Por Lima Barreto (1921)
É que o Conselho é um posto de adventícios que, do Rio de Janeiro, só conhecem o bairro em que moram, a Rua do Ouvidor e a Avenida Central; é só.
Por isso, muito naturalmente, tratam de teatro brasileiro, antes de tratarem de coisas da cidade do Rio de Janeiro... É o carro adiante dos bois ...
Hoje, Rio, 8-7-1920.
CHAPÉUS, ETC.
Como o doutor Peixoto Fortuna, o tal da Liga contra a Moralidade, eu me interesso muito pelas modas femininas.
Não deixo nunca de ler os seus preceitos nas seções especiais dos jornais; e, embora não sejam propriamente femininas, eu gozei a declaração providencial de que, na sua recepção última, as mulheres deviam aparecer lá de fraque e calça de fantasia.
Quero crer que esse negócio de calça de fantasia, seja assim um negócio de
“diabinho” ou de bebê chorão, a não ser que seja de clown.265
Em todo caso, os costumes republicanos estão admitindo tanta coisa nova que tudo é possível acontecer.
Vejam os senhores, por exemplo, essas damas que encontro pelos bondes... Em vão tento namorá-las! Andam elas com uns chapéus de oleado de fazer medo a qualquer bombeiro em momento de ataque ao fogo; entretanto, elas vão bonitinhas, contentinhas de fazer um homem como eu, péssimo namorador, ficar embasbacado.
É possível que essas moças se julguem interessantes com semelhante cobertura?
Não creio; contudo elas vão alegres e satisfeitas. Como admitir uma coisa e outra?
Não sei.
Há ainda mais histórias extraordinárias nessa matéria de vestuário feminino. Algumas senhoras decotam-se abundantemente para passear na Rua do Ouvidor e na avenida. Os dias agora são frios e úmidos; e elas, por precaução, trazem um cobertor de peles.
Não seria melhor que elas não se decotassem e deixassem em casa o sobretudo de peles?
Não tenho nenhuma autoridade no assunto; mas logo que encontrar o visconde de Afrânio Peixoto, hei de pedir-lhe a sua abalizada opinião, porquanto é ele entendido em negócio de História das Religiões que muito se relaciona com o capítulo modas, chapéus, etc, etc.
Careta, Rio, 24-7-1920.
O TAL “DIA”
Sobre o piedoso projeto do senhor Cunha Pedrosa, instituindo um feriado destinado a dar “Graças a Deus”, fomos ouvir o autorizado teólogo doutor Antônio Torres , que o público só conhece pelas suas brilhantes produções profanas, na Gazeta de Noticias.
O respeitável doutor da Igreja recebeu-nos no seu artístico gabinete de trabalho, onde, com grande espanto nosso, não vimos sequer uma imagem ou registro de santa.
Lá, só havia coisas, mais ou menos da espécie do Nu au Salon.267
Como é sabido, a austeridade do cônego Torres é pública e notória e essa observação que fizemos, não pode em nada fazer diminuir a justa fama de que goza.
O sábio sacerdote disse-nos em resumo o seguinte:
“É evidente que a sã doutrina católica concebe o mundo como sendo um perpétuo conflito entre Deus e o Diabo. Isto está na lição dos seus doutores e canonistas; e mesmo em práticas muito conhecidas. Na canonização dos Santos, há até um advogado do Diabo que funciona no processo. Todos sabem disso e você não desconhece tal coisa.
“Sendo assim, achando lógico e edificante o projeto, eu julgo que se devia completá-lo, instituindo um outro dia para o culto do Diabo. Não há Deus sem Diabo e vice-versa.
Eis o que o Cônego Torres nos disse.
Careta, Rio, ‘4-9-1920.
PAPEL MOEDA
Gosto muito de aprender finanças, nos artigos de jornais.
Não aparece uma discussão dessa matéria que eu a não siga. Agora anda uma dessa natureza que apaixona Câmara, Senado, jornais e povo, sobre o papel-moeda.
O senhor presidente da república, vendo as aperturas em que está a Nação, pediu ao congresso autorização para emitir uma grande quantidade dele; ou por outra: fez um deputado amigo apresentar um projeto autorizando isto.
Surgiram logo uma porção de críticas, demonstrando que essas emissões constantes de papel-moeda desmoralizam o nosso mercado monetário; que é preciso saneá-lo com ouro ou com papel que se converta em ouro, etc., etc.
Nada entendo dessas coisas, mas vou dar o meu humilde parecer.
Julgo que essa gente não tem razão, porque ouro é o que ouro vale; e se o papel lhe equivale, em virtude de um decreto do governo, não há motivo para zangas.
Além disto, o mesmo governo quer criar um banco emissor e de redesconto, à vista da falta de numerário. Esta falta admira-me muito que só agora a vissem. Eu de há muito que a sinto, e bem profundamente, meus caros senhores.
Mas... se há falta de numerário, creio que o que se deve fazer é aumentá-lo.
Ouro é coisa rara, mesmo no Brasil, onde dele, segundo dizem, há minas por toda a parte; mas papel é coisa que se encontra logo e, relativamente, é barato.
(continua...)
BARRETO, Lima. Vida urbana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2171 . Acesso em: 8 maio 2026.