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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

Aurélia tinha razão. Se com essa obstinação, Seixas queria mostrar desapego à riqueza adquirida pelo casamento, fazia um ridículo papel; pois o enxoval não era senão um insignificante acessório do dote em troca do qual tinha negociado sua liberdade. 

A porta do quarto de dormir estava fechada. Aurélia abriu-a com a chave parelha que havia em sua argola. 

Ali achou a escrivaninha, que servia de toucador provisório a Seixas, e uns pentes e escovas de ínfimo preço. 

- Agora entendo. Quer mortificar-me. 

Depois do jantas, passeavam no jardim; Aurélia tenho colhido uma rosa, afagava com as pétalas macias o cetim de suas faces, mais puro que o matiz da flor. 

- Hoje estive em seu toucador, disse ela com simulada indiferença.

- Ah! Fez-me esta honra? 

- Uma dona de casa, bem sabe, tem obrigação de ver tudo. 

- A obrigação e o direito. 

- O direito aqui seria da mulher; e não só este como outros. 

- Eu os reconheço, disse Fernando. 

- Ainda bem. Vejo que nos havemos de entender. 

Este diálogo, quem o ouvisse de parte, não lhe descobriria a menor expressão hostil ou agressiva. Os dois atores deste drama singular já se tinham por tal forma habituado a vestir sua ironia de afabilidade e galanteria, que vendavam completamente a intenção. 

Muitas vezes D. Firmina aproximava-se no meio de uma dessas escaramuças de espírito e supunha ao ouvi-los que estavam arrulando finezas e ternuras, quando eles se crivavam de alusões pungentes. 

A moça hesitou um instante; mas fitando de chofre o olhar no semblante do marido, perguntou-lhe: 

- Que fez dos objetos que estavam no toucador? 

Seixas conteve um assomo de nobre ressentimento e sorriu-se com desdém. 

- Não tenha susto; estão fechados nas gavetas, intactos como os deixou. Pensava talvez que parassem em alguma casa de penhor? 

Estes objetos lhe pertencem; pode dispor deles como lhe aprouver, sem dar contas disso a ninguém. Era a resposta que supunha receber e eu não teria que replicar-lhe, pois reconheço o seu direito e o respeito. 

- Penhora-me com tamanha generosidade, disse Seixas sentindo um dardo na alusão. 

- Não se apresse em agradecer. Se respeito o seu direito de dispor livremente do que é seu, também por minha parte reclamo a garantia do que adquiri com o sacrifício de minha felicidade. Casei-me com o sr. Fernando Rodrigues de Seixas, cavalheiro distinto, fanco e liberal, e não com um avarento, pois é este o conceito em que têm os criados, e brevemente toda a vizinhança, senão for a cidade inteira. 

Seixas escutara com calma forçada estas palavras da mulher, e replicou-lhe vivamente: 

- Há dias, a propósito do carro, agitou-se entre nós esta questão; volta agora o caso do toucador; e pode renovar-se a cada momento. O melhor pois é liquidá-la de uma vez. 

- Liquidemos. 

- Dê-me o braço, que ali vem D. Firmina. 

Aurélia passou a mão pelo braço de Seixas. Passeando ao longo de uns painéis de fúcsias de várias espécies e admirando as flores, tiveram eles esta conferência, que de certo nunca houve entre marido e mulher. 

- A senhora comprou um marido: tem pois o direito de exigir dele o respeito, a fidelidade, a convivência, todas as atenções e homenagens, que um homem deve a sua esposa. Até hoje... 

- Faltou-lhe mencionar uma, talvez insignificante, o amor, atalhou Aurélia brincando com um cacho de fúcsias. 

- Estava subentendido. Há apenas uma reserva a fazer acerca da espécie desse produto. Suponha que a senhora não possuísse esta bela e opulenta madeixa, suntuoso diadema como não o tem nenhuma rainha, e que fizesse como as outras moças, que compram os coques, as tranças e os cachos. Não teria de certo a pretensão de que esses cabelos comprados lhe nascessem na cabeça, nem exigiria razoavelmente senão uns postiços. O amor que se vende é da mesma natureza desses postiços: frocos de lã, ou despojo alheio. 

(continua...)

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