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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

Era a sorte dos vôos. Tomava um trapézio, deixava-se arrebatar por ele, depois soltava as mãos, dava uma cambalhota no ar e ia agarrar-se afinal a um outro trapézio que o esperava do lado oposto.

A cada um desses saltos seguia-se uma explosão de palmas.

Scott havia já por duas vezes feito o seu vôo arriscado, faltava-lhe só o último e o mais difícil. Consistia este no mesmo que os primeiros, com a diferença de que o acrobata, em vez de se arrojar de frente, tinha de atirar-se de costas e voltarse no espaço para alcançar o trapézio fronteiro.

Scott assomara no trampolim armado além das torrinhas, ao pé do teto. Havia uma grande silêncio comovido nos espectadores, os corações batiam com sobressalto. Todos os olhos estavam cravados na esbelta figura do acrobata, que, lá do alto, nas suas roupas justas de meia, parecia uma bela estátua de mármore.

Destacava-se-lhe bem o peito largo e abaulado, via-se-lhe a riqueza dos braços e a nervosa musculatura das coxas.

Scott tomou o trapézio com uma das mãos, enquanto limpava com a outra o suor da testa; depois colocou o lenço à cintura, esfregou pez nas palmas das mãos e agarrou-se ao braço do trapézio. Ouvia-se a respiração ofegante do público. Scott sacudiu o corpo, experimentou o trapézio e deixou-se arrebatar por este, de costas. Em meio do círculo desprendeu-se, gritou. "Hop!", deu uma volta no ar, e lançou-se de braços estendidos para o outro trapézio. Mas o vôo fora mal calculado e o acrobata não encontrou onde agarrar-se.

Um terrível bramido ecoou por todo o teatro. Viu-se a bela e máscula figura de Scott, solta no espaço, virar para baixo a cabeça e cair estatelada no chão, com as pernas abertas. O recinto do circo encheu-se logo. Nos camarotes mulheres desmaiavam em gritos; algumas pessoas fugiam do teatro, espavoridas como se houvesse um incêndio; outras jaziam pálidas, a boca aberta e a voz gelada na garganta. Ninguém mais se entendia; davam-se encontrões. Nas torrinhas passavam uns por cima dos outros para poder ver se distinguiam o acrobata. Este, entretanto, sem acordo e quase sem vida, agonizava por terra, a vomitar sangue.

Olímpia, sem saber como, estonteada, trêmula da cabeça aos pés, achou-se ao lado dele. Ajoelhou-se no chão, tomou a cabeça do acrobata e pousou-a no regaço.

Scott estremeceu, esticou os membros, torceu a cabeça para trás, revirou os olhos, contraiu a boca e deu o último suspiro.

Olímpia soltou um grito, caiu de costas e começou a estrebuchar.

CAPÍTULO XX

D. TERESINHA

Olímpia só acordou de si em casa, ao lado do pai.

Acompanhara-os desde o circo um médico ainda moço, que se achava no teatro por ocasião do desastre. Era o Dr. Dermeval da Fonseca.

Dos três parecia ser este o único que conservava o sangue frio na alcova a que recolheram a desfalecida. O comendador nada mais fazia do que ir de um para outro lado, sem nunca acertar com os objetos que lhe pedia o assistente. Expediram-se receitas para a botica, vieram os remédios, e às onze horas a enferma voltava a si. Abriu os olhos, olhou espantada por algum tempo para o pai e para o Dr. Dermeval; depois, reconstruindo as idéias, lembrou-se do fato que a fizera desmaiar, soltou um novo grito e recaiu em convulsões. O Dr. Dermeval e o comendador apoderaram-se dela. Olímpia queria morder os pulsos e gritava, agatanhando-se.

Gregório, na sala próxima, passeava muito agitado, impacientado por descobrir um meio de ser útil àquela situação. Mas não tinha ânimo de aproximar-se do quarto de Olímpia; receava com isso cometer erro maior. Ao mesmo tempo o seu amor-próprio se sentia acirrado pelo desastre do acrobata:

Gregório sentira ciúmes desde a primeira vez que observara o modo apaixonado pelo qual Olímpia acompanhava com a fisionomia as difíceis e graciosas evoluções do gentil funâmbulo.

Não é que ele contasse ou ambicionasse merecer algum dia o amor da caprichosa senhora; não, porque estava no firme propósito de nunca deixar transparecer o menor vislumbre dos seus desejos, ainda que para isso fosse necessário afogá-los em sangue. Mas o coração também vive desse dúbio querer e não querer; desse vago desejar, que nasce e avulta em nossos sentidos, sem o menor concurso do raciocínio. Gregório era sem dúvida um espírito sumamente romântico e sempre voltado para o ideal, mas era latino e tinha dezoito anos; não podia, por conseguinte, furtar-se às tendências naturais do meio em que nascera e à fatal idiossincrasia de sua raça; educara o seu caráter e o seu gosto artístico pelos velhos moldes líricos, cuja influência lhe chegava ao espírito por intermédio de alguns livros, às vezes mal escolhidos, e de alguns jornais quase sempre pouco escrupulosos. Lamartine foi um dos primeiros que se apoderaram dele, que lhe fascinaram a alma com a sua sedutora tristeza apaixonada; depois Musset, Gautier e Vítor Hugo terminaram a obra. Gregório não resistiu ao desejo de sentir com eles. Era tão agradável chorar na sua idade! É tão bom sofrer quando sofremos por gosto!...

(continua...)

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