Por Lima Barreto (1921)
Demais, se o governo aumentar as notas de papel, é de presumir que alguma venha a tocar-nos. E o ouro? Vai logo para o encaixe dos bancos e só o verão os milionários.
Se o Estado quer ser sábio e promover a felicidade do povo, deve, quanto antes, aumentar a circulação do papel moeda, não de quinhentos mil contos, mas de tantos milhões quantos forem os habitantes que o sábio doutor Bulhões encontrar, no seu recenseamento, neste vasto Brasil.
É de esperar que assim venha tocar uma nota de dez tostões a cada um, enquanto, com o sistema vigente, muitos andam por ai pedindo-a por esmola.
Tenho pena de não poder faze-las em casa; porque isto é privilégio do Estado e se eu tal fizesse iria parar na cadeia como moedeiro falso; mas, se assim não fosse, faria uma de cinquenta todo o dia, e, no fim do mês, o necessário para pagar a casa e o vendeiro.
Nem todo o mundo tem os direitos do governo...
Careta, Rio, 18-9-1920.
UMA ANEDOTA
Não sei porque aquele diabo de gatuno cismou em me furtar.
– A ti?
– Sim; a mim.
– Como foi isto?
– Conto-te. Eu morava num quarto pobre, na Rua de São Pedro. Era uma espécie sepultura, e eu só ia lá para dormir. Mais da metade do dia, passava eu na rua a perambular. Certa noite, recolhi-me mais cedo e deitei-me no meu catre com muito sono. Aí pelas tantas, despertei e vi que tinha um companheiro, no quarto. Quem seria? Não tive dúvidas! Agarrei um enorme Nagant que não sei onde arranjara e ameacei o intruso.
– Ele resistiu?
– Não. Rendeu-se logo, prendi-o e acompanhei-o para entregá-lo à polícia.
– Para que?
– Ouve. Saímos e, no caminho, pus-me a conversar com o rapaz. Gostei dele. Ao passar por um café, ele me convidou para entrar e tomar alguma coisa. Aceitei. Dentro em pouco, eu me esquecia que tinha diante de mim um sujeito que me queria roubar.
Quando nos despedimos, ele me perguntou: “Estás sem dinheiro?”. Respondi-lhe: “Estou”. Sabes o que ele fez?
– Não.
– Passou-me uma prata de dois mil-réis.
Careta, Rio, 16-10-1920.
SOBRE A ARTE CULINÁRIA
Creio não ser impertinente tratar ainda da minha curiosa descoberta bibliográfica, tão feita a propósito nesta época de festas e banquetes, cujo ciclo ainda não está encerrado. Quero falar do interessante livrinho de que falei aqui há dias; do Cozinheiro imperial ou Nova arte do cozinheiro e do copeiro em todos as seus ramos. A primeira edição é de 1840 e a que tenho, sendo a terceira, é de 1852.
Publicou-as a antiga e desaparecida Casa Laemmert e esta última, a terceira, creio eu, é revista, aumentada, etc. etc. por uma tal da. Constança Olívia de Lima.
A importância que a obrinha tem para todos os momentos, ela mesma o diz, no prefácio da primeira edição. Eis as suas palavras textuais:
“No número das artes úteis e indispensáveis à vida do homem civilizado uma há que, de poucos anos a esta parte, tem marchado com passo gigantesco. Esta é a ciência culinária, cuja feliz influência, ao mesmo tempo que concorre para o estado saudável de nosso corpo, estreita os laços da sociedade, multiplica as relações, aumenta o comércio e a indústria, suaviza os costumes, e reúne os homens em assembléias festivas e fraternais.”
Não há dúvida alguma! Tanto assim que já o senado romano discutiu a composição do molho com que devia ser adubado o peixe da mesa de não sei qual imperador.
Hoje mesmo, nós temos visto imperadores, reis e outros chefes de Estado, preocupados com essas coisas de mordomo, quando se trata de hospedar em seus Estados colegas de grande valimento.
O senado romano não era assim tão tolo, como se pode pensar à primeira vista...
O meu intuito, neste instante, não é este; é outro muito diverso.
Quero indicar algumas iguarias que O Cozinheiro traz, e bem podem servir para bródios futuros, oferecidos e recebidos pela nossa alta gente. Faço isto porque o livro é raro e os pratos são originais.
A originalidade, em todas as Artes, como dizia o outro, é tudo...
Antes do mais, o livro se ocupa, e com muita razão da arte de trinchar. Rabelais esqueceu-se disso e Brillat-Savarin também. Pode-se dizer que as suas obras tinham outros intuitos. Vá lá! Passemos às sopas de que o Cozinheiro imperial dá inúmeras receitas. Não posso transcrever todas aqui, mas podia dar-lhes muitos títulos delas, pelas quais o leitor iria logo ficar com água na boca. Exemplo: “sopa dourada”, cujo processo de fabricação é este:
“A sopa dourada faz-se como a anterior: ‘sopa de todo o gênero de assado’. Leva uma dúzia de ovos, um arrátel de açúcar, um pão pequeno, uma quarta de manteiga lavada, canela e água-de-flor.”
Essa mixórdia que bem parece aquele remédio de cavaleiro andante, receitado por d. Quixote a Sancho, especifico que tantos maus quartos de hora causou a este e tanto mal fez-lhe aos calções ...
(continua...)
BARRETO, Lima. Vida urbana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2171 . Acesso em: 8 maio 2026.