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#Romances#Literatura Portuguesa

A brasileira de Prazins

Por Camilo Castelo Branco (1882)

– O maldito serve-se do nome de Cristo para me afastar! Eu vou escangalhar-te, Satanás!

E lançou mão do gládio das Objurgações. As objurgações são perguntas feitas ao Diabo, à má cara, e latinamente. Diz, maldito Demónio, serpente insidiosa, conheces que existe Deus? Conheces que foste criado anjo alumiado de muitas prendas, e que pela tua soberba te perdeste? Sabes que, repulsa do Paraíso, perdeste para sempre a graça de Deus? Pergunta-lhe afinal, depois de muitas injúrias, se reconhece nele um ministro de Deus, e como ousará a não manifestar-se? Quomodo igitur poteris contra estimulum calcitrare?

O Demónio não respondeu ainda; mas o frade ia apertá-lo, mandando que se ajoelhassem todos. Ele então, numa postura seráfica, braços cruzados no peito e olhos no Cristo, declamou:

– Veni, sancte spiritus: reple tuorum corda fidelium, et tui amores in eis ignem accende. – Pedia ao Espírito Santo que descesse a encher os corações dos seus fiéis, e abrasá-los no fogo do seu amor. Depois: – Dominus vobiscum.

– É de co espirituo – respondeu o Simeão, que sabia ajudar à missa.

Seguiram-se vários Oremus e deprecações, e a Ladainha de Nossa Senhora; mais outros Oremus, e a detestação da energúmena, uma estirada que principiava: E tu, Demónio maldito, com que autoridade intentas possuir jamais meu corpo ou molestarme por modo algum? Marta rejeitou o livro, e disse que não podia ler nem estar de joelhos; que tinha vágados e que se queria ir deitar. Mas o exorcista, severo e formidável no seu ministério – que não, que não se ia deitar, que não lhe fugia, que se pusesse de joelhos a seus pés! Ele então, segundo a rubrica do livro director, sentou-se, cobriu-se, voz grave e horrível, virado contra o Demónio, como juiz para tal réu já convencido, aspergiu a possessa de água benta, ululando: Asperge me, Domine... e recomendou aos circunstantes que apagassem duas velas, e não dessem palavra. Profundo silêncio. Ouvia-se apenas o zumbido das moscas que se esvoaçavam do tecto atraídas pelo calor da luz única, e pousavam na fronte chagada do Cristo. O recinto era espaçoso e quase em trevas. A vela, encoberta pelas curvas laterais do oratório, não alumiava senão o curto espaço da projecção em que Marta, retraída num terror, tinha os dedos das mãos postas, chegadas aos lábios, como se quisesse abafar os suspiros.

Passados minutos, o exorcista começou a conjurar e ligar o Demónio em nome do Padre e do Filho e do Espírito Santo, tratando-o de imundo, afrontando-o bravamente com epítetos que deviam ofender o mais desbragado patife. Marta fez um movimento de aflitivo desabrimento; parecia querer fugir; mas o padre prendeu-a com a estola, em harmonia com o Brognolo: Se não estiver quieta, pode-a prender com uma estola. Feitas novas e mais terríveis conjurações, o exorcista levantou-se com pavorosa solenidade, e exclamou: Exurge, Christe! adjuva nos! Levantate, Cristo, e auxilia-nos!

O egresso continuava as evocações ao Cristo, quando Marta caiu sem acordo.

– Vitória! – exclamou o exorcista – vitória!

E, mostrando ao brasileiro una página do livro: ouça lá, Sr. Feliciano: O sinal mais certo de que o Demónio obedeceu e se retirou de todo é o que a sagrada Escritura nos expõe no capitulo IX de S. Marcos: – Deixar a criatura por terra algum tempo como morta. Isto se viu no endemoninhado surdo e mudo que Cristo nosso bem curou, e do qual diz o texto: Et jactus est sicut mortuus. Depois, com júbilo, limpando o suor:

– Podem levá-la, deitem-na, ponham-lhe as relíquias todas debaixo do travesseiro.

Os dois não podiam facilmente levantá-la; na rigidez, como empedernida do corno, parecia colada ao pavimento. O brasileiro pedia ao exorcista que a amparasse por um dos braços; mas o frade, artista austero, respondeu que lhe era defeso pôr as mãos nas possessas. E, de feito, Carlos Baucio, na Arte do Exorcista, legisla: que os exorcistas não ponham as mãos fisicamente sobre a criatura principalmente sendo mulher (propter periculum), pois que as mulheres nem com o sinal-da-cruz se devem tocar – Mulieres nec signo crucis sunt tangendae.

(continua...)

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