Por Aluísio Azevedo (1884)
— Não! Dou-te a minha palavra em como, até aqui nada percebia de tudo
isto!...
— Pois fica, então sabendo que há uma grande conspiração contra ti ou, por outra, contra os teus bens!
— Ora essa! disse ele em voz baixa.
— Todos esses carinhos que eles ostentam, todos esses cuidados e desvelos artísticos, são laços armados à tua ingenuidade!
— Estão bem arranjados!...respondeu Amâncio, — se esperam que eu case com Amelinha!
— Não sejas hipócrita!...acudiu a outra. — Tu gostas dela; não negues.
— Ah! gosto, não nego. Mas gosto, sem intenção de espécie alguma; gosto, coitada, porque ela nunca me fez mal, porque até lhe sou grato aos seus obséquios! Mas daí para casar!...
E, depois de um assovio de grande esperteza:
— Não é o meu tipo, o meu ideal! Demais, ainda não penso em casamento, nem sei se algum dia pensarei nisso!
— Por quê?
— Ora, respondeu ele — não vale a pena a gente se casar! Há por aí tanta desgraça, tanta decepção que, para falar com franqueza, não tenho ânimo...
— Julgas assim tão mal as mulheres?...
— Com franqueza é exato, filha! Não digo que não haja mulheres virtuosas; isto, porém, é raro!...Prefiro não arriscar!...
— Desconfio de tanto ceticismo na tua idade!
Ele agitou os ombros.
— Um homem com esses princípios é incapaz de amar...ajuntou ela.
— Tens em mim a prova do contrário...retorquiu Amâncio sorrindo.
— Em ti?...
— Sim, e sabes disso perfeitamente!
— Disso, o quê?
— Que te amo...
— Não creio...
— Nesse caso, o cético não sou eu!
— Se me amasses, já mo terias provado...
— Provado?
— Está claro. Não acredito nesse amor cauteloso e metódico, que de tudo se arreceia, que se não quer expor, que tem calma para medir todas as conveniências, que teme os olhares, os ditos, as considerações de todo o mundo, quer vem finalmente muito mais da cabeça que do coração!
— Não acreditas, então , que eu te ame?...
— Não, decerto! Nem te crimino por isso!...És ainda muito criança, para sentires o verdadeiro amor, a verdadeira paixão. Essa que não conhece obstáculos; que tudo pode e tudo vence; que é capaz de todos os sacrifícios, sejam do bem ou sejam do mal; essa que levanta os grandes crimes ou os grandes heroísmos! Amar, tu! E porventura saberás ao menos o que é o amor?! Algum dia experimentaste, por acaso, o ciúme, o desespero, a loucura, a que nos conduz o objeto amado? Não! Não queiras amesquinhar o único sentimento que até hoje se tem conservado puro! Não queiras amesquinhar a coisa única respeitável que resta sobre a terra! Para que possas falar a esse respeito, primeiro é necessário que ames! É preciso que dês alma, vida, futuro, esperanças, tudo, a uma mulher! é preciso primeiro que te esqueças de teus sonhos mais queridos, de tuas melhores aspirações, para só cuidares nelas, viveres delas e para ela! Então, sim! eu acreditaria em ti!
E Lúcia apoderou-se novamente das mãos de Amâncio, e as palavras borbulharam-lhe com mais febre:
— Amor é o que sinto por ti, entendes?! Amor é o que me faz esquecer a minha responsabilidade, o meu destino, o meu dever, para estar aqui a teus pés, alheia a tudo, esquecida do passado, descuidosa do futuro; só para te ver , só para te ouvir, só para me saturar toda de tua presença!..
Entretanto... disse Amâncio, procurando afinar a voz pelo tom enfático com que falava a outra, — entretanto, nunca me permitiste fruir contigo os verdadeiros e mais saborosos proveitos do amor! Tiveste a cruel habilidade de transformar um manancial de gozos em fonte perene de tormentos e dissabores! Se me amas, digote eu agora, por que evitas a todo transe que eu vá além dos nossos beijos?... Se me amas, por que impões o suplício do teu rigor? Ah! eu só acreditaria na sinceridade de tais protestos se fosses generosa comigo....
— Não! não! contrapôs ela abraçando-o . Nunca faltarei aos meus deveres!
Nunca trairei meu marido! Serei capaz de uma loucura; não, porém de uma infâmia! Seria capaz de fugir contigo, abandonar tudo por tua causa; mas introduzir-te covardemente na minha alcova, nunca! Aceitaria um crime, sim! mas havia de aceitá-lo sob todas as responsabilidades, com todas as conseqüências que ele viesse a produzir! Seria tua, mas não enganando a um outro; seria tua, mas toda, inteira, lealmente! Abandonaria por tua causa meu marido; antes, porém de o fazer, dir-lhe-ia com franqueza: “Fulano! Amo um outro Não posso continuar ao teu lado, sem que te engane todo os dias e a todos os instantes! Por isso — vou! Amaldiçoame , se quiseres, mas não te perturbes a minha felicidade” Deixaria de ser esposa, para ser concubina! Trocaria meu nome, minha posição, por algumas horas de delírio, por algumas horas de sonho; mas, em todo o caso, a consciência nunca me acusaria, o coração jamais se teria de maldizer!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.