha principiado o desenho e já a caprichosa lhe arrancava o lápis dos dedos e lhe pedia para fazer-lhe antes um pouco de leitura. Gregório foi à biblioteca, tomou os Primeiros Cantos de Gonçalves Dias e principiou a recitar o episódio do Pirata.

— Não! disse Olímpia, pousando-lhe a mão na boca. Leia-me outra coisa...

faz-me mal esse poeta!... Não gosto de lhe ouvir os versos senão quando preciso chorar...

Gregório lembrou Casimiro de Abreu, ofereceu Castro Alves, intercedeu por Fagundes Varela. Ela, porém, não aceitou nenhum deles.

— Olhe! cá está o Machado de Assis! Quer?...

Olímpia respondeu que não, sorrindo com faceirice e agitando o indicador da mão direita.

— O Luiz Guimarães?...

— Não...

— Ah! Cá está o Muniz Barreto!

— Não! não!

— Quer antes um poeta francês?... prefere ouvir um trecho de prosa?... — Não! Já não quero nada disso. Dê-me aquele álbum que ali esta...

Gregório foi buscar sobre o piano o álbum indicado.

— Agora sente-se aqui. Aqui justamente, neste banquinho. Bem; vejamos juntos estes desenhos.

Gregório ficara muito encostado ao divã em que estava Olímpia. Esta abriu o álbum sobre os joelhos e passou a primeira folha.

— Sabe quem fez isto? perguntou sorrindo.

Gregório inclinou-se mais para ver.

— Fui eu, explicou Olímpia. Não está bem feito?...

— Está muito bonito, disse o rapaz, prestando pouca atenção ao desenho.

— E este?... Que tal acha? continuou ela, voltando a folha.

— É, respondeu Gregório, quase sem olhar para a página.

— Olhe para cá! repreendeu Olímpia, segurando-lhe a cabeça e obrigando-o a olhar para o álbum.

Gregório riu-se.

— Chegue-se mais! acrescentou ela ainda em ar de repreensão. Parece-me

tolo!...

— A senhora está hoje muito amável!...

— Faça-se engraçado! Pensa que não sou capaz de puxar-lhe as orelhas!...

E terminou esta frase, segurando amorosamente a cabeça do rapaz e puxando-a para junto dos lábios.

Gregório retirou a cabeça de suas mãos e ergueu-se.

— Não! não! balbuciava ele a desprender-se-lhe dos braços.

— Você é um idiota! exclamou Olímpia, repelindo-o com raiva. E afastou-se da sala muito apressada.

Nessa ocasião acabava o comendador a sua sesta no gabinete e preparavase para apresentar-se, como sempre, de colarinho limpo, barba feita e cabelo bem escovado.

Ele não era homem capaz de aparecer mal a ninguém.

A filha nunca o vira em mangas de camisa. Apurava-se muito na roupa; tratava cuidadosamente dos dentes, que os tinha magníficos; e trazia freqüentemente, na algibeira do seu colete de seda preta, um canivetinho com que às vezes se entretinha a brunir as unhas.

Jacó era o seu braço direito. Era o Jacó quem lhe fazia a barba, quem o vestia, quem lhe cuidava dos sapatos, quem lhe metia os botões na camisa. Ninguém mais fazia isso a gosto do comendador.

(continua...)

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