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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

- Não contesto-lhe o direito que pretende haver sobre o que chama sua alma e seu caráter. Ideou este meio engenhoso de contrariar-me: não lhe roubarei o prazer; mas se deseja saber o que penso... 

- Tenho até o maior empenho. Sua opinião é para mim como um farol; indica-me o parcel. 

- O que não impediu seu naufrágio. Mas não gastemos o tempo em epigramas. Que necessidade temos nós destes trocadilhos de palavras, quando somos a sátira viva um do outro? Há neste mundo certos pecadores que depois de obtidos os meios de gozar a vida, arranjam umas duas virtudes de aparato, com que negoceiam a absolvição e se dispensam assim de restituir a alma a Deus. 

O aspecto de Seixas denunciava a cólera que sublevava-se em sua alma e não tardava a prorromper. Mas desta vez ainda conseguiu domar a revolta de seus brios: 

- Acabe. 

- Já tinha acabado. Mas, para satisfazê-lo, aí vai o ponto do i; sua economia e sobriedade são do número daquelas virtudes oficiais dos pecadores timoratos. 

- A senhora tem uma sagacidade prodigiosa! Bem mostra que é sobrinha do sr. 

Lemos. 

Aurélia que seguira adiante voltou-se como se uma víbora a tivesse picado no calcanhar. Tão eloqüente foi o assomo de dignidade ofendida que vibrou a fronte da formosa moça, e tal o império de seu olhar da rainha, que Seixas arrependeu-se. 

- Desculpe!... disse ele com brandura. Sua ironia às vezes é implacável. 

Aurélia não respondeu. Adiantando-se, entrou em casa e recolheu-se ao toucador. 

Era a primeira noite depois de casados, que ela não voltava do jardim na companhia e pelo braço do marido. 

 

VI 

 

Fazia um luar magnífico. 

Seixas conversava com D. Firmina na calçada de mármore de frente, que a folhagem das árvores cobria de sombra. 

À direita do marido estava Aurélia reclinada em uma cadeira mais baixa de encosto derreado, cômodo preguiceiro para o corpo e o espírito que deseja cismar. 

Desde a tarde da explicação relativa ao toucador, as relações dos dois companheiros dessa grilheta matrimonial se tinham modificado. 

Como se houvessem  naquela ocasião exaurido toda a dose de fel e acrimônia, acumulada nesse primeiro mês de casados, desde o dia seguinte suas palavras correspondendo à amenidade e apuro das maneiras, perderam a ponta de ironia, de que anteriormente vinham sempre armadas, como as vespas de seu dardo sutil e virulento. 

Conversavam menos de si; falando sobre coisas indiferentes ou banais, acontecialhes durante muitas horas esquecerem-se da fatalidade que os tinha unido em uma eterna colisão para se dilacerarem mutuamente a alma. 

Seixas descrevia naquele momento a D. Firmina o lindo poema de Byron, Parisina. O tema da conversa fora trazido por um trecho da ópera que Aurélia tocara antes de vir sentar-se na calçada. 

Depois do poema ocupou-se Fernando com o poeta. Ele tinha saudade dessas brilhantes fantasias, que outrora haviam embalado os sonhos mais queridos de sua juventude. A imaginação, como a borboleta que o frio entorpeceu e desfralda as asas ao primeiro raio do sol, doudejava por essas flores d'alma. 

Não falava para D. Firmina, que talvez não o compreendia, nem para Aurélia que certamente não o escutava. Era para si mesmo que expandia as abundâncias do espírito; o ouvinte não passava de um pretexto para esse monólogo. 

Às vezes repetia as traduções que havia feito das poesias soltas do bardo inglês; essas jóias literárias, vestidas com esmero, tomavam maior realce na doce língua fluminense, e nos lábios de Seixas que as recitava como um trovador. 

Aurélia a princípio entregara-se ao encanto daquela noite brasileira, que lhe parecia um sonho de sua alma pintado no azul diáfano do céu. 

Umas vezes ela refugiava-se no mais espesso da sombra, como se receasse que os raios indiscretos da lua viessem espiar em seus olhos os recônditos pensamentos. Daí, da escuridão em que se embuçava, entretinha-se a ver as árvores e os edifícios flutuando na claridade que os inundava como um lago sereno. 

Outras vezes inclinava a medo e lentamente a cabeça até encontrar a faixa de luar que passava entre as duas folhas de palmeira, e vinha esbater-se na parede. Então essa veia de luz caía-lhe sobre a fronte e banhava-a de um cândido esplendor. 

Ficava um instante nessa posição com os olhos engolfados no luar e os lábios entreabertos para beberem os eflúvios celestes. Depois, saciada de luz, recolhia-se outra vez à sombra; e como a árvore que desabrocha em flores aos raios de sol, sua alma transformava os fulgores da noite em sonhos. 

(continua...)

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