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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

— Vês?! Disse ela, esfolegando cansada de falar. — É por isso que até hoje me tenho portado deste modo contigo; é por isso que domo os meus impulsos e os meus arrebatamentos! — Sou de outro, não me possuo, não posso dispor disto!

E sacudia todo o corpo, com uma obstinação provocadora e canalha. Amâncio olhava para ela , mordendo os beiços.

— Se é verdade que me queres possuir...disse a intransigente, depois de uma pausa em que se ouvia a respiração dos dois. — Arranca-me das mãos de meu marido e leva-me para onde bem quiseres, faze de mim o que entenderes! Serei tua amante, tua companheira, tua escrava; serei tudo que ordenares, contanto que eu já não pertença a nenhum outro, contanto que eu tenha comprado com o risco de minha vida a felicidade de nós ambos!

E Lúcia, agitando romanticamente os cabelos, que ela por cálculo trazia soltos essa noite, perguntou com ímpeto:

— Compreendes agora a minha reserva?! Compreendes que, apesar de minhas recusas, eu te adoro, meu Amâncio, meu amor, minha vida?!

Entretanto, acrescentou ela, quando se convenceu de que Amâncio não queria cair no laço — tenho fatalmente de abafar todos os meus sentimentos, tenho de calcar todos os meus desejos, porque amanhã nos separamos. Amâncio ergueu-se, pasmado.

— Como nos separamos?...interrogou.

— Eu amanhã me retiro desta casa...esclareceu Lúcia, sem erguer os olhos. — Vou, e ainda nem sei para onde! Mas, não poso deixa de ir: manda-me a dignidade que aqui não fique nem mais um instante!

— Como assim? Explica-te!

— Oh! não me perguntes nada! Não me perguntes nada, porque, só o que te posso afirmar é que esta súcia...E indicava o andar de baixo com um gesto trágico.— Esta súcia, receosa de que eu te dispute a Amelinha, obriga-me a sair, obriga-me a separa-me de ti! Ah! os miseráveis sabem o quanto eu te amo, meu Amâncio! Temem que eu seja um estorvo ao teu casamento com ela.

— Mas, filha, como te podem eles constranger a sair?...

— Não me obrigues a falar, por amor de Deus! Eu não quero, não devo dizer mais nada!

— Oras! Isso não é generoso de tua parte! Se não podes usar de franqueza, para que então me excitas deste modo a curiosidade?

— Não! Não te poso dizer mais nada! Repele-me, se assim entendes, mandame embora, mas, por piedade, não me obrigues a corar em tua presença!..

— Corar em minha presença?...Não te entendo, filha! Fala por uma vez. Abre o coração!

— Nunca! Nunca!

— Mas é que tu me torturas Lúcia!

E acariciando-a:

— Vamos! Não sejas criança, fala com franqueza...Dize o que te fizeram! Não acreditas então que sou teu amigo? teu amiguinho? Não crês que representas em minha vida uma preocupação constante, um sonho, uma esperança?...

— Sim, sim, acredito, meu amor, mas não me obrigues a tratar de coisas, nas quais ainda não tenho o direito de falar!...

— Ora! Que segredo pode ser esse, tão negro, tão repugnante, que não mo queiras dizer?...É preciso que eu mereça muito pouco a tua confiança!..

— Não, não é isso, mas é eu me falta o ânimo para confessá-lo...Mudemos de conversa....

— Não queres dizer? Bem! Acabou-se!

— Oh! não me fales desse modo, meu querido!

— Então dize o que é.

— E prometes que não me acharás ridícula?...prometes que a revelação do que te vou dizer não me amesquinhará aos teus olhos?... — Juro!

Lúcia tirou uma carta do seio e entregou-a ao estudante

Logo que este principiou a leitura, ela cobriu o rosto com as mãos, como para esconder a vergonha.

Amâncio leu o seguinte em voz baixa:

“Sr.ª D. Lúcia Pereira.. Há quatro dia que entreguei a seu marido uma Segunda conta do mês passado e deste mês, e, visto que até agora não tenho recebido senão desculpas e promessas, tomo a liberdade de participa-lhes que, de hoje em diante, não posso continuar a lhes fornecer comida e que preciso urgentemente do cômodo ocupado pela senhora e seu marido. Espero, pois, que até amanhã esteja o quarto n.º 8 desembaraçado e a minha conta selada e assinada pelo Sr. Pereira; sem o que, pesa-me dizê-lo, não consinto que V.S.as levem consigo a sua mulata, que é o único bem de que posso lançar mão para garantir a dívida ”

Estava assinado por extenso o nome de João Coqueiro.

Amâncio dobrou a carta silenciosamente, ao passo que Lúcia continuava a esconder o rosto.

— Em quanto importa?...perguntou ele depois.

Ela, conservando uma das mãos nos olhos, tirou com a outra a conta do seio, e passou-lha, sem dizer nada.

— “Quatrocentos e sessenta mil-réis”, leu o moço para si. E fez um trejeito com os olhos.

Lúcia, ao lado, soluçava, sempre com o rosto coberto. Amâncio pensou um instante, e disse:

— Não te aflijas...Eu poso, se quiseres, arranjar o dinheiro para amanhã...

(continua...)

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