Por Camilo Castelo Branco (1882)
– Não deixe mortificar muito sua sobrinha com os exorcismos, Sr. Prazins. O demónio que ela tem é a doença. Faça o que lhe disse o padre-mestre Roque, que é um velho ilustrado e virtuoso. Vá dar um giro com ela. Leve-a à capital; demore-se por lá; e, quando a vir distraída, contente e com bom apetite, volte para sua casa.
O brasileiro disse que bem sabia que os exorcismos eram chérinolas; mas que o frade se lhe metera em casa, e dizia que não se ia embora sem curar ela. Acrescentou que não podia agora sair do Minho porque estava à espera que os filhos do Cerveira de Quadros perdessem na batota do Porto a sua parte de alguns contos de réis, que acharam por morte do pai; – que lhe convinha muito comprar a quinta da Ermida que partia com a dele, e havia outro brasileiro que a trazia de olho. Que a respeito da sobrinha tencionava levá-la a banhos do mar, e havia de comprar o Manual do Raspail, a ver o que ele dizia da moléstia, porque em Pernambuco toda a casta de doença se curava pelo Raspail, e que levasse o Diabo o frade e mais a caiporice dos exorcismos.
Que sim, que comprasse o Manual do Raspail – concordou o padre Osório, e saiu muito cansado – dizia ele à irmã – de lidar com as duas cavalgaduras.
XX
Marta estava no quarto, onde tinha o seu oratório de pau-preto com frisos dourados, e dentro uma antiga escultura em marfim de um Cristo dignamente representado na sua agonia humana. De cada lado da cruz ardia uma vela de cera benzida. Frei João entrara de sobrepeliz e estola: seguiam-no o Feliciano com uma vela de arrátel acesa, e o Simeão com a caldeirinha da água benta. Marta, com um pavor na vista, tremia, de pé, encostada à cómoda. O exorcista sentou-se, e chamou a energúmena com um gesto imperativo de cabeça. Ela aproximou-se hesitante e ajoelhou. Frei João compôs o semblante e deu à voz uma toada lúgubre em conformidade com a rubrica de Brognolo – com grave aspecto e voz horrível, diz o demonómano. Começou por exercitar o Preceito provativo, a ver se havia efectivamente demónio. E então bradou, fazendo estremecer Marta: In nomine Jesu Christi. Ego Joannes est minister Christi... Vinha a dizer, em vulgar, ao Demónio ou aos espíritos imundos, vel vobis spiritis inmundis, que, se estavam no corpo daquela criatura, dessem logo um sinal evidente, ou vexando-a, ou movendo-lhe os humores, segundo o seu costume, pelo modo que por Deus lhe fosse permitido: eo modo quod a Deo juerit permissum. Marta estava retransida de um sagrado horror, posto que não percebesse do latim do padre senão demónio e espíritos imundos. Nunca lhe tinham dito que ela estava endemoninhada, e à sua mentalidade faltava-lhe neste lance a força convincente e a energia da palavra para combater o engano do seu confessor. Não tinha vigor de carácter nem rudimentos de inteligência para reagir. Educada em melhores condições, sucumbiria com a mesma vontade inerte sob a violência do confessor. Há condescendentes humildades mais vergonhosas sem o diagnóstico da demência que as desculpe. Ela estava de joelhos; mas, não podendo suster-se, sentou-se num arfar de suspiros, ansiada, até que as lágrimas lhe explodiram numa torrente.
Frei João fez um trejeito de satisfação, um agouro de vitória, e pôs-lhe o Preceito lenitivo: et omnia afflictio a vobis causata. E atacou logo os demónios com o Preceito instrutivo: : et statim coram me illam prosternatis. Marta, com efeito, estava prostrada, com a face no pavimento, estirando os braços no paroxismo epiléptico, e o colo e o tronco hirtos numa inflexibilidade tetânica.
– Não há que duvidar – disse o exorcista ao marido e ao pai da obsessa. – Levemna daqui e depois continuaremos.
Marta, passado o letargo, disse ao tio que mal se lembrava do que passara no oratório com o Sr. Frei João; mas que lhe tinha medo, que não queria mais confessar-se com ele.
– Cada vez mais provado que está obsessa. Já não é ela quem fala; é o Demónio que me teme! – exclamou o exorcista com uma santa bazófia, refutando as vacilações um pouco cépticas do brasileiro; ao passo que o Simeão asseverava que a filha tinha o Demónio; porque a sua defunta mulher também o tinha, e se deitara ao rio porque nunca quisera que lhe fizessem as rezas.
Ao outro dia, vencidas as repugnâncias de Marta, continuou o exorcista, carranqueando cada vez mais e pondo vibrações horrorosas na laringe. Deu-lhe a ela o seu Brognolo para que lesse em voz alta os Preceitos que a criatura vexada pode pôr ao Demónio. Marta, de joelhos, diante do oratório, leu: Demónio maldito, eu corno racional criatura de Deus, redimida com o seu precioso sangue, depois que para me salvar se humanou, cheia de fé, te mando em virtude do santíssimo nome de Jesus, que logo me obedeças e me atormentes levemente, ou fazendo tremer o meu corpo ou lançando-o em terra, deixando-me em meu juízo.
O corpo de Marta visivelmente tremia; ela deu o livro ao exorcista com um arremesso impaciente, e murmurou soluçante:
– Deixem-me, deixem-me pelas chagas de Cristo!
Frei João sorriu-se, e resmoneou à orelha do Feliciano:
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. A brasileira de Prazins. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1778 . Acesso em: 17 jun. 2026.